Groenlândia tenta sair da dependência da Dinamarca em meio à crise
A economia da Groenlândia entra em 2025 em marcha lenta, sustentada pela pesca e por 3,4 bilhões de coroas dinamarquesas em subsídios anuais, mas pressionada por envelhecimento populacional, escassez de mão de obra e infraestrutura precária. Enquanto a base fiscal se fragiliza e o PIB cresce só 0,2%, governos e investidores estrangeiros miram o subsolo gelado da ilha, rico em minerais críticos ainda intocados.
Ilha depende da pesca e do caixa de Copenhague
Em uma ilha de 56 mil habitantes, dos quais cerca de 90% são povos inuit, a economia gira em torno do mar e do dinheiro vindo da Dinamarca. A maior parte da renda vem da pesca comercial e do subsídio anual de 3,4 bilhões de coroas dinamarquesas, algo próximo de US$ 500 milhões, fixado pela Lei de Autogoverno. Esse valor fecha as contas de um governo que precisa bancar saúde, educação e policiamento local em um território ártico caro de manter.
O Banco Nacional da Dinamarca descreve um quadro de alerta. Em relatório divulgado em janeiro, a instituição fala em “crescimento modesto e sérios desafios para as finanças públicas”. A receita não acompanha a pressão sobre o gasto social em um país que envelhece rápido, tem baixa taxa de natalidade e enfrenta falta crônica de trabalhadores qualificados. “As finanças públicas deterioraram-se surpreendentemente em 2025, e a liquidez no Tesouro da Groenlândia caiu para um nível criticamente baixo no segundo semestre do ano”, registra o documento.
O PIB da ilha cresce apenas 0,2% em 2025, depois de avançar 0,8% em 2024. O Conselho Econômico da Groenlândia projeta para 2026 uma alta um pouco melhor, de 0,8%, ainda insuficiente para reverter anos de avanço tímido. O freio está em fatores internos, como o atraso de projetos de energia e gargalos em infraestrutura básica, que encarecem qualquer nova atividade produtiva.
Mesmo ligada ao Reino da Dinamarca e membro da União Europeia, a Groenlândia fica fora do mercado comum europeu. A escolha, feita nos anos 1970, impede barcos de outros países do bloco de explorarem sua zona de pesca. A professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, Carolina Pavese, lembra que a pressão veio da própria ilha. “O mercado comum europeu implica numa política comum de pesca, que daria o direito a qualquer país membro de explorar a pesca na Groenlândia”, explica. A proteção desse setor se torna hoje ainda mais central, em meio à combinação de crise climática e queda nas exportações.
Pesca perde fôlego enquanto o gelo expõe riqueza mineral
A pesca de camarão, um dos principais produtos de exportação da Groenlândia, sente a falta de trabalhadores qualificados e o impacto do aquecimento do mar. Em 2023, as vendas externas de frutos-do-mar atingem 5,5 bilhões de coroas groenlandesas, o pico recente. Desde então, o valor recua com a redução do volume capturado e a queda de preços internacionais, segundo o banco central dinamarquês.
Grande parte do pescado ainda vai para a União Europeia, com cerca de 20% destinado à China. Os Estados Unidos não aparecem entre os principais destinos. Nas importações, a dependência se inverte: quase tudo que não é produzido localmente vem do mercado europeu, de alimentos a combustíveis e equipamentos. Com uma economia pouco diversificada, qualquer choque na pesca ou nos fluxos de subsídio amplia a vulnerabilidade social.
A mudança climática pressiona esse modelo. O Ártico esquenta mais rápido que o restante do planeta. O degelo altera rotas de peixes, afeta estoques e ameaça a forma de subsistência que sustenta a cultura inuit há séculos. “O derretimento do gelo impacta a principal forma de subsistência e cria problemas para a própria manutenção da cultura local”, avalia Pavese. Ao mesmo tempo, o recuo do gelo expõe uma nova fronteira econômica: minerais críticos e terras raras, essenciais para baterias, turbinas e uma série de tecnologias modernas.
Cerca de 81% do território groenlandês permanece coberto por gelo. Estudos indicam que, sob essa camada, há reservas significativas de minerais estratégicos, mas ainda pouco acessíveis. “Há um interesse a longo prazo em se explorar esses minérios e tentar diminuir a dependência da China, disparado o principal fornecedor, principalmente das terras raras”, afirma a professora. Os EUA lideram esse movimento, de olho na possibilidade de reduzir a vulnerabilidade da própria cadeia industrial.
O interesse ganha contornos políticos quando chega à Casa Branca. O ex-presidente Donald Trump admite, em 2019, o desejo de comprar a Groenlândia da Dinamarca. A ideia provoca reação dura de Copenhague e aliados europeus, que rejeitam qualquer negociação de soberania. Após escalar a retórica e ameaçar tarifas, Trump recua e descarta o uso de força militar. Em seguida, fala em um acordo preliminar com a Otan sobre o futuro da ilha, incluindo direitos sobre minerais de terras raras, sem detalhar o conteúdo.
Soberania, meio ambiente e a aposta arriscada nos minérios
A Groenlândia tem autogoverno desde 1979 e adota, desde 2009, uma Lei de Autogoverno que redefine a relação com a Dinamarca, sobretudo na área de recursos minerais. O conselho liderado pela premiê Mette Frederiksen administra políticas domésticas, enquanto o monarca dinamarquês segue como chefe de Estado. O parlamento local é eleito diretamente, e o Conselho Econômico monitora, de forma contínua, a sustentabilidade das contas públicas.
Com a nova lei, as autoridades groenlandesas assumem o controle sobre a exploração mineral. A regra é simples e estratégica: as receitas do subsolo pertencem ao governo local, mas, à medida que esse dinheiro entra, o subsídio dinamarquês diminui. O desenho cria um incentivo para a autonomia financeira, ao mesmo tempo em que acende um debate interno sobre o preço ambiental e social da mineração em larga escala.
Pavese lembra que a mineração de terras raras é uma das atividades mais agressivas do ponto de vista ambiental. “Por estarem em grau de profundidade no solo muito mais amplo, as terras raras têm um impacto social e ambiental muito maior do que a mineração comum”, afirma. Na Groenlândia, esse choque é ainda mais sensível. As comunidades inuit mantêm uma relação de uso coletivo do território, sem a lógica de propriedade privada típica do Ocidente. “Há uma ideia de compartilhamento do espaço, orientada pela proteção do interesse coletivo”, diz a professora.
Até agora, o degelo não avança o suficiente para permitir uma exploração em escala industrial. Nem 3% das reservas globais de terras raras são exploradas comercialmente, por falta de tecnologia e altos custos. Na ilha, o debate se concentra em levantamentos preliminares e sondagens, sem projetos consolidados de extração em massa. “Seria uma aposta muito a longo prazo, mas que vem principalmente com interesse norte-americano de driblar essa dependência da China”, afirma Pavese.
O impasse coloca a Groenlândia no centro de uma disputa que atravessa economia, clima e geopolítica. De um lado, uma população pequena, envelhecida e dependente de subsídios precisa de novas fontes de renda para manter serviços básicos e segurar os jovens no território. De outro, a exploração acelerada de minérios pode comprometer ecossistemas frágeis e romper a teia cultural que sustenta o modo de vida inuit.
O governo local tenta equilibrar pressões. A prioridade, por enquanto, é estabilizar as finanças públicas, destravar projetos de energia e preservar a pesca, ainda responsável pela maior parte das exportações. Investidores estrangeiros, em especial dos EUA e da Europa, mantêm olhos atentos nos relatórios geológicos e nas discussões internas sobre licenciamento ambiental.
Nos próximos anos, cada centímetro de gelo que derrete no Ártico tende a ampliar essa tensão. A Groenlândia precisa decidir até que ponto aceita trocar parte de sua paisagem e de sua cultura por independência econômica. As escolhas feitas agora podem definir se a ilha continuará sendo um posto avançado dependente de Copenhague ou se assumirá o papel de novo epicentro mineral de um mundo em transição energética.
