Ciencia e Tecnologia

Cometa interestelar 3I/ATLAS sofre transformação radical perto do Sol

Um cometa interestelar até então discreto surpreende astrônomos ao “acender” de forma abrupta após se aproximar do Sol. O 3I/ATLAS entra em fase de atividade intensa em dezembro de 2025, segundo equipe liderada por C. M. Lisse, da Universidade Johns Hopkins, em estudo divulgado em janeiro de 2026.

De visitante tímido a cometa em plena ebulição

Meses antes, o 3I/ATLAS parecia um visitante modesto, com pouca liberação de gás e poeira. As primeiras medições indicavam apenas a ação de gelos mais voláteis, que evaporam mesmo longe do Sol. Esse quadro muda de forma dramática depois da passagem pelo periélio, em 30 de outubro de 2025, quando o objeto atinge seu ponto mais próximo da estrela.

Com o aumento brusco de luminosidade e calor, o núcleo entra em um regime de sublimação intensa. A água, que até então permanecia presa no interior gelado, começa a evaporar em grande escala. “Vemos o 3I/ATLAS passar de um objeto relativamente calmo para um cometa totalmente ativo”, relata o grupo de Lisse no relatório científico.

Os dados mostram que a emissão de vapor d’água cresce cerca de 20 vezes em relação às observações feitas em agosto de 2025. O salto não se deve apenas a gases leves, como o dióxido de carbono. É a água, componente central dos cometas do Sistema Solar, que entra em cena e marca o início de uma fase de atividade plena.

A equipe acompanha o fenômeno a partir de observações coordenadas, combinando diferentes telescópios e instrumentos espaciais. A análise espectral, que decompõe a luz em suas cores e linhas químicas, revela sinais cada vez mais fortes de moléculas liberadas pelo aquecimento do núcleo. As imagens mostram não só um ponto mais brilhante no céu, mas uma estrutura em rápida transformação.

Química inesperada aproxima cometa interestelar dos “nossos”

O 3I/ATLAS chega ao Sistema Solar com a aura de corpo estranho. Trata-se de um objeto interestelar, que se forma em outro sistema planetário e cruza o espaço profundo antes de entrar na vizinhança do Sol. Astrônomos esperam encontrar uma química distinta, moldada por outra estrela, outra nuvem de gás, outro ambiente de nascimento.

As medições feitas após o periélio, porém, contam uma história mais complexa. O observatório espacial SPHEREx identifica emissões fortes de cianeto (CN) e de compostos orgânicos contendo carbono e hidrogênio, como metanol, formaldeído, metano e etano. Esses materiais, segundo o estudo, provavelmente estavam aprisionados sob camadas de gelo e passam a ser liberados à medida que o calor penetra mais fundo no núcleo.

Outro dado chama atenção: o fluxo de monóxido de carbono (CO) também sobe cerca de 20 vezes, indicando que um novo reservatório de gelo entra em ação. Até então, a principal assinatura vinha do dióxido de carbono (CO₂), ativo mesmo a temperaturas mais baixas. A mudança sugere que o interior do cometa é estratificado, com camadas sucessivas de gelo despertando à medida que a chamada onda térmica progride.

Com isso, as proporções entre CO, CO₂ e água passam a se aproximar das medidas em cometas clássicos do próprio Sistema Solar. Para um objeto que vem de fora, o resultado soa quase familiar. “É um comportamento surpreendentemente parecido com o dos nossos cometas”, aponta o relatório. A descoberta mexe com modelos que previam diferenças mais marcantes entre corpos formados em ambientes estelares distintos.

A aparência do 3I/ATLAS reforça o diagnóstico de transformação profunda. As nuvens de gás ao redor do núcleo, conhecidas como coma gasosa, permanecem relativamente simétricas. A poeira, porém, ganha forma de pera, com a parte mais estreita voltada para o Sol. O formato indica uma ejeção assimétrica de partículas sólidas, guiada tanto pela rotação do cometa quanto pela pressão da radiação solar.

O espectro de refletância, que mostra como a superfície espalha a luz, também muda de caráter. Antes dominado por sinais de gelo brilhante, passa a exibir a assinatura de poeira escura, de baixo albedo, que espalha mais luz azulada. Esse padrão combina com materiais ricos em olivina e carbono amorfo, expostos depois que o revestimento de gelo se perde para o espaço.

Janela inédita para cometas de fora e origem dos orgânicos

Para os pesquisadores, a chave da transformação é a onda térmica gerada pela aproximação ao Sol. O calor não fica restrito à superfície. Ele penetra gradualmente, derrete camadas internas e desbloqueia reservatórios de gelo mais profundos. Esse processo altera não só o brilho aparente, mas a própria química da nuvem que envolve o cometa.

A observação em tempo quase real dessa “descongelação” é considerada um marco. O 3I/ATLAS oferece um laboratório natural para estudar como corpos interestelares reagem ao ambiente do Sistema Solar. A forma como libera água, CO, CO₂ e moléculas orgânicas complexas ajuda a calibrar modelos de formação de cometas em outros sistemas planetários e a comparar sua composição com a dos nossos vizinhos gelados.

O impacto vai além da curiosidade astronômica. Cometas carregam parte da matéria-prima do universo, incluindo compostos orgânicos que podem servir de tijolos para moléculas mais complexas. Observar um objeto interestelar soltando metanol, formaldeído, metano e etano em grandes quantidades alimenta o debate sobre como esses ingredientes se espalham entre sistemas estelares. Em última instância, a questão toca a origem química de ambientes potencialmente habitáveis.

A transformação do 3I/ATLAS também influencia o desenho de futuras missões espaciais. Saber que um cometa interestelar pode se tornar tão ativo quanto os cometas locais, e com composição comparável, fortalece propostas de sondas dedicadas a interceptar esses visitantes. Em vez de apenas registrar uma passagem rápida, cientistas começam a vislumbrar a possibilidade de analisar in loco camadas internas recém-expostas.

Próximos alvos e perguntas em aberto

Os autores do estudo defendem o acompanhamento prolongado do 3I/ATLAS à medida que ele se afasta do Sol. A expectativa é observar como a atividade diminui, quais moléculas desaparecem primeiro e se a poeira exposta permanece escura ou volta a ganhar algum revestimento gelado em regiões mais frias. Esse “resfriamento controlado” pode revelar detalhes finos da estrutura do núcleo.

Novos cometas interestelares provavelmente serão descobertos nos próximos anos, com a entrada em operação de telescópios de varredura mais sensíveis. Cada visitante deve trazer uma combinação própria de gelos e orgânicos, testando até onde vai a semelhança com o 3I/ATLAS e com os cometas do Sistema Solar. A pergunta agora deixa de ser se esses corpos são diferentes e passa a ser quão diversa pode ser a família de mundos gelados que vagam entre as estrelas.

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