Ultimas

Menino resgatado em Bacabal volta ao quilombo e reforça buscas por irmãos

Anderson Cauã, 8, retorna neste sábado (24) à comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, em Bacabal (MA), após três dias desaparecido e intenso resgate. A volta do menino mobiliza moradores e autoridades e renova a esperança de encontrar os primos Ágatha Isabelly, 6, e Allan Michael, 4, desaparecidos há 21 dias.

Reencontro emocionado em meio a buscas exaustivas

O retorno de Anderson acontece diante de uma comunidade cansada, mas ainda em alerta. Desde 4 de janeiro, moradores do território quilombola, equipes de segurança e voluntários percorrem a mata fechada na zona rural de Bacabal à procura das três crianças. O menino é encontrado no terceiro dia de buscas, em 7 de janeiro, e volta agora para casa em um momento simbólico para quem vive a rotina de incerteza há três semanas.

O reencontro é registrado em vídeo divulgado nas redes sociais pelo prefeito de Bacabal, Roberto Costa (MDB). Nas imagens, Anderson surge sorrindo, abraça familiares e é cercado por moradores que acompanharam cada etapa das buscas. “Hoje é um dia de muitas emoções! Acompanhei a volta do menino Cauã para a sua comunidade, e isso me renova a esperança de que Michael e Isabelly também sejam encontrados em breve”, afirma o prefeito.

O caso começa no domingo, 4 de janeiro, quando Anderson, Ágatha Isabelly e Allan Michael, primos que costumam brincar juntos, desaparecem em uma área de mata próxima ao quilombo São Sebastião dos Pretos. A família percebe a demora incomum das crianças e aciona a comunidade, que inicia as buscas ainda no fim da tarde. Na segunda-feira, forças de segurança do Maranhão se somam ao esforço local, com varreduras diárias por terra e apoio aéreo em pontos estratégicos da região.

Anderson é localizado 72 horas depois, na quarta-feira (7), por três produtores rurais que trafegam de carroça a caminho do trabalho pela região do povoado Santa Rosa. Eles avistam o menino nu em meio à vegetação, desorientado, e acionam as autoridades. O resgate muda o rumo da investigação e oferece às equipes o primeiro relato direto sobre o que acontece no interior da mata.

Levantado por uma das carroças e levado às pressas para atendimento, o garoto é encaminhado ao Hospital Geral de Bacabal. Exames clínicos e psicológicos são realizados ao longo do dia. O governador do Maranhão, Carlos Brandão (PSB), informa que os laudos médicos descartam sinais de violência sexual. A avaliação física indica desidratação e cansaço, compatíveis com o período em que ele permanece sozinho na mata.

Relato do menino redefine estratégia e expõe limites da região

Após receber alta e acompanhamento especializado, Anderson é ouvido por investigadores e assistentes sociais. O menino diz que ele e os primos não foram sequestrados. Conta que os três entram sozinhos na mata, se afastam da área de convivência e acabam se perdendo em meio à vegetação densa. O depoimento afasta, por ora, a hipótese de rapto e desloca o foco da apuração para uma combinação de desorientação, vulnerabilidade infantil e dificuldade de acesso ao território.

Com o apoio de psicólogos, Anderson é levado novamente para a área onde foi encontrado, conhecida como “casa caída”. O local é uma espécie de abrigo rústico, feito de barro, troncos de madeira e coberto por palha. A visita guiada serve para reconstituir o caminho feito pelas crianças e marcar pontos de referência para as equipes de busca. “É uma distância muito grande para crianças percorrerem”, afirma o prefeito Roberto Costa em entrevista à rádio Itatiaia, ao descrever o trajeto entre o quilombo e o ponto em que o menino é localizado.

As informações fornecidas pelo garoto ajudam a refinar o mapa da operação. Equipes da Segurança Pública do Maranhão ampliam o raio de varredura e cruzam as indicações de Anderson com dados de GPS, relatos de moradores e características da vegetação. Nas primeiras duas semanas, a orientação oficial é de busca intensa em campo, com agentes percorrendo áreas alagadas, trilhas estreitas e grotas profundas em um trecho conhecido pela presença de cobras e animais peçonhentos.

Com o passar dos dias e a ausência de novos rastros, o governo admite a necessidade de rever a estratégia. A Secretaria de Segurança informa que toda a área inicialmente delimitada é “varrida” pelas equipes, sem que sinais consistentes de Ágatha e Allan sejam encontrados. A partir da terceira semana, as buscas ostensivas em solo começam a ser reduzidas, enquanto a investigação policial ganha centralidade.

O prefeito afirma que a decisão não representa desistência, mas ajuste operacional. Ele destaca o papel da comunidade quilombola, que se mantém na mata mesmo diante do cansaço. “Quero agradecer a toda a comunidade que persistentemente trabalhou para trazer Cauã de volta para casa. Todos os esforços e forças continuam empenhados para trazer nossas crianças de volta”, diz Costa, ao comentar a nova fase da operação.

Esperança renovada e pressão por respostas

O retorno de Anderson à comunidade tem efeito imediato sobre o clima em São Sebastião dos Pretos. Famílias que há 21 dias vivem entre mutirões de busca, vigílias e idas ao quartel da polícia voltam a comemorar, ainda que com cautela. O reencontro não encerra o drama, mas transforma o menino em símbolo de resistência em um território que historicamente enfrenta isolamento, falta de infraestrutura e demora no atendimento do poder público.

O caso expõe a dificuldade de realizar operações de grande porte em áreas rurais remotas do Maranhão. A logística de deslocamento exige tratores, animais e veículos adaptados a estradas de chão batido, que se deterioram com as chuvas de janeiro. Em 20 dias de buscas, equipes relatam jornadas de mais de 10 horas contínuas de varredura, com pausas apenas para alimentação e replanejamento. O custo humano recai sobre policiais, bombeiros e, sobretudo, sobre quilombolas que conhecem cada vereda e assumem riscos diários.

A repercussão nacional do desaparecimento pressiona o governo estadual a manter efetivo e equipamentos na região. A promessa do governador Carlos Brandão é de continuidade das ações, ainda que com desenho diferente. A polícia passa a trabalhar com cenários paralelos: crianças ainda na mata em área não alcançada, eventual deslocamento por terceiros depois da separação do grupo ou erro de percepção nas primeiras horas do desaparecimento.

Na prática, o que muda para a comunidade é a forma de participar das buscas. Moradores seguem entrando na mata, mas agora orientados por informações da investigação, que cruza mapas, depoimentos e imagens de satélite. Anderson, acompanhado por profissionais de saúde, segue colaborando dentro dos limites definidos pela equipe médica, que alerta para a necessidade de preservar a integridade emocional do menino.

As próximas semanas devem definir se o caso de Bacabal será lembrado como uma história de reencontros ou como uma cicatriz permanente em São Sebastião dos Pretos. A volta de Anderson reacende a expectativa de um desfecho positivo, mas também amplia a cobrança por respostas rápidas e transparentes. Enquanto as buscas por Ágatha Isabelly e Allan Michael seguem, o quilombo mantém a rotina de vigília e espera, na esperança de que a trilha aberta pelo menino resgatado ainda leve até as duas crianças que faltam voltar para casa.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *