Crise econômica e corrida por minérios colocam Groenlândia sob pressão
A Groenlândia entra em 2026 com a economia em desaceleração, dependente da pesca e de subsídios da Dinamarca, enquanto enfrenta pressão internacional por seus minérios raros. Em meio ao aquecimento acelerado do Ártico, o território autônomo vira alvo de disputas geopolíticas e precisa decidir quanto está disposto a abrir mão de sua cultura e de seu meio ambiente para garantir crescimento econômico.
Ilha entre o gelo em derretimento e as planilhas fiscais
O alerta mais recente vem do Banco Nacional da Dinamarca. Em relatório divulgado em janeiro de 2026, a instituição fala em “crescimento modesto e sérios desafios para as finanças públicas” da Groenlândia. Em 2025, o PIB avança apenas 0,2%, depois de crescer 0,8% em 2024. A projeção oficial para 2026, feita pelo Conselho Econômico da Groenlândia no outono passado, é de um tímido 0,8%.
O problema não é só o ritmo fraco. As contas do governo entram em terreno perigoso. “As finanças públicas deterioraram-se surpreendentemente em 2025, e a liquidez no Tesouro da Groenlândia caiu para um nível criticamente baixo no segundo semestre do ano”, registra o banco central dinamarquês. Para um território com pouco mais de 56 mil habitantes, 90% deles povos inuit, qualquer oscilação pesa de forma desproporcional.
A economia gira, sobretudo, ao redor do mar. A pesca responde pela principal fonte de renda, emprego e alimento. O camarão é o carro-chefe das exportações, em diferentes etapas de processamento, o que exige mão de obra qualificada. Essa indústria, porém, sente o baque da combinação entre falta de trabalhadores e mudança climática. O valor das exportações de frutos do mar atinge o pico de 5,5 bilhões de coroas groenlandesas em 2023 e cai desde então, puxado por menor volume de captura e queda de preços.
A professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, Carolina Pavese, lembra que a estrutura produtiva é frágil e altamente exposta ao ambiente. “A perda da força econômica da ilha passa pela mudança climática, simbolizada pelo aquecimento do mar. O degelo do Ártico impacta diretamente na vida marinha e na principal forma de subsistência”, afirma. O impacto vai além das estatísticas: redes vazias significam também ruptura de práticas tradicionais e de um modo de vida comunitário construído ao longo de séculos.
Essa vulnerabilidade torna o país ainda mais dependente dos repasses da Dinamarca. A Lei de Autogoverno fixa o subsídio em 3,4 bilhões de coroas dinamarquesas anuais, o equivalente a quase US$ 500 milhões. O valor funciona como um colchão fiscal, mas não resolve o desequilíbrio estrutural causado pelo envelhecimento da população, baixa natalidade e escassez de trabalhadores. Em 2025, esse colchão já não impede o aperto de caixa.
Autonomia política, pressão externa e apetite por terras raras
A Groenlândia tem governo próprio desde o fim dos anos 1970 e reforça essa autonomia em 2009, com a Lei de Autogoverno. O Executivo local assume responsabilidades sobre saúde, educação, polícia e, sobretudo, recursos minerais. O acordo com Copenhague é claro: toda receita obtida com mineração fica com o governo da ilha, mas cada nova fonte de renda implica redução proporcional no subsídio dinamarquês.
O desenho jurídico transforma o subsolo em aposta de alto risco. De um lado, há a chance de reduzir a dependência financeira. De outro, qualquer sucesso na mineração pode significar perder parte do dinheiro garantido pela Dinamarca, sem certeza sobre a estabilidade dessa nova fonte de receita. A equação fica mais complexa porque a exploração tem custo ambiental alto, num território onde a relação com a terra e com o mar é coletiva. “Há uma ideia de compartilhamento do espaço e, consequentemente, se organizam de uma forma orientada pela proteção do interesse coletivo”, diz Pavese.
O degelo muda o mapa. Sob a camada de gelo que ainda cobre cerca de 81% do território, geólogos identificam reservas significativas de minérios críticos, entre eles metais de terras raras, insumo chave para baterias, turbinas e equipamentos eletrônicos. A maior parte dessas reservas continua fora de alcance por falta de tecnologia e por limitações ambientais. Nem 3% das reservas globais de terras raras é explorada comercialmente hoje.
A perspectiva de uma nova corrida mineral desperta o interesse das grandes potências. A China domina a oferta de terras raras no mercado mundial. Washington tenta reduzir essa dependência e volta os olhos para o Ártico. “Há um interesse a longo prazo em explorar esses minérios e, consequentemente, tentar diminuir a dependência da China, disparado o principal fornecedor desses minérios”, afirma Pavese.
Nesse contexto, o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump recoloca a Groenlândia no centro do tabuleiro geopolítico. Em 2025, ele volta a defender a aquisição do território autônomo, repetindo uma ambição que causa choque em Copenhague e irrita aliados europeus. Trump chega a ameaçar tarifas contra países que se oponham ao plano e menciona a possibilidade de anexação.
A reação é imediata. A Dinamarca e seus parceiros europeus rejeitam qualquer negociação sobre soberania. Diante da resistência, Trump recua em 21 de janeiro de 2026. Descarta o uso de força militar e de tarifas e fala em acordo preliminar com a Otan sobre o futuro da Groenlândia, incluindo direitos sobre minerais de terras raras. Ele não apresenta detalhes. Dentro da ilha, as declarações alimentam o temor de que decisões sobre o subsolo sejam tomadas em mesas distantes dos fiordes e vilarejos inuit.
Quem paga a conta do desenvolvimento no Ártico
A população groenlandesa vive esse impasse no cotidiano. A maior parte dos alimentos industrializados e dos bens de consumo vem da União Europeia. Já o peixe e o camarão que garantem renda seguem na direção oposta: são exportados principalmente para países europeus, com cerca de 20% indo para a China. Os Estados Unidos, apesar do discurso de Trump, ainda não aparecem entre os grandes compradores.
O vínculo com a União Europeia é peculiar. A Dinamarca entra na então Comunidade Europeia em 1973, mas a Groenlândia resiste à integração plena. A razão está na pesca. Pavese lembra que o mercado comum europeu garante a qualquer país do bloco o direito de explorar recursos pesqueiros nas águas dos demais membros. “O mercado comum europeu implica numa política comum de pesca, que daria o direito a qualquer país membro em explorar a pesca nos territórios dos países membros e, consequentemente, na Groenlândia”, explica. O território deixa o bloco nos anos 1980, preserva o controle sobre os estoques de peixes e, ao mesmo tempo, mantém uma economia concentrada em um único setor.
A crise climática pressiona as bordas desse modelo. O aquecimento do mar altera rotas migratórias de peixes e crustáceos. O gelo que recua muda o acesso às áreas de pesca e às comunidades, encarece o transporte e desorganiza rotinas tradicionais. O efeito é econômico e identitário. Sem a previsibilidade do gelo e das marés, a cultura inuit perde um de seus principais referenciais.
A mineração surge como alternativa de longo prazo, mas levanta dúvidas profundas. Pavese define a exploração de terras raras como “uma atividade econômica extremamente predatória”, com impacto social e ambiental maior que a mineração convencional. As jazidas costumam estar em camadas mais profundas, exigem grandes quantidades de água e geram resíduos tóxicos. Na Groenlândia, ainda não há degelo suficiente para uma exploração em larga escala. O que existe são levantamentos geológicos, sondagens e testes não comerciais.
Os estudos são suficientes para acirrar a disputa geopolítica, mas não para garantir receitas que substituam a pesca e os subsídios dinamarqueses. Para o governo autônomo, comandado por um primeiro-ministro e supervisionado simbolicamente pela monarquia dinamarquesa, qualquer decisão nesse campo precisa conciliar orçamento, soberania e a proteção de um modo de vida baseado na ideia de que a terra não é propriedade individual.
Próximos passos em um Ártico cada vez menos distante
Os próximos anos testam a capacidade da Groenlândia de administrar o próprio destino num cenário de pressões cruzadas. O Conselho Econômico local acompanha de perto a trajetória das contas públicas e alerta para a necessidade de reformas que enfrentem o envelhecimento da população e incentivem o aumento da força de trabalho. Sem isso, o espaço fiscal para investimentos em infraestrutura e adaptação climática segue apertado.
As conversas sobre mineração devem ganhar fôlego, impulsionadas pelo avanço do degelo e pela corrida global por minerais estratégicos. O governo local, que exibe forte preocupação ambiental em seus documentos oficiais, se vê diante de escolhas difíceis: abrir mão de parte do gelo e de áreas sensíveis em troca de receitas futuras, ou insistir em um modelo centrado na pesca e em subsídios num mundo em transformação acelerada.
A postura de potenciais parceiros também será decisiva. A Dinamarca precisa definir até onde está disposta a ir para apoiar financeiramente a ilha sem estimular uma exploração predatória dos recursos naturais. Os Estados Unidos, a China e aliados europeus, por sua vez, medem quanto querem investir num território que ainda oferece mais promessas do que minas operando.
No horizonte imediato, a Groenlândia trabalha para atravessar 2026 sem um novo solavanco fiscal e com alguma previsibilidade para sua principal indústria. A médio prazo, a pergunta permanece aberta: quando o gelo ceder e a tecnologia avançar, quem vai decidir o que fazer com o tesouro enterrado sob a camada branca que há séculos define a vida no extremo Norte?
