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Em frio extremo, Nova York protesta contra repressão do ICE

Milhares de pessoas ocupam as ruas de Manhattan na noite gelada desta sexta-feira, 23, em protesto contra a repressão do ICE e a detenção de um menino de 5 anos em Minnesota. A marcha cobra limites às ações de agentes federais e proteção urgente para imigrantes.

Uma mochila do Homem-Aranha no centro do protesto

A concentração começa por volta das 16h30, na Union Square, coração de Manhattan. O vento corta o rosto, a temperatura cai rápido, mas a praça se enche. Organizadores estimam ao menos 4 mil pessoas comprimidas em poucos quarteirões, muitos com o mesmo rosto estampado em cartazes: Liam Conejo Ramos, 5 anos, mochila do Homem-Aranha nas costas e chapéu de coelhinho.

Ele é detido com o pai por agentes de imigração em um subúrbio de Minneapolis na terça-feira. A foto, divulgada ao longo da semana, corre redes sociais, telejornais e grupos de ativistas. Em Nova York, vira símbolo de um clima de medo que não se restringe a Minnesota.

“Quero dizer, é tudo tão doloroso”, diz, já no início da marcha, a norte-americana Gina Cirrito, 47, cofundadora de uma organização que apoia famílias em busca de asilo. Ela caminha pela 14th Street segurando um pedaço de papelão onde se lê: “Querido Liam, sentimos muito”. “Aquela imagem realmente me tocou profundamente. Meu coração se partiu.”

O protesto se move às 17h, ao som de “Don’t Stop Believing”, clássico da banda Journey, que sai das caixas de som improvisadas. A multidão segue para oeste pela 14th Street e depois vira para o norte. Patinadores avançam em zigue-zague, braços erguidos. Centenas levantam o punho fechado. Outros apenas encaram os prédios de vidro, onde trabalhadores observam atrás das janelas.

Reação às operações federais de Trump

O alvo não é só a cena específica em Minneapolis. O governo Donald Trump envia milhares de agentes do ICE para cidades e estados governados por democratas, em uma ofensiva que a Casa Branca vende como combate ao crime e à imigração ilegal. Críticos descrevem outra coisa: uma campanha de intimidação que entra em bairros residenciais, igrejas e estações de metrô.

Em 2025, segundo análise do New York Times, o governo prende e deporta cerca de 230 mil pessoas que já estão dentro do país e outras 270 mil na fronteira. Ao mesmo tempo, o número de tentativas de cruzar a fronteira sudoeste cai a patamares recordes. Para líderes locais, esses dados esvaziam o argumento de emergência migratória usado pela administração.

“Trump e os membros de seu governo têm desfilado pelo país dizendo que tudo se resume à segurança”, afirma Murad Awawdeh, presidente da Coalizão de Imigração de Nova York e um dos organizadores da marcha. “Sabemos que isso não é verdade. Trata-se de crueldade.”

A caminhada transforma avenidas comerciais em corredor de palavras de ordem. Na 23rd Street, a marcha para diante dos escritórios da Palantir, empresa de análise de dados acusada pelos manifestantes de alimentar sistemas usados nas operações migratórias. O coro tenta atravessar as paredes: “Palantir fora de Nova York”. Metros à frente, a Home Depot se torna novo alvo. Diante da loja, protegida por fileiras de policiais, a resposta é curta: “Vergonha”.

O contraste entre o aparato de segurança e a variedade de perfis na rua salta aos olhos. Estudantes, idosos, famílias com carrinhos de bebê, imigrantes recentes e nova-iorquinos de longa data se misturam. Alguns cobrem o rosto com cachecóis apenas por causa do frio. Outros preferem a discrição em um momento de aumento de detenções internas.

Medo cotidiano e disputa política

Na multidão, a educadora ambiental Barbara Augsburger, 67, moradora do East Village, tenta explicar por que sai de casa sob sensação térmica negativa. “Eles estão sequestrando pessoas”, diz. “É uma loucura. Não queremos viver assim.”

Aos 82 anos, Marilyn Vogtdowny segura firme o braço de um amigo enquanto caminha. Se considera privilegiada por ter cidadania garantida, mas não vê distância entre as imagens mais recentes e o que leu em livros de História. “Parece idêntico a outros regimes autoritários”, afirma. “Trata-se realmente de defender a democracia.”

Natalia Navas, 38, nascida nos Estados Unidos, ouve advertências da própria família para não ir. Os pais, imigrantes de El Salvador, temem qualquer contato com agentes federais. Ela decide ignorar. “Mesmo sendo cidadão, você tem medo de ir ao supermercado porque parece que eles estão apenas perseguindo pessoas de pele negra”, diz. “Nós somos a essência de Nova York, e eles se esqueceram disso.”

Os organizadores aproveitam o palco montado na Union Square para pressionar diretamente o Legislativo estadual. Pedem a aprovação de projetos que financiam atendimento jurídico emergencial para imigrantes e restringem a cooperação de polícias locais com o ICE. A ideia é reduzir o alcance de batidas federais em bairros onde a presença de imigrantes sustenta restaurantes, pequenas lojas, serviços e parte do mercado de trabalho informal.

Líderes eleitos e ex-ocupantes de cargos aparecem na linha de frente. O deputado Dan Goldman, democrata que representa partes de Manhattan e Brooklyn, circula entre os manifestantes. Brad Lander, ex-controlador da cidade e também democrata, sobe ao carro de som. O recado ao governo federal é duplo: pressão nas ruas e tentativa de blindagem institucional em estados administrados pela oposição.

Pressão crescente e disputa que ultrapassa fronteiras

O ato desta sexta-feira não surge isolado. Minnesota vive greve geral contra as ações do ICE, com centenas de empresas fechadas e prisões de líderes religiosos, inclusive dentro de igrejas. Em outras cidades, vídeos de agentes mascarados detendo cidadãos em ruas residenciais alimentam protestos diários. Cada novo caso devolve o tema da imigração ao centro da campanha presidencial norte-americana e reforça uma divisão que atravessa famílias, partidos e fronteiras.

O governo Trump orienta agentes a entrar em casas de imigrantes sem mandado judicial em determinadas situações, segundo denúncias de organizações civis. Advogados veem uma erosão de garantias constitucionais básicas. Para imigrantes sem documentos, o efeito é imediato: retração da vida pública, medo de acessar serviços de saúde, receio até de levar filhos à escola.

Em Nova York, a pressão se concentra agora sobre a Assembleia Legislativa estadual e a Câmara Municipal. Projetos em discussão podem criar fundos permanentes para defensorias especializadas, aumentar a transparência sobre contratos com empresas de tecnologia e impedir que bancos de dados locais alimentem operações federais. Grupos de direitos civis avaliam que, se aprovadas, essas medidas servem de modelo para outras cidades governadas por democratas.

O desfecho do caso de Liam e do pai ainda é incerto. Organizações em Minnesota tentam garantir que ambos tenham acesso a advogados e que o menino não seja separado por longos períodos da família extensa. A imagem da mochila do Homem-Aranha, porém, já cumpre outro papel. Vira atalho visual para um debate que parecia abstrato para parte da opinião pública e agora ganha rosto, idade e frio concreto nas ruas de Nova York.

As próximas semanas devem mostrar se a onda de protestos se converte em mudanças legislativas ou se o conflito se aprofunda com novas operações do ICE. A disputa sobre até onde pode ir o poder federal na perseguição a imigrantes passa a ser também um teste sobre que tipo de democracia os Estados Unidos pretendem sustentar diante do mundo.

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