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Homem é morto a tiros por agentes do ICE em operação em Minneapolis

Um homem morre na manhã deste sábado (24/1) após ser baleado por agentes federais de imigração no sul de Minneapolis, em Minnesota. A vítima é atingida várias vezes no peito durante uma operação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e não resiste aos ferimentos após ser levada a um hospital local.

Cidade sob tensão após novas denúncias contra o ICE

O tiroteio acontece em um momento de forte tensão em Minneapolis. Desde sexta-feira (23/1), moradores ocupam as ruas contra a escalada das operações migratórias e contra a morte de Renee Good, baleada por um agente federal no início de janeiro. A nova morte, em menos de um mês, aprofunda a desconfiança em relação à conduta dos agentes e amplia a pressão sobre Washington.

O chefe de polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, confirma o óbito ao jornal local The Minnesota Star Tribune. Testemunhas relatam que pelo menos sete agentes do ICE cercam o homem, o imobilizam no chão e disparam várias vezes contra o peito dele. Um dos presentes descreve a cena como uma execução. O homem é socorrido ainda com vida e levado a um hospital, mas a equipe médica declara a morte pouco depois da chegada.

A identidade da vítima não é divulgada oficialmente até o início da noite de sábado, enquanto familiares são notificados. Nas redes sociais e em transmissões ao vivo feitas por moradores, o clima é de choque e revolta. Flores, velas e cartazes com frases contra a violência estatal se acumulam na calçada próxima ao local dos disparos, no sul da cidade, em uma área residencial marcada pela presença de imigrantes latino-americanos e africanos.

O episódio alimenta um debate que já mobiliza a cidade há semanas: onde termina a política migratória e onde começa o abuso de poder. Em vídeos que circulam online, manifestantes repetem que ninguém se sente seguro, independentemente do status migratório. “Isso poderia ser meu pai, meu irmão, meu vizinho”, diz uma moradora em uma transmissão ao vivo.

Protestos em frio extremo e economia paralisada

A morte ocorre um dia após uma greve geral que paralisa parte da economia de Minnesota. Na sexta-feira (23), centenas de empresas em todo o estado fecham as portas e moradores suspendem atividades cotidianas em apoio ao chamado “Dia da Verdade e da Liberdade”. Organizações comunitárias, igrejas e grupos de defesa de imigrantes planejam o ato há semanas, em resposta ao aumento das operações do ICE e às denúncias de maus-tratos em custódia federal.

Mesmo sob alerta de frio extremo, com temperaturas em torno de -20 ºC e sensação térmica ainda mais baixa, milhares de pessoas marcham pelo centro de Minneapolis. Famílias com crianças pequenas, trabalhadores do comércio e estudantes caminham com cartazes pedindo o fim das prisões em massa e a responsabilização de agentes que usam força letal. O episódio deste sábado reforça o sentimento de urgência entre os organizadores.

As críticas ganham eco no governo estadual. O governador de Minnesota, Tim Walz, afirma nas redes sociais que conversa com a Casa Branca logo após ser informado sobre o tiroteio. Ele classifica a morte como “mais um ataque a tiros atroz feito por agentes federais” e diz que “Minnesota não aguenta mais. Isso é repugnante”. A declaração amplia a dimensão política do caso e empurra o tema para o centro do debate nacional sobre imigração e segurança.

A mobilização não se limita às ruas de Minneapolis. No Aeroporto Internacional de Minneapolis–St. Paul, manifestantes vindos de outros estados, como Nova York, protestam contra as ações do ICE em terminais de embarque e desembarque. Segundo a CNN, a polícia aeroportuária detém várias pessoas, sem divulgar números oficiais até o início da tarde. O aeroporto se torna símbolo de um sistema migratório que, na visão dos críticos, transforma rotina de viagens e encontros familiares em cenário de medo permanente.

Casos recentes ajudam a explicar a intensidade da reação. Na sexta-feira, uma menina de dois anos detida por agentes federais consegue reencontrar a mãe após pressão pública. Em outra operação, um menino de cinco anos é preso em Columbia Heights. Testemunhas contestam a versão oficial de que o pai teria abandonado a criança antes da detenção. Duas mulheres que passaram pela custódia do ICE também relatam que prestam socorro a um agente que sofre convulsão durante o transporte a um prédio federal, episódio usado por elas para apontar falhas de treinamento e atendimento médico dentro do sistema.

Pressão por investigação e mudança nas políticas migratórias

A sucessão de casos cria desgaste acelerado para o ICE e para outras agências federais envolvidas na aplicação das leis migratórias. O comandante da Patrulha da Fronteira, Greg Bovino, e o diretor assistente do ICE, Marcos Charles, afirmam enfrentar uma “narrativa falsa” sobre o perfil dos agentes e das pessoas detidas. Segundo eles, as operações seguem protocolos de segurança e visam pessoas em situação irregular ou com antecedentes criminais. As imagens de um homem imobilizado e baleado à queima-roupa, porém, alimentam a percepção oposta entre moradores e ativistas.

Especialistas em direitos civis ouvidos pela imprensa local apontam que, mesmo em ações de imigração, o uso da força letal deve ser absolutamente excepcional. Famílias de imigrantes relatam que, na prática, qualquer abordagem gera pânico. “Quando você tem crianças de dois e cinco anos algemadas ou separadas dos pais, não estamos falando só de política migratória. Estamos falando de trauma coletivo”, resume uma advogada que atua em casos de deportação em Minneapolis.

Organizações nacionais de direitos humanos cobram uma investigação independente sobre a morte deste sábado e sobre a de Renee Good. Parlamentares democratas de Minnesota defendem que o Departamento de Justiça abra um inquérito federal para apurar padrão de violência em operações migratórias no estado. Grupos conservadores, por outro lado, insistem na manutenção de uma linha dura na fronteira e acusam críticos do ICE de fragilizar a aplicação da lei.

A Casa Branca acompanha a escalada de tensão em um ano que pode redefinir o rumo da política migratória nos Estados Unidos. O caso em Minneapolis se soma a um histórico de controvérsias envolvendo separação de famílias, centros de detenção superlotados e relatos de abusos. Nos bairros mais afetados, a mensagem de manifestantes se repete em cartazes e discursos improvisados: sem transparência, responsabilização e mudança de protocolo, cada nova operação do ICE traz o risco de mais uma morte.

A morte do homem no sul de Minneapolis transforma uma ação de rotina em marco político e social para a cidade. A investigação oficial deve responder quem autorizou a operação, quais armas foram usadas, quantos disparos atingiram a vítima e se havia qualquer ameaça real à integridade dos agentes. As ruas, porém, já apontam uma resposta provisória: enquanto não houver clareza sobre como e por que um homem imobilizado acaba com vários tiros no peito, o conflito entre o governo federal e as comunidades imigrantes tende a se aprofundar.

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