Textor admite falta de transparência e revela dívida de R$ 210 mi do Lyon
Sob protestos no Nilton Santos neste sábado (24), John Textor admite falta de transparência, promete aporte milionário para derrubar o transferban e revela dívida do Lyon com o Botafogo.
Torcida em protesto, dirigente pressionado e promessa de dinheiro novo
O relógio marca o início da noite no Estádio Nilton Santos quando os primeiros gritos de protesto se espalham pelas arquibancadas antes de Botafogo x Bangu, pelo Campeonato Carioca. O alvo é John Textor, dono da SAF alvinegra, cobrado por silêncio, dívidas e pela punição de transferban que trava as contratações desde 31 de dezembro do ano passado.
Pressionado, o empresário norte-americano decide falar. Em entrevista ao canal “Arena Alvinegra”, ainda no estádio, ele pede desculpas, admite “falta de transparência” e tenta virar a chave com uma promessa clara: um novo aporte de capital, já aprovado por investidores da Eagle, vai bancar o fim imediato da sanção da Fifa e abrir espaço para reforços.
“Nos últimos dias tivemos a aprovação para trazer uma quantidade significante de capital ao clube. Tivemos aprovação da Eagle”, afirma Textor. Em seguida, ele se dirige diretamente ao torcedor que protesta: “Peço desculpas pela falta de transparência, mas isso precisava ficar confidencial”.
O dirigente explica que as negociações com o fundo Ares exigem sigilo até a conclusão. O preço desse silêncio, porém, se materializa nas faixas e nos cânticos de um sábado que expõe a desconfiança crescente em relação ao comando da SAF.
Aporte, modelo de controle e a promessa de independência financeira
Textor tenta mostrar que o novo dinheiro não é apenas um socorro imediato. Segundo ele, o desenho do aporte abre espaço para que os investidores que chegam se tornem, no futuro, donos do Botafogo, dividindo o controle hoje concentrado na Eagle.
“A estrutura da chegada de dinheiro é desenhada para permitir investidores com caminho para que sejam donos. Esses parceiros se juntam comigo. É uma estrutura amigável para o futuro do Botafogo. Nos dá independência à antiga estrutura da Eagle e da Ares”, diz o empresário.
O dirigente não detalha valores, prazos ou percentuais de participação, mas garante que o capital está liberado e entra, segundo ele, já nesta semana. “O dinheiro foi aprovado para chegar nessa semana. Todos os atletas que queremos assinar estarão prontos para assinar. Isso resolve o transferban. É tudo que irei dizer”, encerra, mantendo parte das informações ainda fora do alcance do torcedor.
Na prática, o fim do bloqueio de registro de jogadores devolve ao Botafogo um poder básico em plena pré-temporada: contratar. Desde o último dia de 2025, o clube está impedido de inscrever reforços por descumprimento de obrigações financeiras reconhecidas pela Fifa. O cenário trava negociações, encarece acordos e alimenta o clima de instabilidade que explode no Nilton Santos.
A promessa de Textor, se cumprida, recoloca o clube na mesa de negociações ainda em janeiro, fase em que rivais já avançam em reforços e ajustes de elenco para 2026. O dirigente aposta que a regularização rápida e a chegada de novos investidores reduzem a pressão política e reposicionam a SAF como ativo atraente também para o mercado financeiro.
Lyon deve R$ 210 milhões e vira peça-chave no tabuleiro alvinegro
A entrevista no Nilton Santos não se limita ao transferban. Em meio às respostas, Textor revela um dado que amplia a dimensão do problema financeiro: o Lyon, clube francês também ligado ao empresário, deve 34 milhões de euros ao Botafogo, algo em torno de R$ 210 milhões na cotação atual.
“Tinham mais de 140 milhões de euros de ligações financeiras do Brasil para a França. Ligações que vinham da França para Botafogo, menos de 40 milhões de euros”, afirma. Na sequência, detalha: “Temos créditos que devemos dar para França se vendermos jogadores com direitos da França. O clube francês deve 34 milhões de euros ao nosso clube brasileiro. Esses são os fatos”.
Textor admite que essa engenharia interna entre Botafogo e Lyon, dois clubes sob sua influência, cria um peso adicional nas contas alvinegras. “Lyon deve uma quantia significante de dinheiro ao Botafogo. Vamos coletar essa dívida. Mas isso criou uma significante quantidade de dívidas”, reconhece.
O entrelaçamento financeiro entre os dois clubes expõe um ponto sensível da multipropriedade no futebol: quando as engrenagens não giram na mesma velocidade, a dívida de um lado estoura no outro. No caso do Botafogo, a cobrança sobre o Lyon vira não só assunto esportivo, mas também disputa contábil que interessa a torcedores, credores e potenciais investidores.
A revelação de que o clube francês deve cerca de R$ 210 milhões ao alvinegro ajuda a explicar parte do desequilíbrio atual, mas não resolve a urgência de caixa. O aporte recém-aprovado cumpre esse papel imediato, enquanto a recuperação do crédito com o Lyon se projeta como batalha de médio prazo, com impacto direto na capacidade de investimento do Botafogo em futuras janelas.
Reabertura do mercado, clima político e o que vem pela frente
A derrubada do transferban, se confirmada nos próximos dias, muda o roteiro da temporada alvinegra. O Botafogo volta a ter condições de registrar novos jogadores, reforçar posições carentes e dar ao técnico mais opções para o Campeonato Carioca e as competições nacionais.
A movimentação também interessa a patrocinadores e parceiros comerciais, que observam a combinação entre estabilidade esportiva e segurança financeira antes de ampliar contratos. Um clube travado por punições internacionais tende a perder valor de marca; um clube que anuncia aporte, quita pendências e volta ao mercado recupera parte dessa confiança.
Dentro das arquibancadas, a equação é mais emocional. O pedido de desculpas de Textor e a promessa de transparência maior marcam uma inflexão no discurso de um dirigente acostumado a falar em projetos grandiosos, mas pouco claro em números e prazos. A reação da torcida, porém, vai depender menos das frases e mais de fatos verificáveis: saída do transferban, chegada de reforços, clareza sobre a dívida com o Lyon e estabilidade no dia a dia do clube.
O próximo capítulo se desenha nas próximas semanas, quando o dinheiro prometido precisa, de fato, entrar no caixa e aparecer no boletim da Fifa como quitação das pendências que geraram a punição. A torcida, que hoje protesta no entorno do Nilton Santos, passa a acompanhar não só a tabela do Campeonato Carioca, mas também uma tabela invisível de débitos, aportes e cobranças internacionais.
Se o aporte se confirma e o Lyon paga o que deve, o Botafogo ganha fôlego para sustentar o modelo de SAF e competir em um patamar mais alto. Se as promessas emperram em novas confidencialidades, o transferban derrubado agora pode se transformar apenas no primeiro capítulo de uma crise mais longa na relação entre John Textor e o clube que ele promete recolocar entre os protagonistas do futebol brasileiro.
