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Zema diz que vai até o fim na disputa presidencial para atacar nepotismo

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), afirma neste sábado (24/1) que seguirá até o fim na disputa presidencial de 2026. Em entrevista ao portal Metrópole, ele diz que a candidatura busca elevar o nível do debate político e colocar no centro temas como nepotismo e transparência na gestão pública.

Zema deixa governo em março e mira debate nacional

Zema escolhe a manhã de um sábado, durante o programa Jornal da Bahia, para cravar que não recua da corrida ao Planalto. Ele confirma que deixa o comando de Minas Gerais em 22 de março de 2026 para se dedicar integralmente à campanha, abrindo uma sucessão antecipada no segundo maior colégio eleitoral do país.

O movimento consolida uma pré-candidatura lançada em agosto de 2025 e ainda em busca de espaço num cenário dominado por nomes mais conhecidos. O governador, no entanto, tenta transformar a desvantagem em narrativa de crescimento. Lembra que em 2018, quando concorre pela primeira vez ao governo mineiro, começa com menos de 1% das intenções de voto e termina eleito. Agora, destaca pesquisas que o colocam com 3% ou 4%. “Estou muito melhor do que em 2018. Sair do zero é muito mais difícil do que sair de alguma coisa”, afirma.

O cálculo político inclui o uso da vitrine nacional para reforçar a marca do Novo, partido que busca sobreviver a um ciclo de perda de cadeiras no Congresso. Ao insistir que seguirá “até o fim”, Zema tenta afastar a leitura de que sua presença na disputa serve apenas como moeda de negociação em eventual segundo turno.

Nepotismo e sigilos longos entram na mira

O governador apresenta a campanha como um veículo para temas que, segundo ele, hoje passam à margem das discussões presidenciais. O alvo principal é o nepotismo, prática histórica da política brasileira que envolve a nomeação de parentes e aliados para cargos estratégicos. “Se você quer ser político, esqueça os amigos e a família. Você está recebendo dinheiro público, não está ali para distribuir favores”, afirma, em crítica direta ao uso da máquina estatal como extensão de interesses privados.

Ele cita tribunais de contas como exemplos de órgãos onde a indicação de familiares de políticos se tornou regra silenciosa. Esses tribunais, responsáveis por fiscalizar o uso de bilhões de reais em recursos públicos todos os anos, são apontados há décadas por especialistas como espaços de influência cruzada entre Executivo e Legislativo. Ao trazer o tema para o palanque, Zema testa o apelo de uma agenda de integridade administrativa em meio a disputas marcadas por polarização ideológica.

A transparência na gestão pública é o outro pilar do discurso. O governador critica os chamados “sigilos de cem anos”, usados por diferentes governos federais para blindar informações sobre gastos, agendas e decisões. Defende que dados relevantes sejam divulgados de forma quase imediata. “O que eu faço hoje, no mês seguinte está lá no Portal da Transparência”, diz, ao comparar o padrão que afirma adotar em Minas à demora para abertura de informações em nível federal.

O debate sobre sigilo ganha peso depois de sucessivos embates entre órgãos de controle, governo federal e Judiciário, em torno da Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012. Na prática, a crítica de Zema se dirige a um modelo que permite o fechamento de documentos por prazos que chegam a 25 ou até 100 anos, a depender do grau de classificação. Ao prometer revisão desses mecanismos, ele se alinha a discursos anticorrupção que marcaram campanhas desde 2014, mas tenta reposicionar o foco em instrumentos de transparência mais do que em operações policiais.

Impacto na disputa presidencial e em Minas Gerais

A decisão de permanecer na corrida presidencial mexe no xadrez nacional e regional. Em Brasília, a presença de um candidato liberal, com controle de um dos maiores orçamentos estaduais do país até março, pressiona adversários a responderem sobre indicações políticas e o uso de cargos para acomodar aliados. A tendência é que temas como composição de tribunais de contas, nomeações para estatais e critérios de escolha de ministros ganhem espaço em entrevistas, sabatinas e debates de TV.

No plano eleitoral, mesmo com percentuais ainda modestos, Zema ocupa um nicho específico. Ele tenta falar ao eleitorado que rejeita tanto o campo governista quanto a oposição tradicional, mas cobra compromisso com controle de gastos e abertura de dados públicos. A estratégia pode não ser suficiente para levá-lo ao segundo turno, mas tem potencial para pautar o discurso de candidaturas mais competitivas, interessadas em não parecer tolerantes com velhas práticas de compadrio.

Em Minas Gerais, a saída do governador em 22 de março antecipa uma disputa pelo Palácio Tiradentes e redistribui forças entre aliados e adversários. A mudança de comando, a menos de sete meses do primeiro turno, transforma o estado em laboratório para alianças e rompimentos que tendem a se refletir na eleição nacional. A gestão mineira passa a ser observada com lupa por partidos que medem o impacto de apoiar ou rejeitar o projeto presidencial de Zema.

As bandeiras de combate ao nepotismo e de transparência também podem atingir diretamente caciques regionais. Prefeitos, deputados e dirigentes partidários que usufruem de indicações cruzadas em consórcios, autarquias e empresas públicas sabem que o debate nacional pode respingar nas estruturas locais. O custo político de manter parentes em postos estratégicos aumenta à medida que o tema entra no radar do eleitorado urbano, mais conectado a portais de dados abertos e redes sociais.

Próximos passos e incertezas da campanha

Com o cronograma definido para deixar o governo, Zema abre a fase de montagem da equipe de campanha, elaboração do plano de governo e negociação de palanques regionais. O desafio é transformar a retórica de “enobrecer o debate” em propostas concretas, com prazos e metas verificáveis, para reforma dos tribunais de contas, regras de nomeação e revisão de sigilos oficiais. A pressão por detalhamento deve crescer à medida que o horário eleitoral se aproxima e que outros candidatos passam a disputar o mesmo terreno anticorrupção.

A agenda que o governador tenta impor testa a disposição do eleitor brasileiro de 2026 em voltar a discutir integridade e transparência de maneira estruturada, depois de anos de fadiga com escândalos e crises sucessivas. O próprio desempenho de Zema nas pesquisas, hoje na faixa de 3% a 4%, servirá como termômetro dessa disposição. Se o discurso contra o nepotismo ganhar tração, terá força para reconfigurar estratégias de campanhas maiores. Se ficar restrito a um nicho, ainda assim deixará na mesa uma pergunta incômoda para a eleição que se aproxima: até que ponto o país está disposto a enfrentar a cultura dos favores que sustenta a política há décadas?

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