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Irmãos de Dias Toffoli levam vida discreta em Marília enquanto negócio com resort de luxo é investigado

Os irmãos do ministro do STF Dias Toffoli levam uma rotina discreta em Marília (SP) enquanto antigas ligações societárias com o resort Tayayá, no Paraná, entram no centro de um inquérito sensível no Supremo. A reportagem esteve na cidade nesta sexta-feira (23) e encontrou portas fechadas, cortinas cerradas e uma família que evita qualquer exposição pública desde que vieram à tona os negócios com o grupo ligado ao Banco Master.

Portas fechadas em Marília, helicóptero no Tayayá

No Jardim Universitário, bairro de ruas estreitas em Marília, a campainha toca mais de uma vez. Alguém espreita pela janela e fecha a cortina. Do lado de fora, a cena contrasta com o patrimônio no papel: a casa simples, usada como sede da Maridt Participações, concentra o fio que liga a família Toffoli a um dos resorts mais luxuosos do interior do Paraná.

Na garagem espremida, três carros dividem o pouco espaço: um BYD, um Toyota Etios e um Volkswagen Taos, avaliados juntos em cerca de R$ 400 mil. Ali vive José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro, ao lado da mulher, Cássia. É também o endereço formal da Maridt, empresa que participou do quadro societário do Tayayá e da DGEP Empreendimentos, em Ribeirão Claro (PR), e que declara ter vendido toda a participação por R$ 6,7 milhões, em duas operações entre 2021 e 2025.

Distante dali, o Tayayá oferece piscinas aquecidas, passeios de caiaque, quadras de beach tennis e até cassino. Funcionários ainda associam o sobrenome Toffoli à condição de “donos” do empreendimento, mesmo após a saída formal da sociedade. O ministro costuma chegar ao resort de helicóptero, segundo relatos colhidos no local.

Negócios com fundo ligado ao Banco Master alimentam pressão no STF

A ligação entre a família e o Tayayá ganha outro peso porque empresas de parentes do ministro tiveram como sócio o fundo de investimento Arleen, ligado ao Banco Master. O banco é liquidado pelo Banco Central sob acusação de fraudes contra o sistema financeiro. O inquérito que trata do caso tramita no Supremo, e o relator é justamente Dias Toffoli, alvo de pressão para deixar a função.

José Eugênio afirma, em nota, que a Maridt encerra sua participação no resort em duas etapas: uma venda ao grupo Arleen, em setembro de 2021, e outra à PHD Holding, em fevereiro de 2025. Diz ainda que todas as operações constam das declarações à Receita Federal. Registros da Junta Comercial do Paraná, porém, revelam um cronograma mais demorado e valores específicos que ajudam a dimensionar o negócio.

Em setembro de 2021, a Maridt vende quase metade de sua fatia no Tayayá ao fundo Arleen por R$ 618,9 mil. Em fevereiro de 2025, fecha a saída definitiva ao receber R$ 698 mil da PHD. Na DGEP Empreendimentos e Participações, usada como veículo societário do Tayayá, o movimento se repete: os irmãos Toffoli recebem R$ 3,1 milhões do Arleen em 2021 e R$ 3,5 milhões da PHD em 2025, somando os R$ 6,7 milhões citados pela família.

A investigação sobre o Banco Master transforma esses valores, antes restritos a planilhas empresariais, em peça de um quebra-cabeça político e jurídico. A presença de um fundo vinculado a uma instituição em colapso dentro de negócios de parentes do relator do caso no STF suscita dúvidas sobre conflitos de interesse e transparência. Advogados que acompanham o inquérito, reservadamente, afirmam que a pressão pública pela saída de Toffoli da relatoria tende a crescer à medida que novas operações vêm à tona.

Recuo da família na cidade e silêncio calculado

Desde que o caso vem a público, no fim de 2024, os Toffoli se recolhem em Marília. Vizinhos relatam que parentes antes facilmente encontrados em missas, festas e comércios agora somem das ruas. A família, uma das mais influentes da cidade, convive com a exposição dos seus negócios ao mesmo tempo em que tenta manter uma rotina de portas trancadas.

O padre José Carlos Dias Toffoli, conhecido como padre Carlão, resume esse recuo em uma frase. Pelo interfone, após ser questionado sobre a relação com o Tayayá, ele encerra a conversa: “A Maridt já deu a sua comunicação. Passar bem e até logo”. A empresa em questão é a mesma Maridt Participações S.A., da qual ele é sócio ao lado de José Eugênio e que integra o enredo societário do resort.

O envolvimento no negócio leva o religioso a se afastar da paróquia Sagrada Família. Hoje, ele tem o título de cônego com “uso de ordens”. Na prática, segue autorizado a celebrar missas, mas apenas quando convidado ou na ausência de outro padre. Perde a paróquia própria e, desde 2021, a remuneração regular de sacerdote, que gira em torno de R$ 2.467 em média, segundo o Caged.

Moradores contam que a casa simples no bairro Castelo Branco, próxima à antiga paróquia, permanece fechada. Padre Carlão passa mais tempo na chácara, em uma área verde com chalé alugado. O recuo físico acompanha o silêncio público. Nenhum dos irmãos responde aos pedidos de entrevista da reportagem por telefone ou mensagem.

Do chalé em Marília ao condomínio fechado

Dentro do clã, o contraste mais visível está na figura de Mario Umberto Degani, primo do ministro e integrante do grupo fundador do Tayayá desde 1999. Ele vive em um condomínio fechado em Marília, o Recreio Santa Gertrudes, onde uma casa de três quartos é negociada por cerca de R$ 2,5 milhões. Documentos da Junta Comercial do Paraná indicam que Degani deixa a sociedade no resort entre julho e setembro de 2025, por um total de R$ 12 milhões.

Na portaria do condomínio, funcionários informam que ele viaja a Londrina. O telefone permanece desligado. O estilo de vida de Degani, com patrimônio mais visível e endereço valorizado, destoa da discrição dos irmãos do ministro, que mantêm imóveis mais simples e uma rotina cada vez mais reservada.

Entre os nove irmãos da família Toffoli, a projeção política também marca presença. José Ticiano Toffoli comanda a prefeitura de Marília entre 2011 e 2012. Não há registro de sua participação no Tayayá, e ele também não responde aos contatos da reportagem. A combinação de influência política, negócios discretos e vínculos religiosos ajuda a explicar o peso do sobrenome na cidade.

Pressão sobre o STF e dúvidas em aberto

A revelação das operações com o fundo Arleen e com a PHD Holding alimenta o debate sobre até onde vão as responsabilidades de um ministro em relação aos negócios de seus parentes. Para especialistas em direito público, o ponto central não é apenas a legalidade das transações, mas a percepção de imparcialidade em um tribunal que julga casos de grande impacto econômico.

No STF, a discussão sobre o inquérito do Banco Master não se limita às peças processuais. Nos bastidores, magistrados acompanham o ambiente político e a reação da opinião pública. Um deslocamento de relatoria, motivado por suspeita de conflito, teria peso simbólico relevante e poderia balizar futuras escolhas em casos semelhantes.

Enquanto isso, em Marília, a vida segue sob uma espécie de cortina puxada. A avenida em obras que leva o nome de Luiz Toffoli, pai do ministro, corta uma área ainda ocupada por bois e vacas e conecta o centro à Chácara Recanto Quatro, no Condomínio Estância Uberlândia. A presença do sobrenome no mapa da cidade contrasta com a ausência dos seus integrantes no debate público.

Os próximos passos dependem do ritmo do inquérito no STF e da disposição da corte em enfrentar o tema do conflito de interesse de forma direta. Até lá, as sociedades desfeitas, os helicópteros pousando no resort e as cortinas fechadas em Marília continuam compondo um quadro que, por enquanto, oferece mais perguntas do que respostas.

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