Nasa mantém ida de astronautas à Lua mesmo com falha em escudo
A Nasa se prepara para lançar a missão Artemis II, prevista para a janela que se abre em 6 de fevereiro de 2026, mesmo após descobrir falhas no escudo térmico da cápsula Orion. A agência americana decide manter astronautas a bordo e aposta em mudanças na trajetória de reentrada e em análises adicionais para garantir a segurança do retorno à Terra.
Confiança sob pressão técnica
No Centro Espacial Kennedy, na Flórida, a rotina dos próximos meses gira em torno de um único objetivo: levar quatro astronautas até a órbita da Lua e trazê-los de volta vivos. A missão Artemis II é o primeiro voo tripulado do novo programa lunar da Nasa e marca o retorno de humanos à vizinhança lunar mais de meio século após as missões Apollo.
O plano avança sob uma sombra incômoda. O principal escudo térmico da Orion, peça que protege a cápsula de temperaturas que passam de 2.700 ºC na reentrada, apresenta um histórico de danos. Em 2022, no voo não tripulado Artemis I, a nave voltou do espaço com cavidades e perda inesperada de grandes fragmentos do material protetor Avcoat.
O episódio acendeu um alerta dentro e fora da agência. Uma revisão independente analisou o problema por anos. “Este é um escudo térmico defeituoso”, resume o ex-astronauta Danny Olivas, que integrou o grupo de investigação. “Não há dúvida: este não é o escudo térmico que a Nasa gostaria de fornecer aos seus astronautas.”
A própria Nasa admite que há incertezas. Em nota enviada à CNN, a agência afirma ter “considerado todos os aspectos” antes de liberar o voo tripulado, mas reconhece uma “incerteza inerente” tanto na forma atual do escudo quanto em eventuais mudanças no processo de fabricação dos blocos de Avcoat. A mensagem é clara: não existe cenário de risco zero.
Mesmo assim, a liderança técnica sustenta que o problema está entendido e sob controle. Olivas, crítico do hardware, hoje afirma acreditar que “a Nasa tem a solução” após anos de análises. Lakiesha Hawkins, administradora associada adjunta da Diretoria de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, reforça a linha oficial: “Do ponto de vista do risco, estamos muito confiantes”.
Uma nave bilionária em debate
A controvérsia expõe o caminho tortuoso da Orion, cápsula que já consumiu US$ 20,4 bilhões em cerca de 20 anos de desenvolvimento. O desenho atual do escudo térmico é resultado de uma mudança de rota no meio do percurso. Em 2009, os gestores optam pelo Avcoat, mesmo material usado nas missões Apollo. A primeira cápsula de teste, lançada em 2014 na missão EFT-1, recebe um escudo aplicado em uma estrutura em favo de mel, semelhante à dos anos 1960.
O conceito, na prática, se mostra difícil de fabricar. A Nasa relata rachaduras nas junções das células do favo e cura irregular do material, que fica mais frágil que o esperado. O escudo é considerado “marginalmente aceitável” para o teste de 2014 e visto como inadequado para reentradas muito mais energéticas, como as de uma missão lunar.
O programa decide então abandonar o favo de mel e passa a construir o escudo com grandes blocos de Avcoat. O primeiro teste em condições reais desse novo desenho ocorre apenas em 2022, com a Artemis I, sem tripulação. O retorno bem-sucedido da nave à Terra é ofuscado pelas imagens do escudo marcado por cavidades e perda de grandes porções de revestimento carbonizado.
Quando o problema vem a público, em relatórios internos e do gabinete do inspetor-geral em 2024, a cápsula destinada à Artemis II já está praticamente pronta. O escudo térmico está instalado e integrado à estrutura. A essa altura, trocar a peça significa redesenhar o cronograma e abrir uma frente de engenharia complexa. “Não dava para simplesmente ir a uma oficina qualquer para remover escudos térmicos”, ironiza Olivas.
A saída encontrada pela Nasa é menos visível, mas igualmente decisiva: alterar a trajetória de voo e, sobretudo, a reentrada. A agência ajusta o perfil de descida para reduzir picos de aquecimento e cargas sobre o escudo. Do ponto de vista de quem estará a bordo, trata-se do mesmo mergulho supersônico na atmosfera, só que calculado para ser mais suave para a estrutura.
O comandante da Artemis II, Reid Wiseman, abraça essa solução. “Os investigadores descobriram a causa principal, que foi a chave” para entender o problema, diz. “Se nos mantivermos na nova trajetória de reentrada que a Nasa planejou, então este escudo térmico poderá voar com segurança.”
Divisão na comunidade espacial
O consenso, porém, termina aí. Parte da comunidade espacial considera o plano arriscado demais para um primeiro voo tripulado. O ex-astronauta Charlie Camarda, especialista em escudos térmicos e integrante da primeira missão do ônibus espacial após o desastre do Columbia em 2003, está entre as vozes mais duras.
“O que eles estão planejando fazer é uma loucura”, afirma. Camarda diz ter passado meses tentando convencer a direção da agência a adiar o envio de humanos até que uma solução definitiva estivesse implantada. “Poderíamos ter resolvido esse problema há muito tempo”, avalia. “Em vez disso, eles continuam adiando a solução.”
O temor de Camarda não é apenas um acidente imediato. Ele teme que um voo bem-sucedido da Artemis II, mesmo com um escudo que racha e perde material, seja visto internamente como confirmação de que os processos de decisão da Nasa são sólidos. “Isso certamente levará a agência a uma falsa sensação de segurança”, alerta.
Do outro lado, especialistas que apoiam a missão reconhecem os danos esperados, mas apostam na “robustez” da cápsula. “O escudo térmico vai rachar? Sim, ele vai rachar”, admite Olivas. O pesquisador Steve Scotti, do Centro de Pesquisa Langley, reforça que a Orion é projetada para suportar margens significativas de dano sem comprometer a integridade da cabine.
No Centro Espacial Kennedy, essa disputa técnica se traduz em rotina de treinamento intenso. Astronautas e equipes em solo ensaiam diferentes cenários para o dia do lançamento e para o retorno à Terra. Simuladores reproduzem falhas de sensores, ajustes de trajetória de última hora e possíveis anomalias de aquecimento na fase mais crítica do voo.
A decisão de seguir em frente com humanos a bordo também tem peso político. O programa Artemis é a vitrine da Nasa para a próxima década, com metas que incluem um pouso tripulado na superfície lunar e, mais adiante, missões rumo a Marte. Cada adiamento empurra contratos, pressiona orçamentos e abre espaço para concorrentes privados e para a corrida espacial liderada por China e outros países.
Missão-teste para o futuro da exploração lunar
A Artemis II funciona como um grande ensaio geral. A missão prevê que a Orion dê uma volta ao redor da Lua e retorne à Terra após pouco mais de uma semana em voo. O trecho final, a reentrada na atmosfera, concentra o maior risco técnico e simbólico do programa.
Se tudo corre dentro do planejado, a Nasa ganha fôlego para acelerar a Artemis III, que pretende levar os primeiros astronautas a pisar na Lua desde 1972. Um voo bem-sucedido, porém, não encerra o debate sobre o escudo térmico. A própria agência admite que ainda estuda ajustes de projeto e melhorias de fabricação para as cápsulas seguintes.
Um resultado negativo, por outro lado, pode forçar uma reavaliação ampla do programa, com impacto em contratos bilionários, cronogramas internacionais e na confiança pública na agência. A memória dos desastres do Challenger, em 1986, e do Columbia, em 2003, paira sobre qualquer decisão que envolva riscos conhecidos na proteção térmica.
Entre o impulso de liderar a próxima fase da exploração humana do espaço e a obrigação de proteger quatro tripulantes, a Nasa escolhe avançar calculando margens, ajustando trajetórias e treinando para o imprevisto. A contagem regressiva para fevereiro de 2026 começa com uma pergunta que não cabe em equações: até onde vale ir quando a própria fronteira é o risco?
