Interesse dos EUA reacende disputa pela Groenlândia em meio a degelo
Os Estados Unidos voltam a movimentar bastidores diplomáticos em janeiro de 2026 e reacendem o debate sobre uma possível anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca. A ofensiva política ocorre enquanto a maior ilha do planeta derrete em ritmo recorde e tenta equilibrar pressões geopolíticas, turismo e a sobrevivência da população inuíte.
Ilha estratégica entre o degelo e a disputa de potências
No Ártico, a Groenlândia deixa de ser apenas um ponto remoto no mapa. Com 2,1 milhões de quilômetros quadrados, quase todo o território brasileiro caberia ali, mas só cerca de 57 mil pessoas vivem na ilha. O interesse crescente dos EUA combina objetivos militares, ambientais e econômicos, em um momento em que o gelo recua e abre novas rotas marítimas e possibilidades de exploração mineral.
O movimento não é inédito. No século XIX, depois de comprar o Alasca em 1867, o então secretário de Estado William H. Seward tenta adquirir Groenlândia e Islândia da Dinamarca. A proposta fracassa, mas volta à cena em diferentes formatos, sempre que o Ártico ganha peso nas disputas globais. Agora, as conversas ressurgem em um cenário mais crítico, com o degelo acelerado e a região integrada a cálculos sobre segurança energética e militar.
A base aérea de Thule, instalada no noroeste da ilha, simboliza esse tabuleiro. De lá, os EUA monitoram mísseis e movimentos militares no Atlântico Norte e no Ártico. A projeção de poder se combina com o interesse em minerais estratégicos e em potenciais reservas de petróleo e gás, ainda mais acessíveis à medida que o gelo diminui. Cada nova declaração política sobre uma possível anexação afeta diretamente a relação com Copenhague e pressiona o governo autônomo groenlandês, que busca mais autonomia sem romper com a Dinamarca.
Enquanto diplomatas medem palavras, o cotidiano na ilha segue outro ritmo. Em abril de 2023, um episódio do programa CNN Viagem & Gastronomia, apresentado pela jornalista Daniela Filomeno, expõe ao público brasileiro um retrato raro da Groenlândia. A viagem, que começa em Reykjavík, na Islândia, e segue em navio de expedição, combina paisagens espetaculares com alertas duros sobre o colapso climático.
Belezas extremas, gelo em retirada e vida inuíte em transformação
Quase 80% da Groenlândia é coberta por uma calota de gelo que domina o horizonte. Caminhadas sobre a geleira, sobrevoos e passeios por fiordes mostram um cenário monumental e frágil. “O barulho que a gente escuta não é neve. É gelo. É uma calota de geleira”, descreve Daniela, enquanto avança sobre o manto branco que, ano após ano, encolhe alguns metros.
A expedição reúne guias e pesquisadores que traduzem em números aquilo que o olhar já percebe. Na última década, cerca de 3,5 trilhões de toneladas de gelo derretem na região, o suficiente para cobrir o Brasil com quase 40 centímetros de água. Esse volume alimenta a elevação dos mares, altera correntes marítimas e mexe com o clima em lugares distantes, incluindo o litoral brasileiro.
Na capital Nuuk, onde vivem cerca de 17,6 mil pessoas, quase 30% da população da ilha, a mudança climática se mistura à rotina. As temperaturas no verão raramente passam dos 15 °C, enquanto no inverno podem cair para menos de –20 °C em várias áreas. Nas pequenas comunidades acessíveis só de barco ou avião, muitas com menos de cem moradores, a subsistência depende da pesca e da caça, sob regras rígidas do governo local.
A maioria dos habitantes é inuíte, povo originário que convive com a imagem externa de uma terra em disputa. Dentro das casas de madeira colorida, porém, a pauta é outra: garantir comida, manter tradições e lidar com a pressão de um mundo que chega pelo noticiário e pelas propostas de investimento estrangeiro. A caça de ursos polares, por exemplo, provoca desconforto em visitantes, mas segue vista por muitos moradores como parte de uma cultura que resiste ao frio e à escassez há séculos.
Ruínas vikings completam esse mosaico. No sítio de Hvalsey, reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, as paredes de pedra de uma igreja erguida há mais de mil anos permanecem de pé. O último registro de uso data de 1408, quando um casamento é celebrado ali. Entre gelo, fiordes e casas isoladas, as marcas de antigos colonizadores disputam espaço com as demandas atuais por autodeterminação inuíte.
Pressão geopolítica, turismo educativo e o que está em jogo
O interesse renovado dos EUA em anexar ou, ao menos, ampliar a influência sobre a Groenlândia tem efeitos concretos. Na prática, reforça a importância da ilha na Otan, tensiona a relação com a Dinamarca e acende o alerta em outras potências que disputam o Ártico. A Rússia investe em rotas marítimas ao norte da Sibéria. A China declara a si mesma “quase ártica” e busca acesso a portos e minerais. A Groenlândia vira peça central em uma região que concentra riscos ambientais e oportunidades econômicas.
Para a população local, o jogo é mais direto. Uma possível mudança de status político pode afetar o controle sobre recursos naturais, a legislação ambiental e os direitos de caça e pesca. A preocupação é ver decisões sobre o território tomadas em Washington ou Copenhague, longe das vilas costeiras onde a maré e o gelo determinam o ritmo de cada dia. Ao mesmo tempo, o aumento da visibilidade pode trazer investimentos em infraestrutura, educação e saúde, hoje limitados em muitas áreas remotas.
O turismo de expedição cresce nesse vácuo de incerteza. A viagem registrada por Daniela Filomeno aposta em um roteiro que combina aventura e educação ambiental. “É um turismo de aventura, mas também de aprendizado e educação ambiental”, resume a jornalista. A proposta é passar o máximo de tempo possível fora do navio, em caiaques entre icebergs, caminhadas fotográficas e longos momentos em silêncio, ouvindo o gelo se partir.
A presença de equipes de TV e viajantes com alto poder aquisitivo não é neutra. Cada desembarque em pequenas comunidades altera a economia local, cria empregos sazonais e expõe costumes que, até pouco tempo atrás, eram invisíveis ao resto do mundo. A forma como esse turismo se organiza pode reforçar a preservação ambiental e cultural ou acelerar a pressão sobre uma sociedade já vulnerável às mudanças do clima.
Futuro da ilha opõe soberania, clima e ambição de potências
Nos próximos anos, a velocidade do degelo e as escolhas políticas em Washington, Copenhague e Nuuk tendem a definir o papel da Groenlândia no mapa. A continuidade das movimentações americanas pela anexação ou por acordos mais amplos deve testar os limites da relação com a Dinamarca e com a Otan. A cada nova temporada de verão, o recuo das geleiras oferece dados adicionais para cientistas e argumentos inéditos para governos e empresas interessados em explorar a região.
A ilha segue, ao mesmo tempo, laboratório do clima, fronteira militar e casa de um povo que tenta garantir voz em decisões globais. As imagens de icebergs, vilas coloridas e ruínas vikings ajudam a sensibilizar o público, mas não resolvem a pergunta central: quem vai mandar na Groenlândia quando o gelo que hoje ainda a protege deixar de existir?
