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Amorim diz que Brasil não teme retaliação ao avaliar conselho de Trump

O principal assessor internacional do presidente Lula, Celso Amorim, afirma em janeiro de 2026 que o Brasil não teme retaliação ao avaliar o convite de Donald Trump para integrar o chamado “Conselho da Paz”. O ex-chanceler reforça que qualquer adesão depende de negociação formal e respeita a soberania brasileira. A fala ocorre em meio a dúvidas globais sobre o impacto do novo organismo nas funções da ONU.

Brasil insiste em soberania e negociação

Amorim se torna a voz mais clara do governo Lula sobre o tema ao declarar que o País não age sob ameaça, mesmo quando o convite parte de um ex-presidente dos Estados Unidos. Em entrevista a CartaCapital, ele afirma não ver risco de retaliação caso o governo brasileiro rejeite o assento no conselho desenhado por Trump para atuar em conflitos internacionais.

“Não temo risco de retaliação. O Brasil é um país soberano, aberto a ideias novas, desde que objeto de negociação”, diz. Amorim define a proposta como um “contrato de adesão”, expressão que reforça o desconforto em aceitar, sem ajustes, regras concebidas fora dos organismos multilaterais tradicionais. Até o fim de janeiro, Lula ainda não responde formalmente ao convite.

O governo brasileiro acompanha o movimento de outras grandes potências. Reino Unido, China, Alemanha e Rússia também não anunciam decisão. Espanha, França e Suécia, em sentido oposto, já descartam a participação. A União Europeia divulga nota com “sérias dúvidas” sobre a compatibilidade entre o conselho e o sistema da ONU, hoje o eixo formal da governança global desde 1945.

O contraste aparece na lista de países que já se juntam à iniciativa de Trump. Entre os signatários estão Argentina e Paraguai, na vizinhança imediata do Brasil, além de Arábia Saudita e Israel, aliados históricos de Washington em disputas estratégicas no Oriente Médio. A adesão sul-americana pressiona Brasília a se posicionar, mas o Planalto estica o prazo e testa o custo político de cada escolha.

O debate se acirra após uma conversa telefônica entre Lula e o presidente chinês, Xi Jinping, nesta sexta-feira, 23. Na ligação, Xi defende que Brasil e China reforcem o “papel central” das Nações Unidas na ordem internacional. O Ministério das Relações Exteriores chinês já havia reiterado, em nota anterior, apoio “firme” ao sistema multilateral com a ONU no centro.

Conselho de Trump desafia protagonismo da ONU

O “Conselho da Paz” é lançado por Trump apenas um dia antes do telefonema entre Lula e Xi, com a promessa de atuar como instância paralela para intervir em crises regionais e negociar cessar-fogos. A iniciativa surge em um cenário de guerras prolongadas, como a invasão russa à Ucrânia, que entra no terceiro ano, e a destruição contínua em Gaza, onde a ofensiva israelense provoca milhares de mortes civis desde 2023.

Nesse ambiente de desgaste do sistema de segurança coletivo, o novo conselho desperta ceticismo. Diplomatas em Brasília e em capitais europeias avaliam, em caráter reservado, que a iniciativa pode funcionar como atalho para ações unilaterais legitimadas por um grupo restrito de aliados de Washington. A suspeita é de que Trump tente projetar uma espécie de “ONU alternativa”, com menos freios e contrapesos.

Para o Itamaraty, o desenho atual da proposta fere princípios básicos da política externa brasileira, construídos ao longo de décadas, da redemocratização em 1985 até o terceiro mandato de Lula. A diplomacia brasileira defende multilateralismo robusto, solução pacífica de controvérsias e respeito à autodeterminação dos povos, elementos consagrados na Constituição de 1988. A participação em mecanismos paralelos só costuma avançar quando há clara complementaridade com a ONU, como ocorre no G20 ou em operações regionais avalizadas pelo Conselho de Segurança.

Amorim indica que essa lógica continua a vigorar. Ele ressalta que o Brasil está “aberto a ideias inovadoras de paz”, mas condiciona qualquer movimento à existência de um texto negociado, com prazos, obrigações definidas e garantias de que o novo fórum não reduza o papel das Nações Unidas. A referência insistente a um “contrato de adesão” expõe o receio de que o País entre em uma estrutura que não controla e da qual teria dificuldade para sair sem custo diplomático alto.

A posição brasileira ocorre também em um momento de realinhamento global. Lula volta a apostar em fóruns como o Brics ampliado, que, desde 2024, reúne economias como Arábia Saudita e Egito, e no fortalecimento de espaços regionais como Mercosul e Celac. Em 2025, o Brasil dedica boa parte de sua agenda internacional a defender reformas no Conselho de Segurança da ONU, com ampliação do número de membros permanentes e não permanentes, o que reforça a prioridade dada a instituições já existentes.

Decisão de Lula pode redefinir equilíbrio diplomático

A escolha de Lula sobre o convite de Trump tem efeito direto na posição do Brasil entre as médias e grandes potências. Uma eventual adesão aproximaria Brasília de países que apostam em arranjos seletivos, afastando-se de parceiros europeus que insistem na centralidade da ONU. Uma recusa explícita consolidaria o País no bloco de nações que veem risco de fragmentação na governança global.

Diplomatas avaliam que, em qualquer cenário, a decisão tende a repercutir na relação bilateral com os Estados Unidos, hoje marcada por ambiguidades. O governo Lula tenta, ao mesmo tempo, ampliar o comércio, atrair investimentos verdes e manter distância de agendas mais agressivas em segurança e defesa. Trump, por sua vez, usa o conselho para reafirmar a imagem de um Ocidente em torno da liderança americana e para esvaziar mecanismos que não controla.

No curto prazo, o impasse aumenta a pressão interna sobre a política externa brasileira. Setores da oposição acusam o governo de hostilidade automática a Washington e defendem alinhamento “pragmático”, centrado em benefícios econômicos imediatos. No outro extremo, parte da base lulista exige recusa rápida e pública do convite, para evitar qualquer associação a projetos que fragilizem a ONU ou relativizem violações de direitos humanos.

Entre esses polos, Lula e Amorim tentam preservar margem de manobra. O cálculo inclui não apenas o impacto na relação com Trump, mas também o sinal enviado a parceiros como China, União Europeia e Rússia, que representam parcelas relevantes do comércio e dos investimentos no Brasil. Em 2024, por exemplo, a China concentra mais de 30% das exportações brasileiras, enquanto a União Europeia responde por cerca de 14%, números que pesam em qualquer decisão estratégica.

Ainda não há prazo oficial para a resposta de Lula, mas assessores admitem, em privado, que o governo não deve prolongar o silêncio além do primeiro semestre de 2026. Até lá, o Palácio do Planalto mede cada palavra, consciente de que a opção por um conselho nascido à margem da ONU pode reposicionar o Brasil no tabuleiro global por muitos anos. A dúvida que permanece é se o País prefere arriscar protagonismo em um experimento ainda nebuloso ou reafirmar, com mais força, a aposta nas instituições que já conhece.

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