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EUA, Rússia e Ucrânia retomam negociação delicada sobre Donbass

Estados Unidos, Rússia e Ucrânia retomam neste sábado (24), em Abu Dhabi, as negociações trilaterais para tentar destravar uma saída política para o conflito em Donbass. As conversas ocorrem a portas fechadas e giram em torno da questão territorial, considerada pelos três lados o ponto decisivo para qualquer acordo.

Disputa por território trava busca por paz

As delegações chegam à capital dos Emirados Árabes com um objetivo anunciado em termos quase idênticos, mas com leituras opostas da realidade em campo. Kiev fala em uma “paz digna e duradoura” que preserve a integridade do país. Moscou insiste que a Ucrânia precisa se retirar de Donbass, região leste que considera sob sua órbita de influência e controle.

O encontro marca a retomada formal de um canal trilateral em um momento em que o front volta a registrar ataques intensos. Horas antes da rodada em Abu Dhabi, um novo ataque russo leva o presidente Volodymyr Zelensky a reforçar o pedido de suprimentos de defesa aérea a Washington. O apelo mira sistemas capazes de derrubar mísseis e drones, hoje um dos pontos mais sensíveis da estratégia ucraniana.

Diplomatas envolvidos nas conversas descrevem um roteiro conhecido: reuniões em grupo, encontros bilaterais paralelos e longos intervalos para consultas a capitais. Assim como na sexta-feira (23), mediadores tentam reduzir o espaço para vazamentos e ruídos, mantendo as sessões fechadas à imprensa. O silêncio público contrasta com a pressão crescente de aliados europeus, que cobram algum sinal de desescalada até o fim do primeiro trimestre de 2026.

O Kremlin reitera, em declarações à agência estatal russa TASS, que “o território continua sendo o principal ponto de discórdia”. Assessores de Zelensky, por sua vez, evitam falar em concessões e insistem que é “cedo demais para conclusões” sobre o processo em Abu Dhabi. Sob reserva, um integrante da equipe ucraniana admite que qualquer debate sobre linhas de controle só ganha corpo se houver garantias firmes de segurança e reconstrução.

Coração industrial em disputa desde 2014

Donbass concentra duas regiões-chave, Donetsk e Luhansk, historicamente ligadas à indústria pesada e à mineração de carvão. Antes da guerra em larga escala, em 2022, respondem por uma fatia relevante da produção industrial ucraniana, com minas, siderúrgicas e complexos energéticos que empregam centenas de milhares de trabalhadores. Para Moscou, controlar essa área significa manter influência sobre o eixo energético e logístico do leste europeu.

A região é também o ponto de partida do projeto de Vladimir Putin para desestabilizar a Ucrânia. Em 2014, grupos separatistas pró-Rússia se levantam em Donetsk e Luhansk, com apoio político e militar de Moscou, logo após a anexação da Crimeia. A partir dali, a linha de frente se move poucos quilômetros por ano, mas produz um saldo contínuo de morte e deslocamento: milhões deixam suas casas ao longo da última década.

O simbolismo pesa sobre a mesa em Abu Dhabi. Para a liderança russa, recuar em Donbass significaria admitir o fracasso de uma estratégia construída em mais de 10 anos. Para Kiev, aceitar perdas permanentes equivaleria a abrir mão de parte do coração industrial e aceitar uma cicatriz territorial que fragiliza o Estado no longo prazo. A presença norte-americana tenta modular esse embate, oferecendo garantias de segurança, ajuda militar e futura reconstrução em troca de contenção e previsibilidade.

Negociadores ucranianos evocam repetidamente o custo humano e econômico da guerra. Rodovias, pontes, usinas e ferrovias são destruídas ou operam muito abaixo da capacidade. Estimativas locais falam em prejuízos de dezenas de bilhões de dólares apenas em Donetsk e Luhansk desde 2014. Hospitais e escolas funcionam de forma intermitente, e cidades médias veem sua população cair pela metade. Cada novo ataque afasta empresas, encarece seguros e posterga qualquer plano de retorno.

Impacto regional e o que está em jogo em Abu Dhabi

O desfecho das conversas em Abu Dhabi ultrapassa as fronteiras ucranianas. Um entendimento mínimo sobre Donbass tem potencial para reduzir a pressão militar na Europa Oriental, aliviar preços de energia e frear o fluxo de refugiados rumo à União Europeia. A continuidade do impasse empurra governos da região a manter gastos militares elevados e reservas estratégicas de gás e petróleo em patamar máximo.

Autoridades em Kiev veem na rodada atual uma chance de, ao menos, pavimentar um cessar-fogo localizado em até alguns meses. A meta informal seria estabilizar a linha de contato e abrir caminho para novas missões internacionais de monitoramento, com prazo de um a dois anos. Sem esse tipo de freio, alertam analistas, ataques surpresa continuam a atingir centros urbanos, como visto em 2025, quando grandes cidades sofrem os maiores bombardeios desde o início do conflito.

Washington monitora de perto o custo político interno de seguir abastecendo a Ucrânia com armas e recursos. Cada nova solicitação de Zelensky por sistemas de defesa aérea reacende o debate no Congresso americano sobre o limite do apoio financeiro, estimado em dezenas de bilhões de dólares desde 2022. O governo Biden tenta equilibrar a pressão doméstica com o recado a Moscou de que não aceitará mudanças de fronteira obtidas à força.

Na prática, qualquer avanço em Abu Dhabi impacta diretamente a vida de moradores de Donetsk e Luhansk, que convivem com alertas de sirenes, falta de energia e serviços públicos precários. Eventual cessar-fogo permite a retomada gradual de linhas de trem, corredores humanitários mais estáveis e programas internacionais de reconstrução, hoje limitados por razões de segurança. Se o impasse persistir, o cenário é de prolongamento do desgaste, com novas ondas de deslocamento e risco permanente de escalada.

Próximos passos e incertezas no horizonte

As delegações indicam que as reuniões podem se estender pelos próximos dias, em blocos de ao menos três horas diárias. A expectativa é que algum tipo de comunicado conjunto seja divulgado até o fim da próxima semana, ainda que em termos amplos, sem mapa detalhado de controle territorial. A forma desse texto, mais do que o conteúdo imediato, serve como termômetro da disposição de cada lado em seguir conversando.

Zelensky admite publicamente que é “cedo demais” para qualquer conclusão e procura preparar a sociedade ucraniana para um processo longo, sujeito a recuos e impasses. Moscou segue enviando sinais dúbios, alternando declarações duras sobre a retirada ucraniana de Donbass com acenos pontuais à diplomacia. Washington tenta segurar esse fio frágil, apostando que sucessivas rodadas, mesmo sem grandes anúncios, possam gradualmente conter a violência.

O futuro de Donbass continua em aberto, pendurado na combinação delicada entre pressão militar, desgaste econômico e cálculo político em Kiev, Moscou e Washington. A cada dia de negociação em Abu Dhabi, moradores do leste ucraniano aguardam por uma resposta simples, ainda distante da mesa: quando a vida cotidiana volta a ser possível.

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