Esportes

São Paulo afasta de vez dirigentes envolvidos em esquema do camarote 3A

O São Paulo Futebol Clube prepara a saída definitiva de Mara Casares e Douglas Schwartzmann dos cargos ligados ao camarote 3A. A decisão é anunciada nesta sexta-feira (23), após o avanço das investigações sobre um esquema de exploração comercial irregular do espaço, que inclui a venda de ingressos para o show de Shakira com faturamento estimado em R$ 132 mil.

Crise no camarote presidencial e desgaste político

O novo presidente do clube, Harry Massis, assume o comando em meio ao escândalo e decide encerrar de vez a participação dos dois dirigentes na estrutura tricolor. Mara Casares e Douglas Schwartzmann haviam pedido licença depois que o portal ge revelou, em fevereiro, o uso irregular do camarote 3A, identificado em documentos internos como “sala presidência”, para a venda de ingressos a terceiros.

Massis anuncia que vai formalizar a saída nos próximos dias e tenta marcar distância da gestão anterior, ligada ao ex-presidente Julio Casares. O caso se torna um dos elementos centrais do processo de impeachment aberto contra o ex-mandatário, que passa a ter a conduta de aliados próxima ao núcleo da presidência examinada por conselheiros e pelo Ministério Público.

O episódio estoura em um momento em que o São Paulo tenta se reorganizar financeiramente. A nova diretoria admite uma dívida de cerca de R$ 900 milhões e busca renegociar contratos e patrocínios. Em meio a esse quadro, a revelação de um esquema de venda paralela de ingressos em área nobre do Morumbis amplia a pressão por transparência interna.

Harry Massis reforça a estratégia de se colocar como parte lesada. “Vamos apresentar tudo o que for pedido”, afirma o presidente, ao defender que o clube é vítima do esquema e que colaborará com a Polícia Civil e com o Ministério Público. A cúpula tricolor tenta conter o dano institucional enquanto a investigação avança sobre a responsabilidade individual de cada envolvido.

Áudios, disputa judicial e bastidores do esquema

O ponto de partida da crise é o show da cantora colombiana Shakira, realizado em fevereiro no estádio do São Paulo. Segundo áudios obtidos pelo ge, o camarote 3A é repassado a uma intermediária, Rita de Cassia Adriana Prado, que passa a explorar comercialmente o espaço naquela noite. Os ingressos chegam a ser vendidos por até R$ 2,1 mil por pessoa.

O faturamento estimado do negócio, de R$ 132 mil apenas nesse evento, não entra pelos canais oficiais do clube, de acordo com a investigação. O conflito explode quando Adriana aciona a Justiça contra Carolina Lima Cassemiro, da Cassemiro Eventos Ltda., na 3ª Vara Cível de São Paulo, alegando retenção indevida de um envelope com 60 ingressos do camarote, no dia 13 de fevereiro.

Na ação, Adriana afirma que a empresa de Carolina se compromete a pagar R$ 132 mil pelos bilhetes, mas deposita apenas R$ 100 mil. O restante nunca é quitado, segundo a versão dela. A intermediária registra um boletim de ocorrência na 34ª Delegacia de Polícia, o que leva o caso para a esfera policial e desencadeia a reação dos demais participantes do esquema.

As gravações revelam a tensão nos bastidores. Em um dos áudios, Douglas Schwartzmann demonstra temor de que o processo cível exponha o funcionamento do esquema. Ele pressiona Adriana a retirar a ação e alerta para o risco de desgaste público de Mara Casares, de Julio Casares e do superintendente Marcio Carlomagno, apontado como responsável por autorizar a cessão do camarote.

Schwartzmann admite em determinado momento que “ganhou” com o repasse de camarotes, o que reforça a suspeita de vantagem pessoal sobre um ativo institucional do clube. Em outra gravação, Mara Casares pede que Adriana encerre o processo judicial para evitar danos à própria trajetória no São Paulo. Ela fala em planos futuros na direção tricolor e se coloca como a principal prejudicada em caso de exposição prolongada.

Os áudios chegam às autoridades e alimentam o inquérito da Polícia Civil. Na quarta-feira (21), agentes realizam buscas em endereços residenciais dos investigados. Segundo o Ministério Público, documentos apreendidos indicam que o esquema opera por um período maior do que o inicialmente imaginado, o que amplia o escopo da apuração e abre a possibilidade de novos eventos e jogos entrarem na linha de investigação.

Impacto na imagem, no caixa e na política do clube

O escândalo atinge um dos pontos mais sensíveis da marca São Paulo: o uso de áreas nobres do estádio para fins privados. O camarote 3A, associado à presidência, simboliza poder interno e relacionamento comercial. Ao ser transformado em fonte de renda paralela, ele se torna também um foco de desconfiança entre conselheiros, patrocinadores e torcedores.

O clube tenta conter o estrago ao sustentar que não tem participação formal no esquema e que é lesado pela ação de dirigentes e intermediários. Na prática, porém, a crise força uma revisão de processos internos, desde o controle de camarotes até a fiscalização de contratos de hospitalidade em jogos e shows. Parceiros comerciais cobram garantias de que não correm risco jurídico ao associar suas marcas ao ambiente corporativo do Morumbis.

No campo político, a saída de Mara Casares e Douglas Schwartzmann abre espaço para uma reorganização de forças no Conselho Deliberativo e na diretoria. Grupos oposicionistas usam o caso como prova de que a antiga gestão perde as condições de comandar o clube. Aliados de Julio Casares tentam isolar o episódio em algumas figuras e insistem que não há indícios de que o ex-presidente tenha se beneficiado diretamente.

Os torcedores reagem com indignação nas redes sociais e em conselhos de torcedores organizados. A cobrança por transparência se soma a críticas à situação esportiva e à dívida de R$ 900 milhões, o que cria um ambiente de instabilidade prolongada. A confiança no comando do clube passa a depender da capacidade de Massis em mostrar rupturas concretas com práticas consideradas opacas.

Investigação em curso e disputa pela narrativa

A Polícia Civil e o Ministério Público seguem na coleta de depoimentos, na análise de documentos apreendidos e na checagem de movimentações financeiras ligadas ao uso do camarote 3A. A tendência é de que novos nomes apareçam à medida que contratos, e-mails e trocas de mensagens sejam cruzados com os áudios já revelados. Medidas criminais e cíveis podem atingir dirigentes, intermediários e empresas envolvidas na venda de ingressos.

Harry Massis tenta ocupar o vácuo de comando e administra, ao mesmo tempo, a crise de reputação e a agenda esportiva. Ele banca a permanência de Hernán Crespo no cargo de técnico e reforça o discurso de reconstrução institucional. A missão é dupla: acalmar o elenco em meio ao turbilhão político e provar a patrocinadores e ao mercado que o São Paulo ainda é um ativo confiável no futebol brasileiro.

No curto prazo, a oficialização da saída de Mara Casares e Douglas Schwartzmann funciona como um gesto simbólico de limpeza interna. A médio prazo, o clube será cobrado por medidas estruturais, como regras mais rígidas para o uso de camarotes e auditorias independentes em contratos de eventos. O que a apuração criminal revelar nos próximos meses pode definir não só o futuro de antigos dirigentes, mas também o rumo da própria governança tricolor.

Enquanto o inquérito segue e o processo de impeachment de Julio Casares avança, a principal dúvida paira sobre o torcedor: o afastamento de figuras-chave será suficiente para estancar a crise ou o caso do camarote 3A é apenas o sintoma mais visível de um problema mais profundo na gestão do clube?

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