Amanda nega mortes na UTI e diz ter sido alvo de tentativa de ataque
A técnica de enfermagem Amanda Rodrigues de Sousa, 28 anos, nega envolvimento nas mortes de três pacientes na UTI do Hospital Anchieta e afirma ter sido vítima de uma tentativa de ataque dentro da própria unidade. O relato é feito ao advogado de defesa, já na prisão, enquanto ela e o ex-amante Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24, seguem detidos sob investigação por homicídio qualificado.
Depoimento na prisão e mudança de versão
Em uma conversa de 70 minutos na Penitenciária Feminina do Distrito Federal, Amanda volta atrás na confissão prestada à polícia e insiste que não mata pacientes. Ao advogado Liomar Torres, ela mantém apenas a versão de que vive um relacionamento extraconjugal com Marcos, colega de plantão na UTI, e descreve o técnico como um homem “habilidoso, envolvente” e com forte capacidade de manipulação.
A nova versão surge semanas depois de imagens de câmeras internas do Hospital Anchieta, em Taguatinga, reforçarem a suspeita de participação de profissionais de saúde na morte de três pacientes entre 17 de novembro e 1º de dezembro de 2025. As vítimas são a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75 anos, o servidor da Caesb João Clemente, 63, e o funcionário dos Correios Marcos Moreira, 33. Os dois primeiros morrem em 17 de novembro; o terceiro, em 1º de dezembro.
Amanda admite que integra a equipe da UTI em 17 de novembro, data das primeiras duas mortes investigadas. Nega, porém, ter aplicado qualquer medicação letal. “Ela nega veementemente qualquer envolvimento nas mortes”, afirma o advogado, que aguarda acesso integral aos autos para definir a estratégia de defesa.
Relação com Marcos e suspeita de ataque dentro da UTI
Contratada pelo Anchieta em janeiro de 2025, Amanda acumula passagens por ao menos cinco hospitais privados de Brasília e por seleções da rede pública. No hospital de Taguatinga, aproxima-se de Marcos entre um plantão e outro. Segundo a técnica, ele diz ser solteiro, morar no Riacho Fundo e cursar fisioterapia. A investigação mostra que ele vive em Águas Lindas e não tem vínculo com o Hospital de Base, onde afirma ter trabalhado. A Secretaria de Saúde desmente o histórico profissional.
O relacionamento extraconjugal atravessa o ano e termina no fim de 2025, depois que Amanda diz descobrir a sequência de mentiras. Na conversa com o advogado, ela sustenta que não apenas é inocente como também se torna alvo do ex-amante. Relata que, entre 20 de novembro e 3 de dezembro de 2025, passa por internações sucessivas na UTI do Anchieta devido a complicações de uma cirurgia bariátrica. Nesse período, recebe alta, volta para exames e retorna ao leito intensivo.
Em 3 de dezembro, de acordo com a defesa, Marcos aplica uma substância na veia de Amanda. Ela descreve uma súbita alteração cardíaca e afirma que uma enfermeira-chefe intervém. “A enfermeira-chefe, segundo Amanda, reage dizendo que ‘o Marcos precisa parar de fazer isso, não aguento mais esse tipo de situação’ e, dias depois, pede demissão”, relata Liomar Torres. O suposto episódio ainda depende de confirmação pericial em prontuários e registros internos.
Fora do ambiente prisional, a imagem de Marcos também passa por choque entre memória e suspeita. Uma amiga dos tempos de ensino médio em Taguatinga, que prefere o anonimato, lembra um adolescente aplicado, que leva livros de anatomia para a escola. “Ele era tranquilo, carinhoso, brincalhão. Nunca demonstrou nenhum traço que pudesse indicar algo assim. É assustador ver alguém tão próximo envolvido em algo desse tamanho”, diz.
Mortes em série, enquadramento penal e clima de desconfiança
Além de Amanda e Marcos, a polícia mantém presa Marcela Camilly Alves da Silva, 22 anos. O inquérito da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) aponta, até agora, três mortes com suspeita de aplicação deliberada de substâncias letais em pacientes sedados na UTI. O Hospital Anchieta entrega à polícia um relatório que detalha o trajeto de Marcos nos corredores e quartos em 17 de novembro e 1º de dezembro.
O advogado e professor de direito constitucional e penal Vítor Sampaio avalia que o caso se encaixa, em tese, no crime de homicídio qualificado. “O enquadramento mais provável é homicídio qualificado pelo emprego de veneno ou meio insidioso, e também por recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa, já que as vítimas estavam sedadas”, explica. Para ele, outras qualificadoras, como motivo fútil ou torpe, podem ser acrescentadas conforme o avanço das investigações.
Com três mortes sob análise, a Justiça deve aplicar o chamado concurso material em eventual condenação, somando as penas de cada crime. Em cenário de homicídio qualificado, a pena varia de 12 a 30 anos por vítima. “A soma pode chegar de 36 a 90 anos. Na prática, o cumprimento não ultrapassa 40 anos, mas a natureza hedionda impõe início em regime fechado e dificulta a progressão”, diz Sampaio. Réus primários precisam cumprir, em regra, ao menos 40% da pena antes de pedir mudança de regime.
O especialista ressalta que a eventual participação de outras profissionais não reduz, automaticamente, a responsabilidade penal. “Se ficar provado que aderiram ao plano, podem responder como coautoras, com as mesmas penas. A hipótese de participação de menor importância é difícil de sustentar em um caso como esse”, afirma.
Dentro do hospital e nas famílias das vítimas, o impacto é imediato. Relaatos de medo, insônia e desconfiança se espalham entre pacientes e funcionários. Em Taguatinga e em outras cidades do DF, a notícia de mortes suspeitas em ambiente de terapia intensiva, onde o doente está mais vulnerável, corrói a confiança em protocolos de segurança, na supervisão médica e na checagem de antecedentes de profissionais.
Novas frentes de apuração e pressão por mudanças
O inquérito que apura as três mortes deve ser concluído nas próximas semanas. Investigadores da CHPP aguardam laudos de perícia em celulares e notebooks apreendidos na casa dos suspeitos e cruzam os dados com imagens de câmeras e registros de acesso. Paralelamente, a delegacia prepara um novo procedimento para apurar se outros óbitos podem ter sido provocados pelos mesmos profissionais.
A família de Rosangela Mendes, 55 anos, agente de políticas públicas em saúde, já leva o nome da mãe ao centro dessa nova etapa. Internada em janeiro de 2025 para tratar pneumonia no Anchieta, ela passa dias na UTI e relata, segundo familiares, medicações não informadas e falhas em procedimentos. A filha, Letícia Mendes, registra boletim de ocorrência em 20 de janeiro para cruzar prontuário médico e imagens internas e verificar se algum dos investigados tem acesso direto à paciente. O hospital tem até 30 dias para entregar o material.
A Polícia Civil do DF informa que ainda não consolida o número de novas ocorrências registradas desde a prisão dos técnicos. “Vamos instaurar um novo inquérito para apurar se outras mortes podem ter sido provocadas por eles. Não há nada comprovado. Estamos apurando todos os fatos relatados por familiares que nos procuraram”, afirma o delegado-chefe da CHPP, Wisllei Salomão. Ele classifica a fase atual como preliminar, mas admite que o volume de relatos exige aprofundamento.
Enquanto Amanda tenta afastar de si a pecha de assassina em série e aponta o ex-amante como ameaça, o caso pressiona hospitais privados e órgãos de controle a rever protocolos de vigilância e contratação. Câmeras, rastreamento de medicações, duplo check em leitos de maior risco e análise minuciosa de currículos tendem a entrar no centro do debate. A conclusão do inquérito e eventuais novas denúncias dirão se o episódio ficará restrito a um trio de profissionais ou se revelará uma falha mais ampla na proteção de quem entra em uma UTI confiando que, ali, está no lugar mais seguro do hospital.
