Ciencia e Tecnologia

Mesmo com falha em escudo térmico, Nasa mantém ida à Lua em 2026

A Nasa confirma para o início de fevereiro de 2026 o lançamento da Artemis II, primeira missão tripulada do programa à Lua, apesar de uma falha conhecida no escudo térmico da cápsula Orion. A agência muda a trajetória de reentrada para reduzir o estresse sobre a proteção que falhou em 2022 e sustenta que a segurança da tripulação está garantida.

Falha conhecida, calendário mantido

A janela de lançamento se abre em 6 de fevereiro de 2026, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. A missão leva quatro astronautas em um voo de cerca de dez dias em torno da Lua, passo decisivo antes de um pouso tripulado previsto para as próximas fases do programa Artemis.

No centro da controvérsia está o escudo térmico Avcoat, revestimento que cobre a parte inferior da Orion e precisa suportar temperaturas de mais de 2.700 ºC na reentrada. Em 2022, na Artemis I, voo não tripulado de teste, grandes pedaços desse material se desprendem durante o retorno à Terra e deixam cavidades visíveis na cápsula recuperada.

O problema acende o alerta na agência, que abre uma investigação independente e convoca ex-astronautas e especialistas em proteção térmica. Um deles, o ex-astronauta Danny Olivas, que integra a equipe de revisão, não suaviza o diagnóstico: “Este é um escudo térmico defeituoso. Não há dúvida: este não é o escudo térmico que a Nasa gostaria de fornecer aos seus astronautas”.

Depois de quase dois anos de análise, a conclusão interna é que o risco pode ser controlado com uma mudança no perfil de reentrada. Em vez de submeter o escudo ao mesmo pico de calor e carga da Artemis I, a Orion da Artemis II seguirá uma trajetória que distribui melhor as tensões térmicas, numa espécie de mergulho mais suave na atmosfera.

A cápsula que voará em 2026, porém, já está montada. O escudo foi instalado ainda antes do lançamento de 2022 e não pode ser simplesmente removido em um hangar e substituído por outro. A Nasa admite que qualquer intervenção profunda exigiria atrasos de anos e custos adicionais em um programa que já consome, só na Orion, US$ 20,4 bilhões em cerca de duas décadas de desenvolvimento.

Divisão entre especialistas e peso político da decisão

Diante desse impasse, a agência decide seguir em frente. Em nota enviada à imprensa, afirma ter “considerado todos os aspectos” antes de liberar o escudo térmico para voo e reconhece que há “incerteza inerente” tanto em manter o projeto atual quanto em tentar modificá-lo agora. A mensagem é clara: não existe cenário sem risco.

Olivas diz que, apesar das falhas identificadas, confia no resultado do processo técnico conduzido pela Nasa. “Na minha opinião, não existe voo que decole sem que haja uma dúvida persistente. Mas a Nasa realmente entende o que tem. Eles sabem da importância do escudo térmico para a segurança da tripulação, e acredito que fizeram um bom trabalho.”

A cúpula do programa Artemis ecoa esse discurso. Lakiesha Hawkins, administradora associada adjunta interina da Diretoria de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração, afirma estar “muito confiante” do ponto de vista de risco. Reid Wiseman, comandante escolhido para liderar a Artemis II, também se alinha à avaliação técnica. “Os investigadores descobriram a causa principal, que foi a chave para compreender e resolver o problema do escudo térmico. Se nos mantivermos na nova trajetória de reentrada que a Nasa planejou, então este escudo térmico poderá voar com segurança”, diz.

Nem todos concordam. O ex-astronauta e engenheiro térmico Charlie Camarda, que voou no primeiro ônibus espacial lançado após o desastre do Columbia, classifica o plano como temerário. “O que eles estão planejando fazer é uma loucura”, afirma. Ele integra um grupo de ex-funcionários que defende adiar o voo tripulado até que o projeto seja redesenhado e testado em condições reais.

Camarda não prevê necessariamente uma tragédia. Ele admite que a Artemis II tem grande chance de retornar em segurança. Seu temor é mais sutil: que um voo bem-sucedido valide, dentro da agência, um padrão de decisão que ele considera complacente. “Poderíamos ter resolvido esse problema há muito tempo. Em vez disso, eles continuam adiando a solução”, critica.

A divisão interna expõe o peso político do cronograma. Os Estados Unidos disputam com China, Índia e empresas privadas a próxima etapa da presença humana na Lua. Cancelar ou empurrar a Artemis II para além de 2026 significaria ceder terreno nessa corrida e alimentar críticas ao custo e à complexidade da Orion, já chamada por um físico que atuou em programas avançados de “lixo em chamas”.

Risco calculado e o que está em jogo

Por trás do debate técnico está uma discussão mais ampla sobre como o setor espacial lida com risco em missões tripuladas. A Nasa tenta se distanciar dos traumas de acidentes como o do Columbia, em 2003, e o do Challenger, em 1986, em que falhas conhecidas foram relativizadas até a perda das tripulações. Agora, a agência afirma que os riscos da Artemis II são “entendidos e mitigados”.

Os engenheiros esperam que o escudo volte à Terra com rachaduras e lascas visíveis, mesmo com a nova trajetória. A aposta é que a robustez estrutural da Orion aguente essa degradação sem comprometer a cápsula. “O escudo térmico vai rachar? Sim, ele vai rachar”, reconhece Olivas. A Orion, destaca o pesquisador Steve Scotti, do Centro Langley, nasce com margens estruturais que funcionam como uma camada extra de segurança.

O impacto da decisão vai além dos quatro astronautas e da equipe em solo na Flórida que treina, desde já, para cenários de emergência no dia do lançamento. O sucesso da Artemis II reforça a posição da Nasa como liderança na retomada da exploração lunar e fortalece o argumento de quem defende missões humanas como motor de inovação tecnológica e de prestígio geopolítico.

Um eventual problema sério na reentrada, ainda que sem vítimas, teria efeito oposto. Reabriria discussões no Congresso americano sobre orçamento, colocaria em xeque contratos bilionários e daria munição a países rivais para reivindicar protagonismo na Lua. Também reacenderia, dentro da própria Nasa, a disputa entre quem aceita riscos mais altos em nome da velocidade e quem prefere avançar em ciclos mais lentos e conservadores.

Próximo teste decisivo para o programa lunar

Até fevereiro de 2026, a agência ainda precisa concluir simulações, revisões de segurança e ensaios de contagem regressiva com o foguete de 98 metros que levará a Orion à órbita da Lua. Paralelamente, prepara futuras missões que devem incluir pousos na superfície e infraestrutura para uma presença mais constante de humanos no satélite natural.

A Artemis II se transforma, assim, em um teste de fogo não só para o escudo térmico, mas para o próprio modelo de tomada de decisão da Nasa em uma era de concorrência intensa e escrutínio público permanente. Se o voo confirmar as previsões otimistas, a agência ganha fôlego político e técnico para acelerar a próxima etapa do programa. Se os danos no retorno forem maiores do que o esperado, mesmo sem acidente, a pergunta que permanecerá em aberto é quanto risco a sociedade está disposta a aceitar para voltar à Lua.

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