Tempestade de inverno leva 15 estados dos EUA a decretar emergência
Uma tempestade de inverno de proporções raras leva, nesta sexta-feira (23), 15 estados dos Estados Unidos a decretar estado de emergência. A medida atinge diretamente mais de 160 milhões de pessoas e transforma estradas, aeroportos e centros urbanos em zonas de operação contínua de equipes de resgate e manutenção.
Capital em alerta e rede de decisões em cadeia
Em Washington, D.C., a prefeita Muriel Bowser declara estado de emergência para a capital federal logo nas primeiras horas do dia. O decreto libera recursos extras para preparar abrigos, reforçar o atendimento médico e garantir combustível, eletricidade e alimentação para moradores vulneráveis, antes mesmo do pico da tempestade. O objetivo é evitar que o frio extremo e a neve pesada transformem a cidade em um labirinto intransitável.
O movimento em Washington não ocorre isolado. Em Austin, o governador do Texas, Greg Abbott, assina uma declaração de desastre que alcança 134 dos 254 condados texanos. O texto autoriza o uso acelerado da Guarda Nacional, de equipes de manutenção de rodovias e de fundos estaduais de emergência. O estado, acostumado ao calor, lida agora com estradas congeladas, redes de energia sob pressão e áreas rurais expostas a cortes de fornecimento.
No litoral leste, a governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill, adota o mesmo caminho e decreta estado de emergência em todo o território estadual. Sherrill pede que motoristas deixem os carros em casa e anuncia restrições à circulação de veículos comerciais nas rodovias interestaduais que cruzam o estado. “Precisamos manter as vias livres para limpa-neves e equipes de emergência. Cada caminhão fora de hora pode bloquear o acesso a um hospital ou a um abrigo”, afirma.
Os decretos estaduais e municipais criam uma espécie de rede de comando distribuída, ajustada em tempo real à trajetória da tempestade. Governadores e prefeitos usam mapas atualizados minuto a minuto, previsões de rajadas de vento e projeções de temperatura para decidir onde concentrar máquinas de remoção de neve, ambulâncias e equipes de manutenção da rede elétrica.
Estradas sob restrição e impacto para dois terços do país
A tormenta cobre uma área que abriga cerca de dois terços da população americana, o equivalente a mais de 160 milhões de pessoas espalhadas por diferentes fusos, climas e economias regionais. Neve acumulada, gelo na pista e sensação térmica abaixo de zero em sequência prolongada obrigam governantes a intervir diretamente na circulação de pessoas e cargas.
Nas principais interestaduais, caminhões enfrentam limites de velocidade rígidos, janelas de circulação reduzidas ou proibição total em trechos específicos. A prioridade passa a ser a passagem de limpa-neves, viaturas de resgate e caminhões de serviços essenciais, como combustível e equipamentos para hospitais. Essa reorganização afeta cadeias de suprimentos que cruzam o país de leste a oeste e de norte a sul, com potencial para atrasar entregas por dias em setores como alimentos, medicamentos e comércio eletrônico.
Autoridades estaduais veem o estado de emergência como uma válvula de escape administrativa. A medida permite cortar burocracias, firmar contratos de forma acelerada, deslocar equipes entre cidades e acionar apoio federal sem semanas de negociação. Em muitos casos, a liberação de recursos se dá em horas, não em dias. “Cada hora economizada agora significa menos pessoas presas em estradas bloqueadas ou sem aquecimento em casa”, resume um coordenador de Defesa Civil estadual.
A memória recente de apagões e colapsos logísticos, como o registrado no Texas em 2021, pesa sobre as decisões atuais. Naquele inverno, falhas na rede elétrica e na preparação para o frio causaram mortes, deixaram milhões sem luz e geraram prejuízos bilionários. A experiência funciona como alerta permanente para que governadores e prefeitos prefiram errar pelo excesso de precaução.
Socorro imediato, danos econômicos e o que vem depois
Na prática, o estado de emergência abre caminho para um pacote amplo de ações. Hospitais recebem apoio extra para garantir geradores, estoques de medicamentos e equipes de plantão para além do habitual. Escolas e ginásios se transformam em centros de abrigo temporário, preparados para acolher famílias inteiras por dias, com alimentação básica e aquecimento adequado. Prefeituras correm para proteger moradores de rua, distribuindo cobertores, colchões e vagas emergenciais.
No sistema viário, equipes de manutenção espalham toneladas de sal e areia em rodovias e pontes para reduzir o risco de derrapagens e colisões em cadeia. Aeroportos trabalham em operação reduzida, com cancelamentos e remarcações em série. Cada pista fechada representa uma onda de atrasos que atravessa o país, interrompendo conexões de negócios, turismo e transporte de cargas urgentes. Companhias aéreas e empresas de logística ajustam rotas e absorvem prejuízos ainda difíceis de calcular.
O impacto econômico se desenha em camadas. Setores como comércio, serviços e transporte sofrem com a queda brusca de movimento presencial, enquanto revendas de combustíveis, supermercados e farmácias registram picos de demanda antes e durante a tempestade. Trabalhadores informais, sem rede de proteção robusta, perdem dias inteiros de renda. Governos estaduais terão de calcular, nas próximas semanas, quanto custará reconstruir trechos de estrada, redes elétricas danificadas e estruturas temporárias erguidas às pressas.
Especialistas em clima veem na tempestade parte de um padrão mais amplo de eventos extremos que se tornam mais frequentes e intensos. O país, que há décadas investe em tecnologia de monitoramento meteorológico, se vê forçado a rever planos de contingência e infraestrutura projetados para um clima mais previsível. A preparação para o frio extremo, hoje central em 15 estados, tende a ganhar espaço fixo em orçamentos anuais, planos urbanísticos e debates eleitorais.
Quando a neve começar a derreter, o foco deve se deslocar do resgate imediato para a avaliação de danos e para o debate político sobre a resiliência das cidades. A tempestade atual testa, em tempo real, a capacidade de coordenação entre governos locais, estaduais e federal. As respostas dadas agora podem definir não apenas quantas vidas serão salvas neste inverno, mas também quão pronto o país estará para a próxima temporada de extremos climáticos, que já não parece mais uma exceção.
