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Greve geral em Minnesota fecha 700 negócios contra ações do ICE

Líderes religiosos, sindicatos e empresários convocam, nesta sexta-feira (23), uma greve geral em Minneapolis e St. Paul contra as operações do ICE. O protesto fecha mais de 700 estabelecimentos e leva à prisão de cerca de 100 membros do clero no aeroporto internacional das Cidades Gêmeas.

Greve para paralisar o ICE em meio ao inverno extremo

O movimento, batizado de “ICE Fora de Minnesota: Dia da Verdade e da Liberdade”, transforma a rotina das duas maiores cidades do estado. Lojas, restaurantes, escolas, igrejas e até espaços culturais mantêm portas fechadas em sinal de repúdio às ações do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos. A paralisação ocorre em pleno inverno rigoroso, com temperatura de -12°C e sensação térmica de -33°C, e desafia não só o frio, mas também a presença constante de agentes federais nas ruas.

Desde o início de janeiro, Minnesota vive uma escalada de tensão em torno da política migratória do governo federal. No dia 7, a morte a tiros de Renée Good por um agente do ICE desencadeia uma série de protestos diários nas Cidades Gêmeas. Poucos dias depois, vêm à tona relatos de que uma criança de cinco anos é usada como isca para capturar o pai na garagem de casa, episódio que se soma a outras detenções de menores durante operações recentes.

As cenas desta sexta-feira expõem a mudança de escala da reação local. A adesão atinge desde uma pequena livraria em Grand Marais, perto da fronteira com o Canadá, até o tradicional Guthrie Theater, no centro de Minneapolis. Em diferentes bairros, ruas comerciais ficam silenciosas, com cartazes afixados em portas de vidro anunciando apoio à greve e denunciando deportações consideradas abusivas.

O aeroporto internacional de Minneapolis–St. Paul se torna o principal palco do confronto. Ali, cerca de 100 líderes religiosos se sentam em frente a áreas de embarque e desembarque, rezam em voz alta e bloqueiam parcialmente acessos usados por passageiros. “O que está acontecendo aqui é claramente imoral”, diz a reverenda Elizabeth Barish Browne, ministra unitarista universalista que viaja de Cheyenne, no Wyoming, para se juntar ao protesto. “Está muito frio, mas o tipo de gelo realmente perigoso não é o clima.”

Prisões no aeroporto e resistência organizada

As detenções de religiosos marcam o ponto de maior tensão do dia. Segundo os organizadores, os membros do clero protestam contra voos usados para deportações a partir do aeroporto, considerados o elo final de uma cadeia de ações que começa em bairros residenciais, portas de escola e estacionamentos de supermercado. Trevor Cochlin, da organização Faith in Minnesota, afirma que o objetivo é expor como o terminal se torna uma espécie de corredor invisível de expulsão de imigrantes.

O porta-voz da Comissão Metropolitana de Aeroportos, Jeff Lea, apresenta outra versão. Ele afirma que as prisões ocorrem fora do terminal principal, depois que manifestantes excedem os limites fixados no alvará para o ato e causam interrupções nas operações aéreas. As autoridades locais, porém, não divulgam oficialmente o número de detidos, o que alimenta novas críticas sobre transparência na condução da segurança.

Enquanto isso, bairros residenciais registram uma mistura de medo e mobilização. Sam Nelson, morador da região, falta ao trabalho para marchar ao lado de vizinhos e colegas de escola. Ele estudou na escola de ensino médio de Minneapolis onde, neste mês, agentes federais detêm uma pessoa após o fim das aulas, em uma ação que provoca confronto com a comunidade. “É a minha comunidade. Como todo mundo, não quero o ICE nas nossas ruas”, afirma.

A pressão também vem de dentro de igrejas. Na véspera da greve, um culto em St. Paul é interrompido por manifestantes que protestam contra um pastor que atua como agente do ICE. Um advogado de direitos civis e pelo menos outras duas pessoas são presas. A organização Black Lives Matter Grassroots divulga nota elogiando quem coloca “corpos, liberdade e sustento em risco para proteger a comunidade”. O gesto evidencia que o conflito extrapola a pauta estritamente migratória e se conecta a debates sobre violência de Estado e racismo estrutural nos Estados Unidos.

O Departamento de Segurança Interna confirma, nesta sexta, a detenção de duas crianças em operações recentes. Uma menina de dois anos, Chloe, é levada junto com o pai ao voltar do mercado, no sul de Minneapolis. Segundo o DHS, a mãe se recusa a assumir a guarda, e a criança permanece com o pai em um centro de detenção até que uma juíza federal determine sua liberação para a custódia do advogado. Já o menino de cinco anos, identificado como Liam Ramos, é detido após a prisão do pai em Columbia Heights. O governo afirma que o pai foge no momento da abordagem. A defesa da família contesta a versão oficial e diz que não há registros criminais contra ele.

Impacto político e pressão sobre políticas migratórias

A greve geral dá forma concreta a uma insatisfação que vinha se manifestando em atos menores desde o início do mês. Ao fechar mais de 700 estabelecimentos em um único dia, o movimento demonstra que o tema da imigração sai das margens e atinge o centro da vida econômica em Minnesota. Empresários que tradicionalmente evitam se envolver em disputas federais passam a associar sua imagem a um protesto frontal contra o ICE.

A mobilização também explicita uma aliança incomum entre púlpito, chão de fábrica e caixa registradora. Padres, pastores, rabinos e líderes de outras tradições se juntam a sindicalistas e donos de negócios locais para desafiar um órgão federal de segurança. O recado é dirigido tanto à Casa Branca quanto ao Congresso: a aplicação rígida da lei migratória não é mais vista como assunto distante de moradores com cidadania americana e direito de voto.

Organizações de direitos civis enxergam na greve um possível ponto de inflexão. O uso de crianças em operações, reconhecido pelo próprio Departamento de Segurança Interna, se torna um símbolo poderoso dos excessos atribuídos ao ICE. Advogados da área já falam em novas ações judiciais e pedidos de investigação sobre a conduta de agentes em Minnesota, em especial no caso de Renée Good e na operação que envolve Liam Ramos.

No plano local, autoridades eleitas em Minneapolis e St. Paul sofrem pressão para limitar a cooperação entre forças policiais municipais e o ICE. Cidades que já se definem como santuário para imigrantes, com normas que restringem o compartilhamento de dados com o governo federal, avaliam medidas adicionais. Entre as propostas em debate estão a criação de fundos de defesa jurídica para famílias de deportados, regras mais rígidas para o uso do aeroporto em deportações e a presença de observadores independentes em operações que envolvam menores de idade.

O que pode vir depois da maior greve contra o ICE em Minnesota

Os organizadores da mobilização falam em um ciclo prolongado de protestos. Desde 7 de janeiro, atos diários se espalham pelas Cidades Gêmeas, e a expectativa é de que a greve desta sexta se torne um marco para futuras ações coordenadas em outros estados. Grupos como Faith in Minnesota e Indivisible Twin Cities já discutem calendários de novas marchas, boicotes e vigílias nas proximidades de centros de detenção.

No curto prazo, a Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna enfrentam o desafio de responder a denúncias específicas sem abrir mão da retórica de endurecimento nas fronteiras. Cada novo vídeo de prisão em escola, igreja ou garagem de casa tende a realimentar a revolta nas redes e nas ruas. Em Minnesota, a pergunta que começa a ecoar entre organizadores, padres e empresários é se a maior greve já vista contra o ICE será suficiente para forçar mudanças concretas nas políticas migratórias – ou se a confrontação entre comunidade e agentes federais apenas entra em um patamar ainda mais tenso.

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