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Paralisação em Minnesota expõe crise migratória no governo Trump

Minnesota vive um dia de paralisação geral e protestos em massa contra o governo Donald Trump nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026. A mobilização responde à morte de Renee Gold, imigrante morta por um agente do ICE durante uma operação de apreensão em massa.

Morte em operação acende revolta e leva milhares às ruas

Em Minneapolis, capital econômica do estado, avenidas que costumam concentrar o fluxo de quase 200 mil veículos por dia amanhecem bloqueadas por manifestantes. Ônibus circulam com frota reduzida, escolas fecham as portas e pequenos comércios penduram cartazes com a frase escrita à mão: “Hoje não abrimos. Justiça por Renee”.

Renee Gold, 32 anos, vivia nos Estados Unidos havia pouco mais de sete anos. Trabalhava em dois empregos, num restaurante e numa empresa de limpeza, e dividia um apartamento na região norte de Minneapolis com outros três imigrantes. Morre na semana passada, abatida por disparos de um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) durante uma operação de apreensão em massa de imigrantes em situação irregular.

Testemunhas afirmam que ela está desarmada quando leva dois tiros no peito em um corredor estreito do prédio. A versão oficial do ICE sustenta que o agente “reage a uma ameaça iminente”. A frase, repetida em nota de três parágrafos, alimenta ainda mais a indignação de quem acompanha de perto o avanço da política migratória mais dura da Casa Branca em duas décadas.

Estado se converte em vitrine da resistência às políticas do ICE

O caso transforma Minnesota, historicamente associado à recepção de refugiados da Somália, do México e da América Central, em símbolo da resistência às medidas de Trump. Em 2025, o estado registra aumento de 40% nas operações do ICE em bairros de alta concentração migrante, segundo dados compilados por organizações locais de direitos civis. A morte de Renee funciona como estopim de uma tensão acumulada há meses.

Em frente ao prédio da prefeitura de Minneapolis, lideranças comunitárias alternam discursos em inglês, espanhol e somali para um público que as próprias organizações estimam em 30 mil pessoas. “Não é um caso isolado, é o resultado de uma política que autoriza o uso da força letal contra quem já vive com medo”, diz ao portal a advogada de direitos civis Maria Hernández, que acompanha familiares de vítimas de operações do ICE em três estados.

Grupos de trabalhadores organizam uma paralisação que atinge setores centrais da economia local. Sindicatos de professores anunciam adesão ao protesto, assim como enfermeiros de pelo menos quatro grandes hospitais da região metropolitana. Empresas de tecnologia sediadas em Minneapolis liberam funcionários para participar das marchas, movimento incomum em um setor que historicamente evita confrontos abertos com Washington.

Em bairros operários de cidades vizinhas, como St. Paul e Bloomington, linhas de montagem trabalham com equipes reduzidas. Organizadores calculam que cerca de 60% dos empregados de algumas fábricas de processamento de alimentos, altamente dependentes de mão de obra imigrante, deixam de comparecer ao expediente. Nas janelas, faixas com a mensagem “Nenhum de nós está seguro” reforçam o clima de insegurança entre famílias que vivem há anos no país.

Crise humanitária expõe limites políticos de Trump

As imagens das manifestações circulam ao longo do dia nas redes sociais e ganham espaço em emissoras nacionais. A Casa Branca mantém silêncio público nas primeiras horas, enquanto aliados do presidente tentam enquadrar o episódio como “reação desproporcional a uma tragédia isolada”. Organizações de direitos humanos contestam esse enquadramento e falam em crise humanitária alimentada por uma política que combina detenção em massa, deportações aceleradas e ampliação das prerrogativas de uso da força.

Relatório publicado no fim de 2025 por um consórcio de universidades americanas registra pelo menos 18 mortes envolvendo agentes do ICE em cinco anos, número considerado subestimado por advogados que atuam em comunidades vulneráveis. “A morte de Renee não é a primeira e, se nada mudar, não será a última”, afirma o pesquisador David Collins, especialista em políticas migratórias da Universidade de Minnesota. Ele lembra que ordens executivas do governo Trump, assinadas entre 2024 e 2025, flexibilizam protocolos de abordagem e dificultam a responsabilização de agentes.

A reação em Minnesota pressiona congressistas republicanos do Meio-Oeste, muitos deles eleitos com apoio de setores empresariais que dependem de imigrantes para manter a produção. Em reuniões reservadas em Washington, membros do partido admitem desconforto com o impacto econômico de uma política que afasta trabalhadores, reduz o consumo e aumenta o risco de boicotes. No outro extremo, grupos conservadores ligados ao presidente reforçam o discurso de que qualquer recuo abriria uma “porta ilegal” a novas levas de migrantes.

Em pelo menos outros seis estados, movimentos sociais anunciam atos de solidariedade a Minnesota nos próximos dias. Ativistas da Califórnia, de Nova York e do Texas falam em construir uma “frente nacional pela vida dos imigrantes”. O nome de Renee Gold aparece em cartazes, murais improvisados e projeções em fachadas de prédios como um símbolo da disputa em curso sobre o tipo de país que os Estados Unidos pretendem ser nas próximas décadas.

Disputa se desloca para tribunais e para o Congresso

Advogados que atuam em Minneapolis trabalham para transformar a morte de Renee em um caso de referência judicial contra abusos do ICE. Petições protocoladas em tribunais federais pedem responsabilização criminal do agente envolvido, revisão dos protocolos de uso da força e suspensão temporária de operações em massa em áreas residenciais. A expectativa é que decisões iniciais saiam em até 90 dias, o que pode influenciar a atuação de agentes em todo o país.

No Congresso, parlamentares democratas prometem apresentar, ainda neste semestre, um pacote de projetos que limita a atuação do ICE, reforça mecanismos de supervisão externa e amplia garantias legais para imigrantes em situação irregular. A tramitação deve enfrentar resistência da bancada trumpista, mas a pressão das ruas tende a pesar sobre deputados em estados competitivos. No plano local, autoridades de Minnesota discutem transformar o estado em uma espécie de “zona de proteção”, com regras mais rígidas para cooperação entre forças de segurança estaduais e o governo federal.

Enquanto familiares de Renee Gold se preparam para o funeral, marcado para os próximos dias, organizadores prometem manter as mobilizações e planejam nova paralisação caso não haja respostas concretas. A pergunta sobre quantas mortes ainda serão necessárias até uma mudança efetiva da política migratória se impõe no fim do dia, ecoando entre cartazes erguidos no frio de Minneapolis e nos corredores silenciosos da capital federal.

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