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Brasil condena repressão no Irã e apoia extensão de investigação da ONU

A representação do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU condena, nesta sexta-feira (23), a repressão violenta do regime iraniano contra manifestantes pacíficos. Em Genebra, o país apoia a extensão de investigações sobre violações de direitos humanos no Irã, após uma onda de protestos iniciada em dezembro de 2025.

Virada de tom na diplomacia brasileira

O discurso brasileiro marca uma inflexão rara em relação a Teerã. Desde o início da nova onda de protestos no Irã, no fim de 2025, o Itamaraty evita condenações diretas e limita-se a expressar “preocupação” e a lamentar mortes. Nesta sessão extraordinária do conselho, em 23 de janeiro de 2026, a posição muda de patamar.

Da tribuna em Genebra, o embaixador Tovar da Silva Nunes, representante do Brasil na ONU, faz uma declaração incomum pela clareza. “Condenamos fortemente o uso de força letal contra manifestantes pacíficos e estamos preocupados com relatos de prisões arbitrárias e de crianças como alvo”, afirma. O diplomata também critica o bloqueio da internet promovido pelo regime iraniano. “Notamos que os bloqueios da internet violam o direito de liberdade de expressão, incluindo de acesso à informação”, diz.

A mudança de tom ocorre após semanas de relatos de repressão nas ruas de Teerã e de dezenas de outras cidades iranianas. O regime admite oficialmente 3.000 mortes, número contestado por organizações de direitos humanos sediadas fora do país, que falam em milhares de vítimas, incluindo transeuntes que não participavam dos atos. Grupos independentes relatam uso sistemático de munição real, detenções em massa e desaparecimentos.

O Conselho de Direitos Humanos se reúne em caráter extraordinário com apoio de ao menos 50 países. O objetivo é reagir à escalada de violência desde dezembro de 2025, quando a combinação de colapso econômico, desvalorização do rial e inflação galopante transforma protestos locais em um movimento mais amplo contra a teocracia iraniana. O clima em Genebra é de urgência, alimentado pelo apagão de internet imposto por Teerã, que dificulta checagens independentes no terreno.

Investigação reforçada e equilíbrio delicado

Na mesma sessão em que condena a repressão, o Brasil vota a favor de uma resolução que estende por mais dois anos o mandato de uma investigação independente sobre violações de direitos humanos no Irã, criada em 2022. O texto, patrocinado por países abertamente críticos ao regime iraniano, como Alemanha, Islândia, Reino Unido, Macedônia do Norte e Moldova, é aprovado por 25 votos a favor, 7 contra e 14 abstenções.

A posição brasileira equilibra dois eixos. De um lado, a condenação firme ao uso de força letal, prisões arbitrárias e ataques a crianças. De outro, a rejeição a sanções e a medidas unilaterais de pressão sobre Teerã. “O Brasil sustenta que apenas o povo iraniano tem o direito soberano de determinar o futuro do país. Reitera sua condenação a medidas unilaterais coercitivas contra o Irã”, declara Nunes. Segundo o embaixador, essas ações “impactam negativamente os direitos humanos da população e exacerbam os desafios econômicos do país, que servem de pano de fundo para as atuais manifestações”.

A fala ecoa a linha histórica da diplomacia brasileira, que costuma criticar embargos econômicos amplos. Na prática, o país tenta se posicionar ao lado das vítimas de abusos sem se alinhar integralmente ao eixo mais duro contra Teerã, liderado por potências ocidentais. O recado é duplo: o Brasil condena a violência do regime, mas se opõe a isolar o Irã por meio de sanções que atinjam a população.

A reação iraniana na mesma sessão é de confronto. O representante de Teerã acusa os proponentes da reunião de hipocrisia. “Os patrocinadores desta sessão e de seus resultados nunca se importaram genuinamente com os direitos humanos dos iranianos”, afirma o diplomata iraniano. Para ele, países que defendem a resolução também impõem “sanções desumanas” e apoiam ações militares israelenses, que, segundo o regime, já matam e ferem mais de 5.000 iranianos.

O alto-comissário da ONU para direitos humanos, Volker Türk, reforça a gravidade da situação. “Insto as autoridades iranianas a reconsiderar, recuar e colocar um fim à sua brutal repressão”, diz. Para Türk, a resposta do regime segue “um padrão de sujeição e força esmagadora que não pode nunca abordar adequadamente as queixas e frustrações do povo”. Sem acesso confiável ao país, a ONU depende da missão de investigação para reconstruir o que se passa nas ruas iranianas.

Pressão internacional e próximos capítulos

A decisão de estender a investigação por dois anos amplia a pressão política sobre Teerã. O grupo de especialistas vinculado ao conselho ganha mais tempo para coletar depoimentos, documentos e imagens, ainda que a maior parte do trabalho seja feita à distância, a partir de refugiados, diáspora iraniana e fontes abertas. Esses relatórios alimentam futuros debates na Assembleia-Geral da ONU, em conselhos especializados e, eventualmente, em tribunais internacionais.

Para o Brasil, a mudança de postura tem efeitos além do caso iraniano. A condenação explícita à violência, combinada com a defesa contra sanções amplas, sinaliza como o país pretende atuar em outras crises de direitos humanos. A diplomacia tenta se projetar como ator capaz de criticar abusos sem endossar agendas de confronto militar. Na prática, esse equilíbrio nem sempre é simples. Cada voto em Genebra é lido como termômetro das alianças brasileiras e da disposição do governo de se afastar de regimes autoritários com os quais mantém relações econômicas e políticas.

O campo de batalha imediato, porém, continua no Irã. O regime anuncia, na quarta-feira (21), que as manifestações estão “suprimidas” e divulga o balanço oficial de 3.000 mortos. Organizações de direitos humanos descrevem um “silêncio sinistro” nas cidades, com lojas e escolas reabrindo sob forte presença de forças de segurança. Milhares de detidos, segundo esses grupos, seguem sem acesso a defesa adequada ou informação mínima às famílias.

O próximo movimento depende tanto de Teerã quanto da coesão internacional. Se o regime fechar ainda mais o país, a missão de investigação dependerá quase exclusivamente de relatos externos e análise de dados digitais, como imagens de satélite e vídeos vazados. Se houver abertura, mesmo limitada, a ONU poderá tentar enviar observadores ao terreno, algo que o governo iraniano historicamente resiste em permitir.

A posição brasileira nesta sexta-feira ajuda a definir o tom desses debates nas próximas semanas. A condenação à repressão estabelece um marco na política externa do país em relação ao Irã. A disputa agora se desloca para um campo mais amplo: até onde a comunidade internacional consegue transformar resoluções e relatórios em mudanças concretas para os iranianos que voltam, aos poucos, às ruas ou às celas?

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