Amorim afasta temor de retaliação se Lula recusar conselho de Trump
O principal assessor internacional de Lula, Celso Amorim, descarta, nesta sexta-feira (23), qualquer risco de retaliação ao Brasil caso o presidente rejeite o convite de Donald Trump para integrar o chamado “Conselho da Paz”. O governo mantém a porta aberta ao diálogo, mas condiciona qualquer participação a negociações claras e a um contrato formal de adesão, em linha com a defesa da soberania e do multilateralismo brasileiro.
Brasil segura resposta e reafirma soberania
Celso Amorim fala em tom calculado, mas firme. O ex-chanceler que hoje orienta Lula em política externa afirma não ver motivos para medo ou submissão diante da iniciativa de Trump. “Não temo risco de retaliação. O Brasil é um país soberano, aberto a ideias novas, desde que objeto de negociação”, diz, ao comentar o convite para o conselho lançado pelo republicano.
O presidente brasileiro ainda não responde se aceita ou não participar do grupo. A indefinição não significa neutralidade, mas faz parte de uma estratégia de tempo e de forma. No Palácio do Planalto, a avaliação é que cada gesto, cada frase e cada silêncio pesa na atual disputa por influência global, em um cenário em que a guerra na Ucrânia se arrasta há quase quatro anos e o conflito em Gaza ultrapassa 15 meses.
Trump anuncia o “Conselho da Paz” na véspera, apresentando a estrutura como solução alternativa para mediação de conflitos internacionais. Na prática, o movimento amplia as dúvidas sobre a real finalidade do grupo. A criação ocorre num momento em que o sistema das Nações Unidas enfrenta críticas, mas ainda concentra, desde 1945, o espaço central de legitimidade para decisões de guerra e paz.
Amorim deixa claro que, se o Brasil um dia aceitar sentar à mesa desse conselho, não o fará como figurante. “No caso, trata-se de um contrato de adesão”, afirma, ressaltando que qualquer compromisso precisa ser escrito, transparente e compatível com as obrigações já assumidas pelo país, em especial na ONU. A mensagem mira o eleitorado interno, sensível à ideia de soberania, e também chancelerias estrangeiras que observam a movimentação de Brasília.
Aliados, desconfianças e o peso da ONU
O convite a Lula chega em meio a uma divisão clara entre grandes potências e países médios. Reino Unido, China, Alemanha e Rússia, assim como o Brasil, ainda não dão resposta definitiva. Espanha, França e Suécia rejeitam publicamente a adesão. A União Europeia expressa “sérias dúvidas” sobre a compatibilidade do conselho com o sistema das Nações Unidas, uma forma diplomática de dizer que vê risco de competição direta com a ONU.
No outro lado, Argentina, Paraguai, Arábia Saudita e Israel já se juntam ao grupo liderado por Trump. A entrada de Buenos Aires e Assunção, parceiros diretos no Mercosul, adiciona pressão regional sobre Brasília. Em voz baixa, diplomatas admitem incômodo com o fato de dois vizinhos importantes caminharem sem coordenação prévia com o Brasil, tradicional protagonista sul-americano em temas de segurança e paz.
A ligação telefônica entre Xi Jinping e Lula, nesta sexta-feira (23), reforça o tabuleiro em disputa. O líder chinês defende que Brasil e China fortaleçam o “papel central” da ONU na governança global. Pequim já havia divulgado, por meio de seu Ministério das Relações Exteriores, apoio “firme” a um sistema internacional ancorado nas Nações Unidas. O recado serve de contrapeso à narrativa de Trump e ecoa a posição histórica do Itamaraty, que desde os anos 1980 trabalha para reformar, e não substituir, o Conselho de Segurança.
A memória recente pesa. Em 2003, o Brasil se recusa a apoiar a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, mesmo diante de forte pressão. Em 2011, se abstém na votação que abre espaço para a intervenção na Líbia, após sinalizar confiança nos limites da operação e ver o mandato da ONU ser esticado para além do previsto. Esses episódios alimentam, hoje, uma cautela redobrada diante de qualquer iniciativa que prometa garantir paz sem amarras multilaterais sólidas.
Entre assessores de Lula, há a leitura de que o “Conselho da Paz” pode funcionar como vitrine da visão de Trump de que os EUA retomam o papel de polícia global, com apoio seletivo de aliados. Essa percepção ganha força quando se observa que, só em janeiro de 2026, a Casa Branca já anuncia operações militares no Caribe e no Pacífico, associadas a uma retórica de combate ao “terrorismo” e às “ditaduras hostis”.
Impacto na diplomacia brasileira e no jogo global
A resposta de Lula, qualquer que seja, carrega peso concreto. Uma eventual recusa, embalada no discurso de defesa da ONU, consolidaria o Brasil como voz crítica diante de arranjos paralelos liderados por Washington. A decisão reforçaria o esforço de Brasília de manter influência em fóruns tradicionais, como o Conselho de Segurança e o G20, e em mecanismos mais recentes, como o Brics ampliado, que hoje reúne 10 países e responde por mais de 30% do PIB mundial.
Uma adesão sem salvaguardas, por outro lado, poderia ser lida como contradição em relação à política externa que Lula exibe desde 2003, centrada no multilateralismo e na busca de equilíbrio entre grandes potências. Nesse cenário, a pressão viria tanto da base de esquerda, que vê Trump como símbolo da extrema direita global, quanto de militares e diplomatas preocupados com a subordinação a estruturas pouco claras, sem mandatos aprovados em organismos internacionais.
No curto prazo, o impacto imediato recai sobre as relações com vizinhos e parceiros estratégicos. Países que já ingressam no conselho esperam contrapartidas concretas, seja em recursos financeiros, seja em apoio político. Caso fique de fora, o Brasil testa o limite de sua liderança regional ao insistir em outra rota. Se optar por entrar com condicionantes, tentará transformar o próprio conselho em mais um espaço para defender reformas na ONU, como a ampliação do Conselho de Segurança, proposta que o Itamaraty cobre há pelo menos 20 anos.
Setores econômicos também acompanham o caso. Exportadores de commodities veem com cautela qualquer gesto que possa azedar relações com os Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial do Brasil, com uma corrente de comércio que supera US$ 80 bilhões anuais. Ao mesmo tempo, o agronegócio e a indústria reconhecem que a China, principal destino das vendas brasileiras externas, apoia de forma explícita o fortalecimento da ONU e tende a olhar com reserva para instâncias paralelas comandadas por Washington.
Decisão adiada e disputa de modelos
Lula ganha alguns dias, talvez semanas, antes de se pronunciar de forma definitiva. Assessores avaliam cenários, medem reações e cruzam informações com embaixadas-chave, de Pequim a Bruxelas. O gesto de Amorim, ao descartar temor de retaliação, prepara o terreno para uma escolha que precisa soar como exercício de soberania, não de alinhamento automático.
O desfecho vai além de um convite protocolar. Em jogo está o modelo de governança que o Brasil decide fortalecer: um sistema ancorado na ONU, sujeito a negociações longas e contratos claros, ou arranjos ad hoc, organizados por potências em busca de soluções rápidas e margem maior de manobra. A resposta brasileira pode ajudar a definir se o “Conselho da Paz” será apenas mais um gesto de campanha de Trump ou o embrião de uma nova arena de disputa no tabuleiro global.
