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Trump minimiza sacrifício da Otan no Afeganistão e irrita aliados

Donald Trump volta a questionar o compromisso militar dos aliados da Otan e minimiza o papel europeu na guerra do Afeganistão, em entrevista nesta quinta-feira (23) em Davos. As declarações provocam reação imediata de governos europeus, de militares e de famílias de soldados mortos no conflito.

Afeganistão vira alvo de disputa política em Davos

Trump fala à Fox News à margem do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, e coloca em dúvida a disposição dos parceiros da Otan em apoiar Washington em futuros conflitos. De terno escuro e tom confiante, ele recorre ao passado recente para justificar a desconfiança.

“Eu sempre disse: ‘Eles estarão lá, se algum dia precisarmos deles?’ E esse é realmente o teste final. E eu não tenho certeza disso”, afirma. “Sei que nós estaríamos lá, ou estaríamos lá, mas eles estarão lá?”, insiste, sugerindo que a aliança não é tão recíproca quanto deveria ser.

O alvo implícito é o histórico da guerra do Afeganistão, travada entre 2001 e 2021. Após os ataques de 11 de setembro, os Estados Unidos se tornam o primeiro e único país a acionar o Artigo 5 do tratado, que prevê que um ataque a um membro é um ataque a todos. A partir dali, tropas de dezenas de países da Otan e de parceiros não membros embarcam para a Ásia Central.

Trump, porém, reduz esse comprometimento. “Nunca precisamos deles. Nunca realmente pedimos nada a eles”, diz, ao comentar a participação europeia. “Sabe, eles dizem que enviaram algumas tropas para o Afeganistão, ou isso ou aquilo. E enviaram mesmo – ficaram um pouco para trás, um pouco afastados da linha de frente”, afirma, sugerindo um esforço secundário.

O discurso contrasta com os números da guerra. Cerca de 3.500 militares aliados morrem no Afeganistão, dos quais 2.456 são americanos e 457 britânicos. A Dinamarca, com pouco mais de 5 milhões de habitantes no início da invasão, perde mais de 40 soldados – um impacto relativo pesado para um país de pequeno porte.

Na província de Helmand, reduto do Talibã e centro da produção de ópio no sul afegão, as primeiras tropas a se instalar são britânicas e dinamarquesas. O reforço americano só chega em 2008, quando a insurgência já está consolidada. A maior parte das baixas britânicas e dinamarquesas ocorre justamente ali, nos combates corpo a corpo que marcam a fase mais violenta do conflito.

Reação dura em Londres e na Otan

O impacto político é imediato. Em Londres, o primeiro-ministro Keir Starmer classifica as declarações como “insultuosas e francamente deploráveis” e diz que Trump deve desculpas às famílias dos mortos. “Não me surpreende que tenham causado tanta dor aos entes queridos daqueles que foram mortos ou feridos”, afirma. “Se eu tivesse me expressado mal ou dito aquelas palavras, certamente pediria desculpas.”

O príncipe Harry, que serve duas vezes no Afeganistão como oficial do Exército britânico, também reage. Em comunicado divulgado por seu porta-voz, ele evita citar Trump nominalmente, mas mira o conteúdo da fala. “Esses sacrifícios merecem ser mencionados com sinceridade e respeito, enquanto permanecemos unidos e leais à defesa da diplomacia e da paz”, escreve.

A irritação europeia não nasce em Davos. Desde o início do ano, Trump questiona publicamente a disposição da Otan em vir em socorro dos Estados Unidos. Em 7 de janeiro, na rede Truth Social, ele afirma duvidar que os aliados ajudem Washington em caso de ataque, ainda que os EUA, segundo ele, “sempre” estariam lá pela aliança.

O secretário-geral da Otan, o ex-premiê holandês Mark Rutte, responde ainda antes da nova entrevista à Fox News. Na quarta-feira (21), sentado ao lado do presidente americano em Davos, ele rebate a narrativa de ingratidão. “Houve uma coisa que ouvi você dizer ontem e hoje: que não tinha certeza absoluta de que os europeus viriam em socorro dos EUA caso vocês fossem atacados”, diz. “Deixe-me dizer-lhe: eles virão. E vieram no Afeganistão, como você sabe.”

Rutte recorre aos números da coalizão para tentar encerrar a discussão. “Para cada dois americanos que pagaram o preço máximo, houve um soldado de outro país da Otan que não voltou para sua família. Isso é importante. Me dói saber que você pensa o contrário”, afirma, diante de empresários, diplomatas e investidores que acompanham o painel.

No Parlamento britânico, a reação atravessa partidos. O secretário de Defesa, John Healey, lembra que o Artigo 5 é acionado apenas uma vez na história e beneficia diretamente os EUA. “O Reino Unido e seus aliados da Otan atenderam ao chamado dos EUA. E mais de 450 militares britânicos perderam a vida no Afeganistão”, diz. “Esses soldados britânicos devem ser lembrados por quem foram: heróis que deram suas vidas a serviço da nossa nação.”

Emily Thornberry, presidente da Comissão de Relações Exteriores, chama os comentários de “insulto absoluto”. Kemi Badenoch, líder do Partido Conservador, na oposição, fala em “completo absurdo” e defende que o sacrifício dos aliados “merece respeito, não descrédito”. O tom incomum de unanimidade sinaliza o tamanho da frustração com Washington.

Aliança em teste e futuro incerto

As falas de Trump chegam em meio a outra frente de tensão transatlântica. Nas últimas semanas, o presidente volta a ameaçar assumir o controle da Groenlândia, território autônomo da Dinamarca e integrante do espaço da Otan. A retórica, que mistura cálculo geopolítico e provocação, acende o alerta em Copenhague e em outras capitais europeias.

Nos bastidores, diplomatas temem que a sequência de ataques verbais corroa o que ainda resta de confiança automática entre os dois lados do Atlântico. A Otan se sustenta na promessa de defesa coletiva, mais política do que jurídica. Quando o líder da maior potência militar questiona publicamente essa promessa, o custo simbólico é alto.

Na prática, a dúvida lançada por Trump pode afetar decisões futuras de envio de tropas, participação em missões de estabilização e investimentos em defesa. Governos que enfrentam opinião pública cansada de guerras longas e traumáticas, como a do Afeganistão, tendem a exigir mais garantias de reciprocidade antes de se comprometer com novas operações.

A guerra afegã termina oficialmente em 2021, com a retirada caótica de Cabul e o retorno do Talibã ao poder. O balanço humano, com 3.500 mortos entre aliados, milhares de afegãos civis e militares e trilhões de dólares gastos, ainda pesa sobre a política interna de muitos países. Revisitar esse passado sem reconhecer o custo compartilhado reabre feridas que não cicatrizam por completo.

Para a própria Otan, o episódio funciona como mais um teste de coesão. A aliança já enfrenta pressões por mais gastos militares, tensão com a Rússia e desafios internos entre membros que divergem sobre China, Oriente Médio e cibersegurança. O debate sobre quem fez o quê no Afeganistão adiciona uma dimensão emocional a uma discussão que, até aqui, era tratada sobretudo em termos orçamentários.

Trump, por ora, não sinaliza recuo. Mantém o discurso de que os EUA bancam desproporcionalmente a segurança europeia e não recebem apoio à altura. Líderes da Otan, por sua vez, repetem que o compromisso com o Artigo 5 continua “inabalável” e que a resposta pós-11 de Setembro prova isso.

Entre as famílias que perderam filhos em Helmand, em Kandahar ou em Cabul, o debate é menos abstrato. Cada frase que minimiza esse esforço é recebida como afronta. As reações desta semana indicam que, duas décadas depois da invasão do Afeganistão, a batalha por reconhecimento e memória ainda está aberta – e pode definir o quanto a Otan estará disposta a seguir os Estados Unidos em futuras guerras.

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