São Paulo oficializa Rafinha como novo coordenador de futebol
O São Paulo define Rafinha como novo coordenador de futebol e oficializa a mudança neste sábado (24), em 2026. O ex-lateral assume o posto deixado por Muricy Ramalho, que sai por problemas de saúde e desgaste com a instabilidade política do clube.
Troca em meio à transição política
A escolha de Rafinha marca a primeira grande intervenção do presidente Harry Massis Júnior na estrutura do futebol desde que ele assume o comando do São Paulo, no início de 2026. A decisão ocorre em um momento de transição após a saída de Julio Casares e tenta conter os efeitos de uma disputa interna que se arrasta desde o fim do último mandato.
O dirigente vê no ex-lateral um nome capaz de falar a linguagem do vestiário e, ao mesmo tempo, servir como ponte com a diretoria. A avaliação interna é direta: em um ano de clima tenso nos bastidores, a figura do coordenador precisa ser mais escudo do que vitrine. Rafinha chega com esse papel explícito.
Muricy, que ocupa o cargo desde 2021, vinha sinalizando desgaste há meses. Pessoas próximas relatam incômodo com decisões do departamento de futebol e com o acirramento de grupos políticos no Conselho. Nas últimas semanas, problemas de saúde reforçam a ideia de que era hora de deixar o dia a dia. O acordo para a saída é costurado de forma silenciosa e é anunciado como decisão em comum acordo.
O movimento não surpreende no CT da Barra Funda. Desde o fim de 2025, a nova gestão discute mudanças na rotina do futebol e busca um nome que combine autoridade técnica, trânsito com jogadores e boa imagem com a torcida. Rafinha, campeão da Copa do Brasil e da Sul-Americana pelo clube, preenche todos esses requisitos e ainda carrega a condição de recém-aposentado, com memória fresca do vestiário.
Blindagem do elenco em ano conturbado
Rafinha encerra a carreira como jogador há poucos meses e retorna ao São Paulo em nova condição, agora do outro lado da porta do vestiário. A missão é clara: blindar o elenco da turbulência política e manter o foco em resultados. Integrantes da diretoria descrevem o ex-lateral como “respeitado, ouvido pelos atletas” e apontam esse perfil como decisivo para a escolha.
A preocupação não é abstrata. O clube entra em 2026 com orçamento pressionado, cobrança de conselheiros por cortes de gastos e debates intensos sobre prioridades de investimento no futebol. Um dirigente resume, em conversas internas, o temor de que o vestiário vire palco dessa disputa. A criação de uma barreira entre jogadores e crise institucional passa a ser tratada como prioridade.
O impacto da troca recai diretamente sobre a rotina do elenco profissional. É o coordenador quem ajusta a comunicação entre comissão técnica, diretoria e jogadores, define regras de convivência e filtra demandas que chegam ao grupo. No modelo que Harry Massis tenta consolidar, o treinador concentra-se no campo, enquanto o coordenador administra pressões externas e conflitos internos.
A saída de Muricy deixa uma referência técnica e simbólica, mas também expõe a dificuldade do clube em preservar quadros históricos em meio à guerra política. O ex-treinador já vinha reduzindo presença em viagens e compromissos diários, sinal evidente de desgaste. A nova gestão entende que prolongar essa situação aumentaria o risco de ruídos públicos e opta por antecipar a mudança.
Rafinha, por outro lado, chega com capital político alto. Ele constrói boa relação com atletas mais jovens e experientes, é figura ativa em reuniões de elenco e mantém bom trânsito com torcedores organizados. A cúpula do futebol aposta que essa rede de relações reduz tensões em períodos de má fase, quando cobranças costumam extrapolar o limite das quatro linhas.
Desafios imediatos e o que vem pela frente
O novo coordenador encontra um clube em reconstrução administrativa e esportiva. O planejamento para a temporada prevê ao menos três frentes de disputa em 2026, com prioridade para o Campeonato Brasileiro e para competições continentais. Qualquer tropeço vira munição em debates internos e alimenta críticas públicas à gestão, cenário que reforça o peso do cargo assumido por Rafinha.
O primeiro teste concreto é a janela de transferências do meio do ano, quando o São Paulo precisa equilibrar as contas e, ao mesmo tempo, manter um elenco competitivo. Negociações de saída e chegada de jogadores passam pelo crivo da coordenação de futebol, que precisa conciliar o desejo do treinador, a limitação orçamentária e a realidade do mercado. A forma como Rafinha atua nesse cruzamento de interesses indica o alcance real de sua influência.
A relação com a torcida também entra no radar. A nomeação de um ídolo recente tende a gerar simpatia inicial, mas o humor muda rápido se o time não responde em campo. O presidente Harry Massis Júnior sabe que a aposta pessoal em Rafinha o vincula diretamente aos resultados do futebol. Em ano de instabilidade política, desempenho abaixo do esperado pode reacender disputas internas e pressionar a atual gestão já nos primeiros meses de mandato.
Muricy deixa a função sem prazo para um retorno ao dia a dia, mas permanece como referência histórica do clube. O afastamento por motivos de saúde e desgaste político levanta uma pergunta incômoda sobre o ambiente interno: até que ponto o São Paulo consegue proteger seus profissionais mais experientes da corrosão das disputas internas?
Rafinha entra nesse cenário com o desafio de ser ponte e escudo ao mesmo tempo. O sucesso da sua gestão como coordenador de futebol não se mede apenas em títulos, mas na capacidade de manter o vestiário estável enquanto a política segue em ebulição. A temporada de 2026 começa com uma mudança simbólica no comando do futebol e deixa em aberto se a aposta da nova diretoria será suficiente para conter uma crise que, por enquanto, se limita aos bastidores.
