Ultimas

TromPetista provoca caminhada de Nikolas em Goiás com berrante

O músico Fabiano Leitão, o TromPetista, sobe em um morro na rodovia entre Cristalina e Luziânia e toca trompete e berrante contra apoiadores de Nikolas Ferreira. O ato acontece na tarde de 23 de janeiro de 2026 e viraliza nas redes sociais. A cena expõe, mais uma vez, a polarização entre lulistas e bolsonaristas às vésperas de novos protestos em Brasília.

Protesto sonoro em meio à “Caminhada pela Justiça e Liberdade”

A paisagem é típica do Entorno do Distrito Federal: acostamento de terra vermelha, vegetação baixa, caminhões cortando a BR, buzinas ecoando pela tarde quente. No alto de um morro, em um ponto da rodovia que liga Cristalina a Luziânia, em Goiás, surge a silhueta de um homem vestido com boné vermelho e instrumentos nas mãos. É Fabiano Leitão, conhecido como TromPetista, militante assumido do PT e personagem frequente em atos contra Jair Bolsonaro desde 2016.

À frente dele, na pista, avança a “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, marcha iniciada em 19 de janeiro de 2026 pelo deputado federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais. O grupo percorre cerca de 240 quilômetros entre Paracatu, no noroeste mineiro, e Brasília, em defesa do ex-presidente Bolsonaro e de condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. O movimento tenta manter viva a narrativa de perseguição judicial contra apoiadores do ex-mandatário, dois anos após a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes.

Fabiano escolhe um ponto elevado da estrada, mira a marcha e inicia o protesto com um berrante, símbolo tradicional do universo rural e presença constante em manifestações bolsonaristas. O som grave atravessa a rodovia, alcança os caminhantes, desperta olhares e celulares erguidos. Em seguida, ele troca de instrumento e executa no trompete a canção infantil “Marcha, soldado”, usada em tom irônico para se dirigir ao grupo liderado pelo parlamentar.

O músico registra tudo em vídeo e publica no Instagram. Na legenda, escreve: “Cuidado. Tem gado solto na pista”. A frase, que usa o termo “gado” como crítica direta a seguidores de Bolsonaro, ajuda a inflar a repercussão do gesto. Em menos de 24 horas, o conteúdo passa de 108 mil visualizações na plataforma, com milhares de comentários de apoiadores e críticos. Fabiano reforça nos stories que atua como “militante do PT” e que pretende acompanhar a caminhada em outros trechos da estrada.

Veículos que trafegam pela rodovia entram na cena. Alguns motoristas buzinam em apoio ao músico, acenam pelas janelas e gritam “É Lula!”, em referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no terceiro mandato. As buzinas se misturam ao som do berrante, criando um contraponto sonoro à marcha bolsonarista. O vídeo registra cumprimentos rápidos, punhos erguidos e o clima de torcida organizada às margens do asfalto.

Polarização à beira da estrada e nas redes sociais

O ato de Fabiano Leitão é simples e curto, mas adquire peso político imediato. Em uma semana em que a caminhada de Nikolas ganha espaço em rádios locais, sites e perfis bolsonaristas, o protesto musical surge como resposta simbólica do outro lado da trincheira. A performance mostra como a disputa entre lulistas e bolsonaristas não se limita mais a grandes avenidas ou praças, mas ocupa acostamentos, caminhadas religiosas, festas de interior e transmissões ao vivo de celular.

O TromPetista não é um novato no campo político. Ao longo dos últimos anos, aparece em atos em Brasília, em frente ao Congresso, em protestos pela prisão de bolsonaristas após 8 de janeiro e em eventos de campanha petista. O uso do trompete e de músicas populares se torna marca registrada. Em alguns episódios, ele já enfrenta hostilidade de adversários, com xingamentos e tentativas de tirar o instrumento de suas mãos. Desta vez, escolhe o distanciamento físico do morro, o que reduz o risco imediato de confronto direto com os participantes da marcha.

A caminhada organizada por Nikolas, iniciada em 19 de janeiro, se apresenta como um ato pacífico contra o que os organizadores chamam de “abusos do Judiciário”. O roteiro prevê cerca de 40 quilômetros por dia, com pausas em cidades do interior, orações ao fim da tarde e transmissões diárias nas redes do deputado. Ao associar esse percurso a símbolos como o berrante e a música militarizada, Fabiano tenta esvaziar a narrativa de fé e resistência e reposiciona o ato como manifestação de um bolsonarismo que ele considera autoritário.

Nas redes, o vídeo do TromPetista é capturado por perfis de esquerda e de direita. Aliados de Lula comemoram a coragem do músico e multiplicam o recorte em grupos de WhatsApp e canais de Telegram, com frases de deboche dirigidas ao deputado do PL. Militantes bolsonaristas reagem chamando Fabiano de “intolerante” e “provocador profissional”, acusam-no de desrespeito à fé dos participantes e evocam a narrativa de que conservadores seriam alvo de perseguição. A poucos cliques de distância, o conflito político se converte em memes, montagens e novos vídeos de reação.

A cena revive tensões que permanecem abertas desde os ataques de 8 de janeiro de 2023. Bolsonaro está inelegível até 2030, decisões do Supremo Tribunal Federal avançam sobre financiadores e organizadores dos atos golpistas, e parte de sua base tenta reorganizar ruas e pautas. O gesto do TromPetista, ao chamar os caminhantes de “gado”, reaquece o vocabulário de desumanização mútua que marca a política brasileira desde pelo menos 2018, em que termos como “petralha” e “comunista” ocupam o outro lado da disputa.

Risco de escalada em protestos e próximos movimentos

O episódio na rodovia goiana funciona como alerta para autoridades de segurança em Goiás e no Distrito Federal. A caminhada de Nikolas deve chegar a Brasília nos próximos dias, com previsão de concentração em pontos sensíveis como a Esplanada dos Ministérios. A presença de grupos organizados de oposição, mesmo que com gestos simbólicos como o de Fabiano, pode aumentar o risco de choques físicos e episódios de violência verbal, principalmente em locais com pouco policiamento.

Especialistas em segurança pública ouvidos por diferentes veículos preveem reforço de rondas e monitoramento de inteligência em trechos da BR que cortam o Entorno. A experiência de 8 de janeiro ainda pesa nas decisões. Governos estaduais e o Planalto evitam subestimar a capacidade de mobilização de grupos bolsonaristas, mas também acompanham o crescimento de ações criativas e descentralizadas de militantes de esquerda, como intervenções artísticas, projeções em prédios públicos e performances em rodovias.

O impacto concreto do ato de Fabiano passa por três frentes. No campo simbólico, ele ocupa temporariamente o noticiário que até então destacava principalmente o roteiro do deputado mineiro. Nas redes, impõe uma imagem forte – um músico isolado no alto de um morro enfrentando com som uma caminhada de centenas – que se adapta bem à lógica de vídeos curtos e compartilháveis. Na política institucional, oferece munição para discursos de ambos os lados: para uns, é prova de resistência criativa; para outros, é sintoma de um ambiente em que o adversário é alvo de chacota permanente.

A partir deste episódio, organizadores de atos dos dois campos tendem a reforçar orientações internas. Advogados e assessores de parlamentares alertam para a responsabilidade sobre eventuais confrontos físicos na estrada. Grupos ligados ao PT e à esquerda discutem como manter o tom de crítica sem alimentar episódios de agressão. A viralização do vídeo de Fabiano se soma a uma coleção de registros que compõem o arquivo visual da polarização brasileira nesta década.

A pergunta que permanece é se cenas como a deste 23 de janeiro seguirão confinadas à disputa simbólica do som e da imagem ou se antecipam uma nova rodada de tensão nas ruas de Brasília. A resposta dependerá não apenas da chegada da marcha de Nikolas à capital, mas também da forma como lideranças políticas, de ambos os lados, decidirão enquadrar gestos como o do TromPetista: como provocação a ser esmagada ou como expressão a ser absorvida em um país ainda em busca de alguma trégua.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *