Presidente do Rioprevidência renuncia após operação da PF no caso Banco Master
O presidente do Rioprevidência apresenta renúncia ao cargo nesta sexta-feira (23), horas após a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão na autarquia. A decisão ocorre em meio às investigações sobre o caso Banco Master e amplia a pressão sobre a gestão da previdência dos servidores do Rio de Janeiro.
Operação atinge coração da previdência estadual
Agentes da Polícia Federal chegam cedo à sede do Rioprevidência, no Centro do Rio, e a três endereços residenciais na Zona Sul, em Botafogo, Gávea e Urca. Os mandados fazem parte de uma nova fase da apuração sobre o Banco Master, que investiga suspeitas de irregularidades em operações financeiras com potencial impacto sobre o caixa da previdência estadual.
A renúncia do dirigente, confirmada no fim da manhã, é tratada nos bastidores do governo como tentativa de conter o desgaste político e preservar o funcionamento do fundo. A autarquia administra bilhões de reais em contribuições de servidores ativos, aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro, e qualquer suspeita sobre sua governança acende alerta imediato entre sindicatos e associações de classe.
Investigadores apuram se decisões internas do Rioprevidência favoreceram o Banco Master em operações de crédito, aplicações ou renegociações de dívidas, em condições consideradas fora do padrão de mercado. Os detalhes da participação do presidente ainda não são tornados públicos, mas o fato de seus endereços terem sido alvo da PF eleva a gravidade política do caso.
Em nota sucinta, interlocutores do governo afirmam que “todas as informações solicitadas pela Justiça serão prestadas” e que a administração estadual defende “investigações rápidas e transparentes”. Aliados do ex-dirigente insistem que ele “segue à disposição das autoridades” e que a saída do cargo busca “evitar qualquer interferência na apuração”.
Risco à confiança de 460 mil servidores e pensionistas
O Rioprevidência é responsável pela previdência de centenas de milhares de servidores estaduais da ativa, aposentados e pensionistas. Qualquer ruído na gestão de seus recursos mexe com o futuro de famílias que dependem, mês a mês, de salários e benefícios. A lembrança de crises anteriores, como os atrasos de pagamento em 2016 e 2017, reforça o clima de apreensão entre funcionários públicos.
Especialistas em contas públicas ouvidos pela reportagem avaliam que a combinação de investigação federal, renúncia repentina e histórico de desequilíbrios fiscais aumenta o risco de desconfiança sobre o fundo. “Quando o órgão que guarda o dinheiro da aposentadoria entra no noticiário policial, o dano à credibilidade é imediato, mesmo antes de qualquer condenação”, afirma um economista que acompanha a previdência fluminense há mais de dez anos.
O caso Banco Master já mobiliza Brasília, o Banco Central e órgãos de controle, por envolver operações bilionárias e suspeitas de fraudes financeiras. A entrada do Rioprevidência nesse enredo amplia o alcance da crise e coloca o regime próprio de previdência do Rio sob escrutínio. Investigadores avaliam se decisões comprometem a segurança dos investimentos ou expõem o fundo a riscos acima do aceitável para uma instituição que lida com recursos de longo prazo.
Sindicatos cobram explicações imediatas do governo estadual sobre o volume de recursos eventualmente expostos ao Banco Master, prazos de contratos, taxas e garantias. Representantes de servidores defendem a criação de um comitê técnico independente para acompanhar as carteiras de investimento e pedem acesso detalhado às atas de reuniões que aprovaram eventuais operações com o banco investigado.
Pressão por transparência e mudanças na governança
A saída do presidente abre disputa pela sucessão no comando do Rioprevidência e pressiona o governo do estado a indicar um nome com perfil técnico e histórico de atuação em gestão previdenciária. Integrantes da equipe econômica defendem prioridade máxima para a escolha, com prazo de dias, e não semanas, para evitar nova rodada de incertezas.
A Controladoria-Geral do Estado e o Tribunal de Contas devem intensificar a análise sobre contratos, operações estruturadas e políticas de investimento da autarquia nos últimos anos. Entre as medidas em discussão estão a revisão de todos os vínculos com o Banco Master, auditorias independentes e a publicação, em linguagem acessível, de relatórios trimestrais com composição detalhada da carteira de investimentos.
No campo jurídico, procuradores avaliam a abertura de processos administrativos contra gestores e conselheiros que participaram de decisões sob suspeita. Dependendo das conclusões da Polícia Federal e do Ministério Público, denúncias criminais podem atingir figuras centrais da autarquia e intermediários do mercado financeiro.
O governo estadual sinaliza que pretende usar a crise como argumento para reforçar mecanismos de controle interno, criar barreiras mais rígidas entre decisões políticas e técnicas e rever critérios de nomeação para a cúpula do Rioprevidência. A discussão tende a chegar à Assembleia Legislativa, que já debate novos marcos de transparência para estatais e fundos públicos.
A operação desta sexta-feira marca mais um capítulo da longa disputa em torno de como o Rio de Janeiro administra a aposentadoria de seus servidores. As próximas semanas dirão se a renúncia será um episódio isolado ou o início de uma reforma mais profunda na governança do Rioprevidência, em um momento em que a confiança parece tão valiosa quanto o próprio saldo das contas previdenciárias.
