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Japão dissolve Parlamento e antecipa eleição em meio à alta do custo de vida

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, dissolve o Parlamento nesta sexta-feira (23) e convoca eleições legislativas antecipadas para 8 de fevereiro de 2026. A líder busca um mandato mais forte para enfrentar a inflação persistente e ampliar os gastos com defesa.

Popularidade alta em cenário econômico delicado

Sanae Takaichi, primeira mulher a governar o país asiático, decide antecipar a disputa num momento em que seu gabinete desfruta de altos índices de aprovação. A aposta é simples: transformar o apoio pessoal em maioria confortável no Parlamento antes que o humor do eleitor mude com a economia instável.

A decisão encerra uma semana de especulações em Tóquio. Na segunda-feira (19), Takaichi já havia sinalizado a intenção de dissolver a Câmara Baixa e submeter sua agenda às urnas. O objetivo declarado é obter respaldo claro para medidas de proteção às famílias diante do aumento do custo de vida e para um reforço dos gastos militares, em linha com a meta de elevar a capacidade de dissuasão do Japão em um ambiente regional mais tenso.

O movimento acontece num ponto de inflexão da economia japonesa. Dados oficiais divulgados nesta sexta mostram que a inflação desacelera em dezembro, mas segue acima da meta do Banco Central. O índice de preços ao consumidor, excluídos os alimentos frescos, sobe 2,4% em 12 meses, contra 3% em novembro, ainda acima da meta de 2% do Banco do Japão.

Para muitos eleitores, a queda numérica não se traduz em alívio imediato. A fraqueza crônica do iene encarece importações e pressiona a vida cotidiana, do supermercado à conta de energia. O arroz, base da dieta japonesa, simboliza a ansiedade: o preço do cereal dobra em meados de 2025 em relação ao ano anterior e ainda registra alta de mais de 34% em dezembro na comparação com 2024.

Disputa em clima de desgaste partidário

A antecipação das eleições também revela a urgência política de Takaichi. Embora seu gabinete mantenha aprovação robusta, o Partido Liberal Democrático (PLD), que governa o Japão quase sem interrupções desde 1955, enfrenta baixos índices de confiança e uma sequência de escândalos. O parceiro de coalizão, o Partido da Inovação do Japão (JIP), ajuda a sustentar uma maioria apertada na Câmara, insuficiente para um programa ambicioso sem risco.

Takaichi quer converter o apoio à sua figura em votos para a aliança. “Não está claro se o alto apoio público ao gabinete de Takaichi se traduzirá realmente em apoio ao PLD”, avalia Hidehiro Yamamoto, professor de política da Universidade de Tsukuba, em entrevista à agência AFP. “O que preocupa a população são as medidas para enfrentar a inflação”. A frase sintetiza o desafio central: o pleito tende a ser menos um referendo ideológico e mais um julgamento da capacidade do governo de proteger a renda das famílias.

A sucessão recente reforça esse pano de fundo. O descontentamento com a alta de preços contribui de forma decisiva para a queda do ex-primeiro-ministro Shigeru Ishiba, substituído por Takaichi em outubro. O Japão convive por décadas com o risco oposto, o da deflação, que desestimula consumo e investimento. Agora enfrenta o cenário inverso: inflação acima da meta e salários que não acompanham a mesma velocidade, num país com população envelhecida e pressão crescente sobre a seguridade social.

O pacote que a primeira-ministra tenta blindar com um novo mandato combina subsídios a energia, apoio direto às famílias e aumento gradativo dos gastos em defesa. Parte da desaceleração recente da inflação vem justamente dos subsídios a eletricidade e gás, que baixam a conta de milhões de lares. A eleição funciona, na prática, como um teste sobre até onde a sociedade está disposta a aceitar mais investimento militar em paralelo a uma crise de custo de vida.

Economia doméstica, segurança regional e o dia seguinte

O resultado das urnas em 8 de fevereiro pode redesenhar o equilíbrio de forças no Parlamento japonês e influenciar a agenda econômica da terceira maior economia do mundo. Uma vitória clara do bloco PLD-JIP fortalece Takaichi para ampliar programas sociais ligados à inflação, rever a política industrial e sustentar o plano de reforço de defesa diante da pressão estratégica da China e da Coreia do Norte. Também envia ao exterior a mensagem de continuidade, importante para aliados como os Estados Unidos.

Uma perda de cadeiras ou mesmo uma derrota da coalizão abre caminho para negociações difíceis, com possíveis rearranjos de alianças e o risco de nova troca de liderança. A instabilidade política pode atrasar decisões sobre orçamento, travar reformas tributárias e dificultar respostas rápidas a choques externos, como oscilações do preço de energia ou tensões no mar da China Oriental.

Os próximos dias se concentram na campanha e na tentativa dos partidos de ocupar o debate sobre o custo de vida. A oposição mira o desgaste do PLD e promete alternativas para controlar preços sem aprofundar o endividamento público. O governo, por sua vez, aposta na narrativa de que já começa a entregar resultados, com a inflação recuando de 3% para 2,4% em um ano e o arroz deixando de subir ao ritmo explosivo de 2025, ainda que permaneça caro para muitos lares.

Takaichi entra na disputa com o peso histórico de ser a primeira mulher no comando do Japão e a responsabilidade de provar que sua popularidade não é episódica. O eleitor japonês decide em menos de três semanas se concede a ela um mandato reforçado para atravessar uma fase de preços altos e incerteza geopolítica ou se prefere redistribuir o poder no Parlamento, prolongando a pergunta que paira sobre Tóquio: quem vai pagar a conta da inflação e da nova era de gastos em defesa?

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