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Lula e Mahmoud Abbas discutem reconstrução de Gaza e plano de paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa por telefone, nesta quinta-feira (22), com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas. Os dois discutem a reconstrução de Gaza e o futuro do novo Conselho de Paz lançado pelo governo Donald Trump, em um momento de trégua frágil na região.

Ligação ocorre após cessar-fogo e convite dos EUA

A conversa se dá quatro dias depois de os Estados Unidos confirmarem a criação do chamado Conselho de Paz para o Oriente Médio, anunciado por Trump em Washington. O Brasil é convidado a integrar o mecanismo, mas Lula ainda não oficializa se aceita o assento. Na segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, o presidente se reúne com o chanceler Mauro Vieira, no Planalto, para avaliar as implicações políticas e diplomáticas do convite norte-americano.

Segundo o relato do Palácio do Planalto, Lula expressa satisfação com o cessar-fogo em Gaza, obtido após meses de ofensivas e bombardeios na Faixa, e pede a Abbas uma avaliação sobre as condições reais de reconstrução. O presidente brasileiro reforça que o país “mantém compromisso histórico com a paz no Oriente Médio” e indica disposição em atuar como ponte entre diferentes atores, caso haja espaço político para isso. Abbas, por sua vez, detalha as dificuldades no território, menciona a urgência de reconstruir moradias, hospitais e redes de água e energia, e concorda em manter um canal direto com Brasília durante as próximas etapas do processo.

Brasil testa espaço de influência em meio à disputa de protagonismo

A ligação vai além do protocolo diplomático e marca o esforço de Lula em reposicionar o Brasil como articulador em temas sensíveis da agenda internacional. Desde o retorno ao Palácio do Planalto, em 2023, o presidente tenta reativar a imagem do país como mediador confiável, depois de anos de afastamento das negociações multilaterais. O Conselho de Paz lançado por Trump, ainda em fase de definição de membros e regras, abre uma janela para que o Brasil participe de decisões que podem orientar a reconstrução de Gaza e eventuais garantias de segurança entre Israel e a Autoridade Palestina.

Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que a eventual entrada do Brasil no grupo implica custos e ganhos calculados. De um lado, aproxima o governo Lula da Casa Branca em um tema de alta visibilidade, num momento em que Washington tenta coordenar esforços de reconstrução com promessas de bilhões de dólares em ajuda internacional ao longo dos próximos cinco anos. De outro, expõe o país a pressões de aliados árabes e de organizações de direitos humanos, que cobram posições mais firmes sobre a responsabilização por ataques contra civis e sobre o futuro do bloqueio à Faixa de Gaza.

Reconstrução de Gaza e papel brasileiro em disputa

O foco da conversa com Abbas recai sobre o dia seguinte ao silêncio das armas. Com bairros inteiros destruídos, a estimativa preliminar de organismos internacionais aponta para a necessidade de dezenas de bilhões de dólares em investimentos em infraestrutura básica, habitação e serviços públicos em Gaza ao longo da próxima década. O Brasil, que já integra agências da ONU ativas na região, observa espaço para ampliar cooperação técnica em áreas como saneamento, saúde e educação, além de possíveis parcerias com bancos de desenvolvimento para financiar obras.

No Planalto, auxiliares destacam que Lula quer vincular qualquer participação brasileira no Conselho de Paz a compromissos claros com a reconstrução e com o diálogo político. A leitura é que a simples adesão a uma instância criada pela Casa Branca, sem garantias mínimas de inclusão da Autoridade Palestina e de respeito aos acordos já firmados, pode esvaziar o papel de mediador que o Brasil tenta recuperar. A troca de impressões com Abbas funciona como termômetro: se a liderança palestina enxergar no Conselho de Paz apenas um fórum de gestão de recursos, sem avanços concretos no processo político, a entrada brasileira tende a ser mais cautelosa.

Próximos movimentos e dúvidas abertas

Lula e Abbas combinam manter contato constante nas próximas semanas, à medida que o desenho do Conselho de Paz ganha contornos mais nítidos. A expectativa em Brasília é que os Estados Unidos detalhem, ainda no primeiro trimestre de 2026, a composição do grupo, o calendário de reuniões e os critérios de participação de atores regionais. Até lá, o Itamaraty mapeia cenários, consulta parceiros no Oriente Médio e busca garantir que o Brasil não seja apenas figurante em uma mesa dominada pelas grandes potências.

A decisão sobre aderir ou não ao Conselho de Paz tende a se tornar um teste da política externa de Lula em temas de guerra e paz. Um movimento em direção a Washington pode ampliar o alcance do Brasil em negociações de alto impacto, mas também colocá-lo no centro de disputas que extrapolam a reconstrução de Gaza e tocam em questões de soberania, fronteiras e segurança. No curto prazo, o telefonema desta quinta-feira sinaliza que Brasília quer ter voz no processo e não assistir de longe à reorganização do tabuleiro no Oriente Médio. A dúvida é até onde essa voz poderá ir sem que o país perca a capacidade de falar com todos os lados.

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