EUA mediam negociação direta entre Rússia e Ucrânia sobre Donbas
Estados Unidos, Rússia e Ucrânia abrem nesta sexta-feira (23), em Abu Dhabi, a primeira rodada de negociações trilaterais dedicada a destravar um acordo para o fim da guerra. Em dois dias de reuniões a portas fechadas, as delegações tentam responder a uma única pergunta: qual será o destino da região de Donbas, no leste ucraniano.
Donbas no centro da mesa
O encontro, marcado para sexta (23) e sábado (24), concentra-se na disputa territorial em torno de Donetsk e Luhansk, regiões industriais que se tornam símbolo da resistência e da ambição de Moscou. A delegação russa é chefiada pelo almirante Igor Olegovich Kostyukov, comandante da Diretoria Principal de Inteligência, enquanto os ucranianos são liderados por Andrii Hnatov, vice-chefe do gabinete presidencial e chefe do Estado-Maior General.
As conversas ocorrem sob mediação direta de Washington, após uma sequência de encontros discretos entre enviados especiais dos Estados Unidos e o alto comando russo. Horas antes da viagem a Moscou, o emissário Steve Witkoff afirma que o impasse está “resumido a uma única questão”. “Acho que chegamos a uma única questão, e discutimos várias versões dessa questão, o que significa que é possível resolvê-la”, diz ele em Davos, na quinta-feira (22).
A questão é territorial, confirmam depois fontes europeias. Moscou exige a retirada das forças ucranianas de cerca de 20% da região de Donetsk, o equivalente a 5.000 km², hoje ainda sob controle de Kiev. O Kremlin quer transformar em fato consumado, à mesa de negociação, aquilo que não consegue conquistar no campo de batalha.
Volodymyr Zelensky responde de forma direta. O presidente ucraniano afirma não ver motivo para ceder qualquer parte do território e diz que Donbas será discutida em Abu Dhabi, mas dentro de parâmetros que preservem a integridade do país. Kiev insiste que Donetsk continua sendo território ucraniano, reconhecido como tal pela maioria dos países e pelas principais instituições internacionais.
Pressão militar e cálculo político
As conversas nos Emirados ocorrem sob o peso de uma guerra que já passa de mil dias e redesenha o mapa de segurança da Europa. A Rússia controla praticamente toda Luhansk e partes significativas de Donetsk, uma das quatro regiões cuja anexação Moscou proclama em 2022, após referendos considerados uma farsa por Kiev e pelos aliados ocidentais. O restante de Donetsk, alvo da nova exigência de retirada, segue sob defesa ucraniana.
O assessor do Kremlin Yuri Ushakov deixa claro o horizonte russo. “Sem resolver a questão territorial… não se deve contar com um acordo de longo prazo”, afirma. Ele acrescenta que Moscou continuará a perseguir seus objetivos “no campo de batalha, onde as Forças Armadas Russas detêm a iniciativa estratégica”, até que haja um entendimento aceitável para o país. O recado mira tanto Kiev quanto Washington.
Do lado americano, o cálculo é duplo. A Casa Branca tenta reduzir o risco de uma escalada prolongada na fronteira leste da Otan, que já mobiliza bilhões de dólares em ajuda militar e humanitária, ao mesmo tempo em que testa a disposição de Vladimir Putin em aceitar concessões verificáveis. Em paralelo, Donald Trump explora politicamente a mediação e volta a dizer que está “perto de um acordo” para o fim da guerra, sem apresentar detalhes públicos das propostas discutidas.
As reuniões em Abu Dhabi funcionam como um laboratório para medir o quanto cada lado está disposto a recuar. Para Moscou, a retirada ucraniana de 20% de Donetsk é desenhada como linha vermelha. Para Kiev, qualquer cessão formal de território ameaça abrir precedente para novos avanços russos. Entre uma posição e outra, os negociadores americanos tentam construir fórmulas intermediárias, que podem incluir zonas desmilitarizadas, regimes especiais de administração e cronogramas escalonados de segurança.
O que está em jogo para além da linha de frente
Um eventual acordo sobre Donbas muda a dinâmica da guerra em vários níveis. No plano militar, pode reduzir a intensidade dos combates em uma das frentes mais letais do conflito e abrir caminho para um cessar-fogo mais amplo. No plano político, reorienta o debate interno tanto em Moscou quanto em Kiev, com impacto direto na popularidade de Putin e Zelensky.
Na Ucrânia, qualquer concessão territorial enfrenta resistência de uma sociedade mobilizada desde 2022 e marcada por mais de dois anos de bombardeios, deslocamentos forçados e milhares de mortos. A percepção de vitória ou derrota não se resume à linha no mapa, mas à sensação de que o país mantém o direito de decidir o próprio futuro. Entre aliados europeus, um acordo que envolva perda formal de território gera desconforto, mas também a expectativa de aliviar gastos militares e redirecionar recursos para a reconstrução, que já se estima em centenas de bilhões de dólares.
Para a Rússia, o reconhecimento de controle sobre partes adicionais de Donetsk seria apresentado como prova de que a estratégia de pressão militar funciona. Internamente, reforça o discurso de Putin sobre a recuperação de “terras históricas” e oferece argumento para sustentar que os sacrifícios econômicos e humanos da guerra não foram em vão. Em troca, Moscou poderia aceitar limites explícitos à expansão de suas forças no território ucraniano e algum tipo de monitoramento internacional.
O desfecho em Abu Dhabi também interessa a países que não estão na mesa, mas sofrem os reflexos da guerra. Mercados de energia e de grãos seguem sensíveis a qualquer sinal de escalada ou trégua. Rotas de exportação pelo Mar Negro já provocam choques de oferta desde 2022 e pressionam inflação em economias frágeis na África, no Oriente Médio e na América Latina. Um cessar-fogo duradouro ajudaria a estabilizar esses fluxos, ainda que não resolva de imediato as sanções econômicas impostas à Rússia.
Próximos passos e incertezas
As negociações em Abu Dhabi terminam no sábado (24), mas nenhuma das partes antecipa se haverá comunicado conjunto. O formato trilateral permite recuos táticos: cada delegação pode culpar a outra pelo impasse, ao mesmo tempo em que mantém canais discretos abertos para novas rodadas. O sucesso imediato não é o único indicador relevante; diplomatas envolvidos veem valor em fixar parâmetros mínimos para qualquer conversa futura.
Caso surja um entendimento sobre Donbas, ainda que parcial, a agenda seguinte inclui temas tão complexos quanto: garantias de segurança para a Ucrânia, cronogramas de retirada ou reposicionamento de tropas, liberação gradual de sanções e mecanismos de financiamento da reconstrução. A ausência de acordo, por outro lado, fortalece a ala russa que defende avanços adicionais e prolonga o desgaste ucraniano, com reflexos diretos na estabilidade europeia e na segurança internacional.
As próximas 48 horas não encerram a guerra, mas indicam em que direção caminham os líderes de Moscou, Kiev e Washington. A pergunta que permanece, ao fim das reuniões em Abu Dhabi, é se algum deles está disposto a pagar o preço político de transformar em papel o que hoje se decide apenas no campo de batalha.
