Xi pressiona Lula a reforçar ONU e escolher “lado certo” na geopolítica
Em ligação na madrugada desta sexta-feira (23.jan.2026), o presidente da China, Xi Jinping, pede que Luiz Inácio Lula da Silva fortaleça a ONU e “escolha o lado certo da história”, em recado que ecoa a disputa com os Estados Unidos e a influência do ex-presidente Donald Trump.
Pequim testa limites da diplomacia brasileira
A conversa ocorre em um momento de reacomodação de forças na política internacional. Enquanto Washington tenta recuperar espaço após anos de Donald Trump na Casa Branca, Pequim acelera a aproximação com governos estratégicos, entre eles o Brasil. A ligação de Xi a Lula, feita na madrugada de sexta-feira em Brasília, entra nesse movimento mais amplo.
Ao defender o fortalecimento da ONU e cobrar que países “escolham o lado certo da história”, Xi envia um sinal de que espera do Brasil mais do que gestos simbólicos. A frase, usada com frequência pela diplomacia chinesa desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, funciona como código para apoio a uma ordem internacional menos dependente dos Estados Unidos e mais aberta à influência de potências emergentes.
No Planalto, o contato é lido como demonstração de prestígio, mas também como alerta. O Brasil mantém comércio anual superior a US$ 160 bilhões com a China, maior parceiro desde 2009, e negocia ao mesmo tempo acordos sensíveis com os Estados Unidos em áreas como defesa, transição energética e tecnologia. Cada conversa de alto nível com uma potência mexe nesse tabuleiro.
A ligação de Xi vem na esteira de gestos públicos de Lula em defesa do multilateralismo. O presidente brasileiro cobra há anos a reforma do Conselho de Segurança da ONU e busca um assento permanente para o país. O apelo chinês para “fortalecer a ONU” encaixa nesse discurso, mas carrega nuances. Para Pequim, fortalecer a instituição significa conter ações unilaterais e sanções lideradas por Washington. Para Brasília, significa ter mais voz em decisões globais, sem abrir mão da autonomia em temas sensíveis.
Pressão por alinhamento e risco de atrito com EUA
Ao sugerir que os países escolham o “lado certo”, Xi faz uma crítica indireta às políticas de Trump, que atacou o multilateralismo, retirou os Estados Unidos de acordos internacionais e desdenhou organismos como a própria ONU e a OMS. A mensagem, embora não cite o republicano, soa como recado para governos que oscilam entre a agenda trumpista e a cooperação global. O Brasil está nesse cruzamento, com uma elite política dividida sobre o grau de proximidade com Washington e Pequim.
A pressão chinesa ocorre enquanto o Brasil tenta consolidar uma política externa de equilíbrio. Lula participa ativamente de fóruns como G20 e Brics, hoje ampliado e com maior peso asiático e do Oriente Médio, e ao mesmo tempo reafirma laços históricos com os Estados Unidos, que somam mais de US$ 100 bilhões em comércio bilateral por ano. Cada aceno mais explícito a Pequim tem potencial de irritar setores em Washington, sobretudo grupos próximos a Trump e ao Partido Republicano.
Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que o telefonema de Xi marca uma etapa de cobrança. Nos últimos dois anos, o governo brasileiro evita tomar posição clara em conflitos centrais, como a guerra na Ucrânia e as tensões no estreito de Taiwan. Ao falar em “lado certo da história”, a liderança chinesa indica que não está mais satisfeita com a ambiguidade. Quer gestos concretos em votações na ONU, em negociações climáticas, em debates sobre sanções e em reformas da governança global.
O movimento afeta diretamente o cálculo de Lula. O presidente sabe que um alinhamento mais visível com a China pode render acesso facilitado a crédito, investimentos em infraestrutura, energia e tecnologia 5G, e apoio explícito às ambições brasileiras na ONU. Também sabe que aproximação excessiva pode acender desconfianças nos Estados Unidos e acirrar a polarização interna, onde a retórica trumpista segue forte em parte da oposição.
Brasil em disputa e próximos passos da equação
O telefonema desta sexta-feira reforça o lugar do Brasil como peça disputada no xadrez das grandes potências. Em 2026, o país preside fóruns importantes, participa de negociações climáticas decisivas e tenta atrair investimentos para acelerar a transição energética até 2030. Cada sinal em direção a Pequim ou Washington pesa nos cálculos de empresas, governos e organismos internacionais.
Nos bastidores, assessores do Itamaraty defendem uma resposta que reforce o discurso tradicional de autonomia, mas acompanham com atenção a repercussão em capitais estrangeiras. Qualquer mudança no padrão de voto brasileiro na Assembleia-Geral da ONU ou no Conselho de Direitos Humanos, por exemplo, será lida como sintoma de maior alinhamento. O mesmo vale para projetos financiados por bancos chineses ou americanos em infraestrutura, defesa cibernética e controle de dados.
A expectativa é que Lula use os próximos encontros multilaterais para calibrar esse equilíbrio. Cúpulas marcadas para o 1º semestre e reuniões preparatórias da ONU tendem a expor com mais clareza as escolhas brasileiras. O governo terá de mostrar se transforma o apelo de Xi em proximidade efetiva ou se mantém a estratégia de caminhar entre as potências, reivindicando um “terceiro caminho” em nome do Sul Global.
A frase sobre o “lado certo da história” continua ecoando em Brasília e em outras capitais. A disputa entre China e Estados Unidos já define cadeias produtivas, regula o fluxo de tecnologia e influencia eleições em vários continentes. A ligação da madrugada coloca o Brasil novamente no centro dessa equação e deixa uma pergunta aberta: por quanto tempo ainda será possível manter a autonomia sem escolher, de forma mais clara, de que lado o país pretende estar.
