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38% dos formandos de medicina privada falham em exame nacional

Quase quatro em cada dez formandos de medicina de faculdades privadas do país não alcançam, em 2025, o nível mínimo de qualificação exigido em exame nacional. O resultado, medido no Enamed, acende um alerta sobre a proliferação de cursos autorizados sem avaliação rigorosa e expõe o risco direto para a segurança de pacientes no sistema de saúde brasileiro.

Exame expõe fragilidade na formação médica privada

O Enamed, Exame Nacional de Avaliação de Medicina, cobra conteúdos básicos para o exercício seguro da profissão. Em 2025, entre 24.487 concluintes de cursos privados, 9.489 não atingem a proficiência mínima estabelecida. O índice de reprovação, de 38%, concentra-se sobretudo em instituições abertas após 2013, muitas delas criadas a partir de liminares judiciais.

Os números rompem o discurso de expansão bem-sucedida do ensino médico privado. Nos últimos dez anos, o país registra uma corrida por vagas em medicina, estimulada por mensalidades altas e pela promessa de retorno rápido no mercado. Em paralelo, decisões judiciais permitem a abertura de faculdades sem que passem pelo crivo completo de comissões técnicas do Ministério da Educação.

Nesse cenário, a prova nacional funciona como termômetro da qualidade efetiva da formação. Ao medir conhecimentos clínicos, raciocínio diagnóstico e noções de segurança do paciente, o Enamed revela lacunas que não se restringem a detalhes teóricos. Quando 9.489 futuros médicos não demonstram domínio mínimo desses conteúdos, o problema deixa de ser acadêmico e passa a ser de saúde pública.

Especialistas em educação médica veem na combinação entre expansão acelerada e fiscalização frágil a raiz da crise. Em avaliações internas, professores relatam turmas superlotadas, falta de campos de estágio e rodízios em hospitais feitos mais para cumprir tabela do que para garantir aprendizado real. Em muitas dessas instituições, o curso nasce por força de liminar, mas a estrutura de ensino e de prática vem depois, de forma improvisada.

Risco direto para pacientes e pressão sobre o sistema de saúde

A constatação de que mais de um terço dos formandos de medicina privada não alcança a nota mínima exigida tem reflexo imediato no atendimento à população. Esses profissionais chegam ao mercado em 2025 já autorizados a atuar em unidades básicas, prontos-socorros e hospitais de pequeno porte, muitas vezes em cidades onde são o único médico disponível.

Na prática, o risco recai sobre pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde e de redes conveniadas de menor porte. Erros de diagnóstico, atrasos em intervenções simples e dificuldade em reconhecer sinais de gravidade tendem a aumentar quando a formação é precária. A discussão deixa de ser abstrata quando se imagina um plantão noturno em que o único médico em serviço é um profissional que não conseguiu atingir o patamar mínimo em um exame nacional de proficiência.

O impacto também é institucional. A credibilidade do ensino médico privado entra em xeque, especialmente entre as faculdades criadas por decisões liminares. A percepção de que a lógica do negócio se sobrepõe à responsabilidade social corrói a confiança de estudantes, famílias e empregadores. Um gestor de hospital resume a inquietação nos bastidores: “Não é razoável que o currículo de um médico dependa mais da pressa de uma liminar do que de uma avaliação séria”.

Entidades da área de saúde acompanham a escalada de resultados negativos com preocupação. Conselhos profissionais, tradicionalmente focados em ética e fiscalização do exercício, passam a ser pressionados a atuar também na origem do problema, cobrando critérios mais rígidos para abertura de cursos. Para docentes, o exame funciona como radiografia de um modelo esgotado: amplia o número de vagas sem garantir professores qualificados, leitos de ensino e preceptores em número suficiente.

Revisão de regras, embate jurídico e disputa por futuro

A divulgação do desempenho no Enamed tende a reforçar a pressão por mudanças na legislação que regula a abertura e o funcionamento de cursos de medicina. No centro do debate está o uso recorrente de liminares para contornar pareceres técnicos e autorizar novas vagas. A partir de 2013, esse expediente ganha corpo e cria uma geração de faculdades que nasce sob disputa judicial, sem planejamento integrado com a política nacional de formação em saúde.

O Ministério da Educação é cobrado a endurecer critérios, ampliar inspeções in loco e suspender graduações com desempenho sistematicamente ruim. Órgãos reguladores da área de saúde defendem a criação de travas adicionais, como metas de qualidade vinculadas à renovação de autorização de funcionamento. A ideia de tornar o Enamed uma espécie de exame de ordem, semelhante ao da advocacia, volta ao centro das discussões em Brasília.

Representantes de mantenedoras de ensino privado já se preparam para reagir. Nos bastidores, argumentam que a responsabilidade não é exclusiva das faculdades e citam carências históricas do sistema de saúde, como falta de preceptores e campos de prática adequados. A tendência é de novo embate jurídico, com questionamentos a eventuais tentativas de fechamento sumário de cursos ou de bloqueio de novas autorizações.

O país entra em uma encruzilhada. De um lado, a necessidade real de mais médicos, sobretudo em regiões afastadas dos grandes centros. De outro, a evidência numérica de que a expansão descontrolada produz diplomas sem lastro em formação sólida. O desempenho de 2025 no Enamed transforma esse impasse em dado concreto e cria um ponto de inflexão inevitável para a política de ensino médico.

A resposta que governo, Congresso, Judiciário e entidades da área de saúde dão a esse diagnóstico definirá o perfil do médico que chegará aos consultórios nos próximos anos. A discussão não é apenas sobre quantas faculdades o país suporta, mas sobre que padrão mínimo o Brasil está disposto a exigir de quem segura o estetoscópio à beira do leito. A próxima edição do Enamed dirá se o sistema reage ao alerta ou se normaliza a estatística de que quase 40% dos novos médicos saem da graduação sem o básico.

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