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Rússia, Ucrânia e EUA retomam negociação de paz em Abu Dhabi

Rússia, Ucrânia e Estados Unidos iniciam nesta sexta-feira (23), em Abu Dhabi, uma rodada decisiva de negociações para um possível cessar-fogo na guerra. Além do encontro trilateral, Moscou e Washington realizam uma reunião bilateral paralela para tentar destravar pontos sensíveis do conflito.

Reunião sigilosa em meio à pressão internacional

As delegações chegam aos Emirados Árabes Unidos em um momento de cansaço visível do conflito, que já entra em seu terceiro ano com milhares de mortos, cidades destruídas e impacto direto sobre a economia global. A escolha de Abu Dhabi, longe das frentes de batalha e das capitais ocidentais, tenta oferecer um terreno neutro para uma conversa que, até poucos meses atrás, parecia improvável.

O assessor de política externa do Kremlin, Yury Ushakov, confirma o encontro e ressalta que a equipe russa viaja com orientação direta de Vladimir Putin. “Nossa delegação acaba de receber instruções específicas do presidente russo, levando em consideração todos os detalhes da conversa de hoje com os americanos”, afirma, em referência à reunião em Moscou com os enviados especiais de Donald Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, antecipa o movimento um dia antes, na quinta-feira (22), durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. Ao anunciar uma reunião de dois dias, ele sinaliza ao público internacional que as negociações não são apenas de fachada e que há, ao menos, disposição para testar uma saída diplomática após quase dois anos de impasse no campo de batalha.

A delegação russa em Abu Dhabi é liderada pelo chefe da Diretoria Principal de Inteligência, a GRU, almirante Igor Olegovich Kostyukov. A presença do comando da inteligência militar indica que o debate deve tratar de questões táticas e de segurança concreta nas linhas de frente, como corredores humanitários, retirada de equipamentos pesados e mecanismos de monitoramento de um eventual cessar-fogo.

Trilhas paralelas de negociação e cálculo de poder

Além da mesa trilateral, Rússia e Estados Unidos marcam um encontro reservado para discutir diretamente as condições de descompressão do conflito. Segundo Ushakov, o enviado especial do Kremlin, Kirill Dmitriev, e o enviado americano, Steve Witkoff, conduzem o diálogo bilateral, enquanto Jared Kushner atua como articulador político do lado de Washington. A aposta é que, sem algum tipo de entendimento mínimo entre as duas potências, qualquer acerto mais amplo com Kiev corre o risco de não sair do papel.

Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, tentativas de cessar-fogo alternam avanços pontuais e fracassos rápidos. A guerra já força a Europa a redirecionar bilhões de euros em gastos militares, pressiona o orçamento dos Estados Unidos e afeta cadeias globais de energia e grãos. O preço internacional do trigo e do gás natural responde a cada sinal de escalada ou distensão no leste europeu, afetando do transporte urbano na Alemanha ao custo do pão em países africanos dependentes das exportações da região do Mar Negro.

A diplomacia americana chega a Abu Dhabi após meses de críticas internas sobre o tamanho da ajuda militar à Ucrânia e sobre os limites do envolvimento direto de Washington. Ao insistir em uma agenda de negociação, a Casa Branca tenta mostrar ao eleitorado que busca uma saída que combine apoio a Kiev com redução do risco de confronto direto com Moscou.

Para a Ucrânia, o encontro representa uma chance rara de pressionar pela recuperação de territórios ocupados e, ao mesmo tempo, assegurar garantias de segurança de longo prazo. Zelensky precisa equilibrar a expectativa de sua população, ainda traumatizada por bombardeios diários, com a percepção de que o apoio militar ocidental não é ilimitado. Qualquer concessão em mapa ou status político de regiões ocupadas tem potencial de gerar reação imediata em Kiev e nas principais cidades do país.

O que está em jogo e quem pode ganhar ou perder

Os negociadores chegam a Abu Dhabi sob a pressão de transformar gestos diplomáticos em compromissos verificáveis. Uma das hipóteses em discussão envolve um cessar-fogo monitorado por organismos internacionais, com prazo inicial de 90 dias, renovável mediante consenso das partes. Um acordo desse tipo poderia reduzir o número de ataques de mísseis contra infraestruturas críticas ucranianas, como redes elétricas e centros logísticos, que seguem sob risco constante desde 2022.

Para a Rússia, qualquer pausa formal favorecerá o reordenamento de tropas e o fortalecimento de posições defensivas, mas também trará custo político se for percebida internamente como sinal de recuo. Para a Ucrânia, o dilema é aceitar uma trégua que congele o conflito em linhas atuais de controle ou insistir em condições mais duras, como retirada de parte das forças russas. O Ocidente, por sua vez, tenta evitar um cenário em que sanções econômicas prolongadas se tornem menos eficazes sem uma contrapartida clara no campo político e militar.

Mercados de energia e alimentos acompanham de perto. Uma desaceleração dos combates nas regiões portuárias e nos corredores que ligam a Ucrânia ao Mar Negro tende a aliviar o custo do frete e do seguro marítimo. Em 2023, estimativas de seguradoras indicam aumentos de até 300% em prêmios para embarcações na área de risco. Uma redução dessa pressão pode refletir com alguma rapidez nos preços internacionais, embora não reverta de imediato as perdas acumuladas nos últimos dois anos.

Organismos multilaterais veem na rodada de Abu Dhabi um teste para a capacidade de a comunidade internacional influenciar a condução da guerra. Se houver avanços, cresce a possibilidade de conferências ampliadas com participação de União Europeia, China, Turquia e países do chamado Sul Global, que ganharam peso nas votações sobre o conflito em instâncias como a Assembleia-Geral da ONU.

Próximos passos e incertezas no horizonte

As conversas em Abu Dhabi devem se estender por pelo menos dois dias, em sessões intercaladas entre técnicos militares, diplomatas e assessores econômicos. Integrantes das delegações indicam reservadamente que qualquer anúncio público, se vier, será calibrado em etapas, começando por declarações de intenção e algum formato de compromisso para novas reuniões nas próximas semanas.

A agenda internacional para a Ucrânia, nos próximos meses, dependerá do que for dito nas salas fechadas dos Emirados. Se a rodada render um esboço de cronograma para cessar-fogo, governos europeus poderão ajustar pacotes de ajuda militar e humanitária, e investidores voltarão a discutir planos de reconstrução de longo prazo, hoje estimados em centenas de bilhões de dólares. Se o encontro terminar sem resultados concretos, a guerra tende a entrar em uma nova fase de desgaste prolongado, com avanços limitados no campo de batalha e custo crescente para civis e para a economia mundial. A pergunta, por enquanto sem resposta, é até quando os três protagonistas em Abu Dhabi estarão dispostos a pagar esse preço.

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