Yuri perde pênalti, marca e vira dilema no Corinthians na Vila
Yuri Alberto vive uma noite de vilão e herói na mesma partida ao perder um pênalti e marcar o gol do Corinthians no empate por 1 a 1 com o Santos, nesta quinta-feira (22), na Vila Belmiro. O lance reacende o debate sobre a condição do atacante como batedor oficial de pênaltis do time.
Da marca da cal ao gol: o paradoxo de Yuri na Vila
O clássico começa a girar em torno de Yuri Alberto logo nos primeiros minutos. Aos 10 do primeiro tempo, ele arranca desde o campo de defesa, dribla três marcadores do Santos e só para dentro da área, derrubado por Zé Ivaldo. O pênalti parece coroar o início agressivo do camisa 9, mas a bola sai à esquerda do gol, apesar de o goleiro Brazão pular para o outro lado.
A cobrança perdida não é um episódio isolado. É o quarto pênalti desperdiçado nas últimas cinco cobranças do atacante, um recorte que pesa demais em um clube que vive sob pressão permanente. A Vila vibra com o erro do ex-menino da base santista, e as vaias ganham força a cada toque na bola.
Yuri não se esconde. Três minutos depois do pênalti desperdiçado, volta a aparecer com a bola nos pés pelo lado direito do ataque, outra vez acelerando contra a marcação. Inicia a jogada, participa da construção e, no rebote de duas defesas de Brazão, empurra para o gol e abre o placar para o Corinthians. A comemoração é tensa, quase um desabafo diante da própria torcida que o persegue desde a divulgação da escalação.
O gol reafirma um traço do atacante: mesmo sob questionamento, ele segue se oferecendo ao jogo. Procura o um contra um, tenta finalizações, busca o espaço às costas dos zagueiros. Até os acréscimos do segundo tempo, o gol de Yuri sustenta a vitória corintiana, que escapa apenas quando Gabigol empata em cobrança de falta, já aos 48 minutos. O empate por 1 a 1 deixa o ambiente carregado no vestiário visitante.
Dorival expõe dilema e elenco se divide sem rachar
O erro na marca da cal muda o tom da análise de Dorival Júnior após a partida. O treinador admite o incômodo com a sequência de pênaltis perdidos, mas evita transformar Yuri em bode expiatório. “Ele vinha treinando muito bem. É natural que mantenha a confiança. Vamos conversar, tudo pode ser avaliado”, afirma em entrevista coletiva na Vila Belmiro.
A fala abre uma janela para mudança na hierarquia das cobranças. Dorival deixa no ar a possibilidade de tirar Yuri da função, ao mesmo tempo em que tenta blindar o jogador. “Continua treinando, passa a bola para outro, de repente. Se ele continuar confiante, vamos trabalhar para que ele possa corrigir isso”, completa o técnico, em tom de ponderação.
A posição do comandante encontra eco parcial no elenco. Um dos líderes do grupo, o goleiro Hugo Souza assume a defesa pública do companheiro. “O Yuri é nosso artilheiro, nosso homem gol. Sou a favor de um cara como ele estar presente ali o tempo inteiro”, afirma. O goleiro reforça que os números nos treinos contam outra história. “O aproveitamento dele nos treinos é bom. Ele errou hoje, o Brazão já tinha saído para o outro lado. Mas ele já nos ajudou. É uma decisão dele e do treinador”, diz.
O vestiário, por enquanto, tenta tratar a questão como ajuste interno, não como ruptura. A discussão sobre o batedor oficial deixa de ser apenas uma escolha técnica e ganha contornos de gestão de grupo. Tirar o centroavante da função pode aliviar a pressão imediata, mas também pode ser lido como perda de confiança em um dos jogadores mais importantes do elenco em 2026.
O histórico recente de Yuri aumenta a sensibilidade do caso. Em um intervalo curto de jogos, o atacante desperdiça quatro das últimas cinco penalidades. A estatística contrasta com a imagem de goleador construída desde a chegada ao clube e pressiona a comissão técnica a encontrar um equilíbrio entre meritocracia, momento e capital simbólico do camisa 9 no vestiário.
Confiança em xeque e o que o Corinthians precisa decidir
O episódio na Vila Belmiro expõe um ponto sensível em times grandes: a linha tênue entre confiança e teimosia. Manter Yuri na marca da cal depois de tantos erros pode soar como insistência cega. Tirar o atacante da função, por outro lado, pode fragilizar ainda mais sua confiança em um momento em que ele volta a ser decisivo com bola rolando.
O Corinthians sai de Santos com um ponto, mas também com uma decisão urgente na agenda. A comissão técnica precisa definir, antes das próximas rodadas do Campeonato Paulista, quem assume a responsabilidade máxima em lances de pênalti. Meias como Rodrigo Garro, atacantes de lado ou até zagueiros com bom fundamento surgem como alternativas naturais.
A escolha vai além da parte técnica. Envolve a leitura de vestiário, a gestão da liderança de Yuri e a percepção da torcida, acostumada a transformar qualquer sequência negativa em crise. Em um clube que disputa estaduais, Copa do Brasil, Brasileirão e possivelmente competições continentais em 2026, decisões em pênaltis tendem a se repetir em fases eliminatórias e jogos grandes.
A noite na Vila Belmiro deixa para Dorival um recado claro: o Corinthians precisa de um plano definido para as penalidades. Com Yuri como protagonista ou não, o time não pode ser refém de uma dúvida na hora mais tensa do jogo. O próprio atacante, ao sair de campo como autor do gol e também do principal erro, sabe que sua temporada passa por essa encruzilhada.
O dilema que nasce do pênalti perdido e do gol marcado não se resolve em uma entrevista coletiva. A resposta virá no próximo apito, na próxima marca da cal, quando o Corinthians tiver de decidir quem vai encarar, de novo, a distância curta e o peso longo de um pênalti decisivo.
