Título de cidadão honorário expõe ligação de Toffoli com resort e caso Master
O ministro Dias Toffoli, do STF, recebe em 2017 o título de cidadão honorário de Ribeirão Claro, no norte do Paraná, por atuação em turismo e na Justiça Eleitoral local. A homenagem volta ao centro do debate quase uma década depois, em meio às investigações sobre o Banco Master e à revelação de negócios envolvendo parentes do ministro e o Tayayá Resort, localizado a poucos quilômetros da cidade.
Homenagem, influência local e presença contínua
O título é concedido por decreto legislativo municipal e apresenta Toffoli como aliado do desenvolvimento econômico do município. O texto oficial cita a “constante atenção” do ministro a Ribeirão Claro, “visando o desenvolvimento e o incremento turístico”, e exalta sua “atuação exemplar” pela manutenção da 23ª Zona Eleitoral na cidade. A honraria, em tese protocolar, ganha novo significado à luz das conexões familiares com o principal empreendimento turístico da região.
O Tayayá Resort, às margens da represa de Chavantes, se torna peça central na controvérsia. Dados da Receita Federal indicam que a Maridt Participações S.A., ligada a Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro, figura no quadro societário do empreendimento em anos posteriores à homenagem. O resort passa a ser visto não só como vetor de turismo, mas como ponto de contato entre negócios de família, política local e uma investigação financeira de grande porte.
Em dezembro de 2019, dois anos após receber o título, Toffoli retorna à região para outro ato simbólico. Ele participa da inauguração do Fórum Eleitoral Luiz Toffoli, batizado em homenagem ao pai, em cerimônia marcada para 20 de dezembro. Para o deslocamento, o ministro usa um avião da Força Aérea Brasileira em voo de Brasília a Ourinhos, cidade paulista a menos de 40 quilômetros de Ribeirão Claro. O retorno à capital ocorre em 23 de dezembro, também pela FAB.
Do Tayayá ao caso Master: negócios, fundos e suspeitas
O enredo local se mistura às investigações que cercam o Banco Master, sob relatoria de Toffoli no Supremo. Segundo documentos da Comissão de Valores Mobiliários, o Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia aporta R$ 4,3 milhões para comprar ações do Tayayá Resort. O fundo é administrado pela Reag, empresa citada na operação Carbono Oculto como suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro que teria ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Registros oficiais indicam ainda que a Reag investe R$ 16,3 milhões na DGEP Empreendimentos, que já teve como sócio Mario Umberto Degani, primo de Toffoli. As transações aproximam, no papel, o universo de investimentos do caso Master de negócios que envolvem parentes do ministro em Ribeirão Claro. A defesa de Daniel Vorcaro, dono do Master, nega qualquer irregularidade e afirma que o banco “nunca foi gestor, administrador ou cotista” dos fundos investigados. A Reag declara que não comenta o caso.
As participações da família Toffoli no Tayayá mudam de mãos em 2024 e 2025. Em dezembro de 2024, começam as negociações para a venda das cotas de irmãos e primo do ministro. Em setembro de 2025, as transferências se concluem, e o controle passa ao advogado goiano Paulo Humberto Costa, que advoga para a JBS, grupo dos irmãos Joesley e Wesley Batista. A operação encerra formalmente o vínculo societário da família com o resort, mas não dissipa o debate sobre conflito de interesse.
A investigação do caso Master também avança em outra frente de constrangimento. Depois de assumir a relatoria, Toffoli viaja à final da Copa Libertadores, no Peru, a bordo do mesmo jatinho em que está um dos advogados ligados à defesa do banco. O episódio alimenta questionamentos sobre proximidade entre magistrado e partes interessadas num processo sob sigilo imposto pelo próprio ministro à época.
Disputa por provas, críticas institucionais e confiança no STF
A partir de janeiro de 2026, a condução do inquérito pelo Supremo amplia o desgaste interno e externo. Em 14 de janeiro, Toffoli determina que todos os bens, documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos pela Polícia Federal na operação sobre o Master sejam lacrados e enviados diretamente à sede do STF. A decisão rompe a prática usual, em que o material fica sob guarda da PF, e aciona um choque institucional raro.
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, envia pedido formal para que o ministro recue. A PGR também se move e solicita que as provas sejam remetidas ao órgão. Toffoli revê sua posição, acolhe o pedido da Procuradoria e, em seguida, autoriza o acesso da PF ao material. Ao mesmo tempo, determina pessoalmente quais peritos da corporação acompanharão a perícia, o que alimenta a percepção de interferência num procedimento técnico.
As sucessivas idas e vindas reforçam a impressão de que o caso Master escapa do radar estritamente jurídico e transborda para uma crise política dentro do próprio Supremo. Ministros veem a relatoria como foco de desgaste da instituição, já pressionada por críticas do Congresso e de setores da sociedade. A proximidade geográfica e econômica entre Ribeirão Claro, o resort e os atores investigados acrescenta um componente simbólico incômodo: o de que decisões de alcance nacional se cruzam com interesses privados em uma pequena cidade do interior.
A CNN procura o gabinete de Dias Toffoli para comentar o título de cidadão honorário, a relação com o Tayayá Resort e os desdobramentos do caso Master, mas não obtém resposta até a publicação deste texto.
Pressão por transparência e próximos capítulos
O acúmulo de episódios alimenta pedidos formais para que Toffoli deixe a relatoria das investigações ligadas ao Banco Master. Senadores acionam a Procuradoria-Geral da República e falam em “possível conflito de interesse” do ministro. Internamente, a avaliação é que qualquer mudança na condução do inquérito terá impacto direto na imagem de independência do Supremo e na confiança da opinião pública.
Toffoli afirma a interlocutores que não pretende se declarar impedido nem suspeito, e descarta abrir mão do caso. A manutenção da relatoria mantém em aberto perguntas centrais: até que ponto vínculos familiares e políticos podem permanecer no campo privado quando decisões sobre bilhões de reais e grandes grupos financeiros passam pelo mesmo gabinete? Em Ribeirão Claro, a placa que celebra o cidadão honorário permanece na parede. Em Brasília, a forma como o Supremo responderá a esse questionamento pode definir o tamanho da cicatriz institucional que o caso Master deixará.
