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Ataque de Malafaia a Paulo Figueiredo expõe racha na direita

O pastor Silas Malafaia e o blogueiro Paulo Figueiredo travam, nesta quinta-feira (22), uma disputa pública nas redes sociais. O embate começa após o influenciador bolsonarista resgatar o apoio declarado de Malafaia ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, há mais de duas décadas. A troca de ataques reabre fissuras na direita e mobiliza seguidores em torno de acusações de oportunismo político e patrulha ideológica.

Crítica ao passado vira munição no presente

O conflito ganha força no X, antigo Twitter, a partir de um post publicado por Paulo Figueiredo na noite de quarta-feira (21). Ele comenta a atuação recente de Malafaia na cena política e ironiza o alinhamento do pastor com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Na mensagem, Figueiredo afirma: “Triste ver o pastor neste estado. Brigando com todas as pesquisas porque apostou no cavalo errado. Ainda assim, tenho certeza de que ele quer o melhor para o Brasil. Até que para quem já apoiou entusiasticamente Lula, apoiar Tarcísio é uma evolução”.

O registro do passado funciona como gatilho. Malafaia reage cerca de 24 horas depois, já na manhã desta quinta-feira (22), em um texto longo dirigido nominalmente ao blogueiro. “Triste é ver você usar expediente para me denegrir usando fato de 24 anos atrás”, escreve. O pastor tenta contextualizar o apoio ao petista no início dos anos 2000 e sustenta que, naquele momento, “não existia nenhuma acusação de corrupção” contra Lula e não havia, segundo ele, candidatos viáveis da direita ou centro-direita.

A resposta extrapola a discussão sobre memória eleitoral. Malafaia acusa Figueiredo de repetir o que, na visão dele, seria prática típica de adversários ideológicos. “Você está usando o mesmo expediente da esquerda, o controle do pensamento. Quem discorda é banido ou ridicularizado”, afirma, em tom de confronto direto. O texto mistura defesa de sua trajetória política, desqualificação pessoal do crítico e reafirmação de sua lealdade ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O líder religioso ainda tenta inverter o foco do debate e mira o estilo de atuação do blogueiro, que vive nos Estados Unidos. “Fácil é ficar aí nos EUA atacando todo mundo”, escreve, numa alfinetada que sugere distanciamento físico e político de Figueiredo em relação ao cotidiano brasileiro. O ataque dá combustível imediato às bases digitais de ambos, que repercutem trechos das mensagens e criam novas leituras para a disputa.

Liberdade de expressão, lealdades políticas e racha interno

Ao longo da publicação, Malafaia procura se apresentar como alvo de perseguição e defensor da liberdade de opinião. Ele menciona o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e diz: “Mesmo Alexandre de Moraes mandando me investigar, voltei para o Brasil e não me escondi no exterior”. A referência resgata investigações abertas a partir de 2021 sobre atos antidemocráticos e reforça a imagem de resistência que o pastor tenta consolidar desde os protestos de 7 de Setembro de 2021 e as manifestações em 2022.

Em outro trecho, Malafaia declara que coordena manifestações a pedido do ex-presidente e afirma: “Nem você nem ninguém vai me calar”. A frase funciona como mensagem direta ao próprio Figueiredo e, ao mesmo tempo, como recado à militância bolsonarista que acompanha o embate. O texto termina com um ataque pessoal: “Você não passa de um frouxo falastrão que não suporta as opiniões contrárias”. A escalada verbal deixa pouca margem para recomposição imediata entre os dois.

O blogueiro decide não recuar. Em resposta publicada também nesta quinta-feira, Figueiredo ironiza o tom inflamado de Malafaia. “Ui ui ui ficou doído assim com a primeira verdade que ouviu? Galvão, sentiu! Vá acostumando, esse piti afetado tem zero efeito em mim”, escreve, ecoando bordões esportivos e linguagem típica de comentários nas redes. Ele afirma ainda que a opinião do pastor é “irrelevante” e reforça a crítica original: “É verdade: você apoiou o Lula e outros… Tarcísio é lucro”.

O novo ataque desloca a briga do plano individual para um campo mais amplo, em que se discutem coerência, lealdade e estratégia eleitoral na direita. A lembrança do apoio de Malafaia a Lula, há cerca de 24 anos, serve de senha para questionar mudanças de rota, alianças pontuais e reposicionamentos entre grupos conservadores desde 2002. Ao mesmo tempo, a defesa enfática do pastor, que se ancora na ausência de denúncias de corrupção à época e na falta de alternativas de direita, expõe como lideranças religiosas e políticas reajustam narrativas conforme o cenário eleitoral.

A troca de mensagens acontece em um ambiente digital marcado por forte polarização. Segundo dados de institutos de monitoramento de redes, embates entre influenciadores de direita e de esquerda costumam gerar picos de engajamento superiores a 200% em comparação a dias sem conflitos públicos. Quando o choque envolve figuras do mesmo campo ideológico, como agora, o efeito é ainda mais sensível, porque força seguidores a tomar partido dentro de um mesmo espectro.

Redes sociais como palco e termômetro político

O embate entre Malafaia e Figueiredo ajuda a medir o grau de tensão interna entre grupos que se alinham, em maior ou menor grau, ao bolsonarismo. O pastor mantém relação próxima com Jair Bolsonaro desde pelo menos 2018, quando se torna um dos principais rostos religiosos da campanha presidencial. Figueiredo, herdeiro de uma família tradicional da política brasileira e comentarista de direita, constrói sua influência sobretudo em plataformas digitais, com público fiel entre jovens conservadores.

A divergência pública entre os dois ocorre em um momento em que a direita discute caminhos para 2026, com nomes como Tarcísio de Freitas e governadoras e senadores tentando se posicionar como herdeiros ou alternativas a Bolsonaro. Ao lembrar que “até para quem já apoiou entusiasticamente Lula, apoiar Tarcísio é uma evolução”, Figueiredo sugere que o apoio atual de Malafaia ao governador paulista seria uma espécie de correção de rota, mas não deixa de apontar o passado como marca de incoerência.

Na outra ponta, Malafaia tenta transformar o episódio em afirmação de autonomia. Ao acusar o blogueiro de praticar “controle do pensamento” e de banir quem discorda, ele associa o crítico às mesmas práticas que costuma atribuir à esquerda. A expressão “liberdade de pensamento tem que ser a nossa marca! É isso que Bolsonaro apoia”, também publicada por ele, sinaliza que o pastor quer manter o lugar de porta-voz de um bolsonarismo que se vê censurado por instituições e adversários políticos.

O impacto imediato se mede na mobilização das bases. Em poucas horas, as publicações somam milhares de curtidas, comentários e compartilhamentos, com seguidores resgatando vídeos antigos, falas de campanha e fotos de eventos de 2002, 2018 e 2022. A reinterpretação constante desses registros ajuda a reescrever trajetórias e a reforçar identidades políticas, num ambiente em que o arquivo digital nunca desaparece e pode ser acionado a qualquer momento como arma retórica.

O que a briga revela sobre o futuro da direita

A disputa entre Malafaia e Figueiredo não se limita a um desentendimento pessoal. O episódio expõe o desafio da direita em administrar divergências internas enquanto tenta manter um discurso unificado contra o governo Lula. Ao colocar na mesa um apoio de mais de 20 anos atrás, o blogueiro mostra que a cobrança por coerência passa a ser usada também entre aliados, não apenas entre rivais históricos.

Para figuras religiosas com projeção nacional, como Malafaia, o desgaste público tem custo. Seus discursos alcançam milhões de pessoas em cultos presenciais e transmissões online, e qualquer rachadura na imagem de firmeza pode afetar a capacidade de mobilizar fiéis em futuras campanhas. No campo digital, Figueiredo também assume risco: ao desafiar um nome consolidado entre evangélicos, ele testa o limite de sua influência e mede até onde sua base aceita confrontos internos em nome de uma suposta “purificação” ideológica.

Até o início da noite desta quinta-feira, Malafaia não publica novas respostas à sequência de mensagens de Figueiredo. O silêncio parcial, após o texto inflamado, pode indicar cálculo político sobre o tamanho da crise ou simples espera para medir a reação do público. Assessores e aliados evitam comentar publicamente, o que reforça a leitura de que o caso ainda está em aberto.

A tendência, nas próximas semanas, é que novos embates digitais definam quem lidera a narrativa dentro do campo bolsonarista, especialmente em torno de temas como liberdade de expressão, relação com o Judiciário e escolha de candidatos para 2026. A briga entre pastor e blogueiro, alimentada por tweets de poucas linhas, antecipa uma disputa maior: quem vai ditar os limites da lealdade e da coerência na direita brasileira.

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