Petistas acionam PRF para suspender caminhada de Nikolas na BR-040
Os deputados federais Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG) pedem à Polícia Rodoviária Federal, nesta semana, a suspensão da “Caminhada pela Justiça e Liberdade”, liderada por Nikolas Ferreira (PL-MG), na BR-040. O movimento começou em 19 de janeiro, entre Paracatu (MG) e Brasília, e está previsto para terminar em 25 de janeiro, com ato na Praça do Cruzeiro.
Disputa entre segurança viária e direito de protesto
O pedido formal foi protocolado na quarta-feira, 21 de janeiro, e mira diretamente a forma como a manifestação avança pela rodovia federal. Os petistas afirmam que a caminhada ocupa acostamentos, invade faixas de rolamento e conta até com pousos de helicópteros nas margens da estrada, em um trecho de intenso fluxo entre o noroeste de Minas e o Distrito Federal.
Para Lindbergh e Correia, a cena que se repete a cada quilômetro não é um simples ato político, mas uma “situação grave, inaceitável e irresponsável de risco à vida e à integridade física das pessoas”. Eles sustentam que não houve comunicação prévia adequada às autoridades de trânsito e aviação, como prevê o Código de Trânsito Brasileiro e a regulamentação do setor aéreo.
O protesto liderado por Nikolas sai de Paracatu, no interior mineiro, e segue pela BR-040 até Brasília, em um percurso de cerca de 220 quilômetros em rodovia federal. A previsão é de que a caminhada culmine em uma manifestação neste domingo, 25 de janeiro, às 12h, na Praça do Cruzeiro, área tradicional de atos políticos na capital.
Os parlamentares do PT pedem que a PRF suspenda, restrinja ou redirecione o trajeto, para fora da rodovia, até que não haja mais risco apontado pelos agentes de segurança. O documento requer ainda a extração de cópias para Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República, Agência Nacional de Aviação Civil, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e Agência Nacional de Transportes Terrestres, numa tentativa de envolver todos os órgãos que regulam o uso de rodovias e espaço aéreo.
Narrativas em choque às vésperas do ato em Brasília
Lindbergh Farias afirma que o objetivo não é censurar o conteúdo político da manifestação, mas conter o que descreve como um “perigo anunciado” na BR-040. “Eles podem se manifestar onde quiserem, mas não podem colocar em risco a vida das pessoas. Façam essa mobilização onde quiserem, mas não desse jeito, sem autorização e colocando vidas em perigo”, diz o deputado.
No pedido, ele e Rogério Correia argumentam que, à medida que novos participantes aderem ao grupo ao longo da estrada, cresce a chance de acidentes envolvendo motoristas, passageiros, moradores das margens da rodovia e os próprios manifestantes. “Alertar não substitui agir”, registram, ao defender uma intervenção imediata da PRF.
A assessoria de Nikolas Ferreira reage com ironia e tenta enquadrar a ação como motivada por disputa política. Em nota enviada ao Correio, o deputado lembra que, na terça-feira, 20, Lindbergh havia chamado o ato de “marcha esvaziada”. “Agora, subitamente, virou caso de urgência nacional que mereceria intervenção da PRF”, diz o texto.
Nikolas insiste que o protesto cumpre a lei e não oferece risco relevante. “Reitero aqui mais uma vez: a caminhada é constitucional, legal e absolutamente pacífica. Foi comunicada às autoridades desde o primeiro dia e não tem, nem terá, qualquer tolerância com vandalismo, depredação ou desordem”, afirma. Para ele, tentar paralisar o ato “por divergência política” representa “afronta à democracia e violação direta da Constituição”.
O deputado do PL apresenta a mobilização como uma reação às prisões ligadas aos atos de 8 de janeiro de 2023 e às investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso na Papuda. “A gente está lutando aqui pela liberdade dos presos do dia 8, pela liberdade também de Jair Bolsonaro e outras figuras, como Felipe Jair Martins e o coronel Naime. Mas, acima de tudo, para acordar o povo brasileiro, que está cansado de tantos escândalos”, declara.
Ao vincular a caminhada a uma pauta de “justiça e liberdade”, Nikolas conversa diretamente com a base bolsonarista e tenta transformar o trajeto pela BR-040 em símbolo de resistência. Do outro lado, petistas procuram enquadrar o evento como um caso de segurança pública, deslocando o debate do campo ideológico para o cumprimento das normas de trânsito e da aviação.
Pressão sobre a PRF e debate sobre limites em rodovias
O desfecho do pedido coloca a PRF no centro de uma disputa que combina trânsito, política e direito de manifestação. A corporação precisa decidir, em poucos dias, se atua para restringir a caminhada, orienta um redirecionamento ou mantém o trajeto como está, assumindo os riscos apontados pelos deputados. A opção terá efeito direto sobre o ato previsto para domingo, em Brasília, e sobre o fluxo de veículos na BR-040 ao longo da semana.
Os petistas insistem que não se trata de cercear opinião, mas de fixar um limite para atos em rodovias de tráfego intenso. Argumentam que, enquanto atividades “sensacionalistas” ocupam a pauta, governo federal e Congresso discutem temas como isenção do Imposto de Renda, fim da escala 6×1 e direitos para trabalhadores de aplicativos. A mensagem tenta contrastar a marcha com o que chamam de “pautas reais do povo brasileiro”.
Se a PRF acolher o pedido, a decisão poderá servir de referência para futuras manifestações em estradas federais, de qualquer espectro político. Lideranças de movimentos sociais, sindicatos e grupos de direita acompanham o impasse com atenção, já que protestos em rodovias se tornaram ferramenta recorrente de pressão desde as grandes mobilizações de 2013 e os bloqueios de caminhoneiros em 2018 e 2022.
Caso a corporação rejeite a solicitação e a caminhada siga integralmente pela BR-040, cresce a chance de judicialização, com ações no Ministério Público Federal ou no Supremo Tribunal Federal. A forma como o Estado lida com o episódio tende a influenciar discussões legislativas sobre regras específicas para atos em rodovias, conciliando segurança viária e liberdade de expressão.
Próximos passos e cenário político em Brasília
O ato final em Brasília, marcado para o meio-dia de domingo na Praça do Cruzeiro, deve medir o fôlego político de Nikolas Ferreira e do campo bolsonarista no início de 2026. A presença de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro e o tamanho do público serão usados, de ambos os lados, como termômetro da capacidade de mobilização desse grupo após as prisões e condenações ligadas a 8 de janeiro.
Independentemente da decisão imediata da PRF, a controvérsia já alimenta um novo capítulo do debate sobre até onde vai o direito de protestar quando a manifestação acontece em uma rodovia federal. A resposta, construída entre policiais, procuradores, juízes e parlamentares, tende a definir o mapa possível das próximas grandes marchas políticas pelo país.
