Enamed reprova 107 cursos de medicina e acende alerta no país
O Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) reprova 107 cursos de medicina em instituições brasileiras, em resultado divulgado nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026. O balanço expõe falhas graves na formação de novos médicos e pressiona o governo e as faculdades a reverem currículos, infraestrutura e critérios de ensino.
Avaliação inédita expõe fragilidade na formação médica
O Enamed avalia a qualidade dos cursos de medicina no país a partir de quatro eixos centrais: formação teórica, prática clínica, infraestrutura e qualificação do corpo docente. O desempenho dos estudantes em provas objetivas e práticas também pesa de forma decisiva. Na edição divulgada hoje, 107 cursos não alcançam o patamar mínimo exigido, o que acende um alerta sobre a expansão acelerada da graduação médica no Brasil na última década.
Os resultados chegam em um momento de pressão por mais médicos em todas as regiões, especialmente em áreas afastadas dos grandes centros. A combinação de alta demanda social e oferta de cursos com baixa qualidade cria, segundo especialistas, um cenário arriscado para a segurança dos pacientes e para a credibilidade do sistema de saúde. “Não adianta abrir vagas sem garantir formação sólida. Médico mal treinado também é um risco de saúde pública”, afirma um professor de clínica médica de uma universidade federal, que acompanha a discussão desde as primeiras propostas do exame.
Impacto direto em estudantes, pacientes e sistema de saúde
A reprovação de 107 cursos significa que milhares de estudantes hoje matriculados podem enfrentar um futuro incerto. A avaliação negativa não cancela automaticamente as graduações, mas tende a dificultar credenciamento, renovação de autorização e acesso a recursos públicos. Em alguns casos, pode levar à suspensão de novas vagas já a partir dos próximos processos seletivos, afetando vestibulares e programas como o Fies e o Prouni.
Para quem está na ponta do atendimento, o resultado funciona como um termômetro da qualidade dos futuros profissionais. Cursos mal avaliados costumam ter problemas recorrentes: laboratórios incompletos, bibliotecas desatualizadas, falta de preceptores qualificados nos estágios e pouca integração com a rede de saúde. “O paciente sente quando o serviço é feito por uma equipe que não teve boa formação. Isso aparece na demora para diagnosticar, na insegurança das condutas, no aumento de erros”, diz um gestor de hospital público de grande porte, que vê a avaliação como uma oportunidade de correção de rota.
Pressão por mudanças e próximos passos do governo
A divulgação do resultado do Enamed deve desencadear uma rodada de cobranças formais às instituições reprovadas. O Ministério da Educação e os órgãos reguladores da área de saúde passam a ter em mãos um mapa detalhado de fragilidades, que vai de carências básicas de infraestrutura à ausência de professores com dedicação integral. A tendência é que, nos próximos meses, faculdades sejam notificadas a apresentar planos de ajuste com prazos objetivos para corrigir as falhas, sob pena de sofrerem sanções.
Especialistas avaliam que os dados também podem orientar uma revisão mais ampla da política de abertura de cursos e vagas em medicina, que cresce desde os anos 2010 sem contrapartidas proporcionais em qualidade. A pressão de estudantes, conselhos profissionais e gestores locais deve aumentar, tanto sobre faculdades privadas quanto sobre universidades públicas que ficaram abaixo do padrão. O Enamed, que nasce como instrumento de diagnóstico, passa a ser cobrado como ferramenta de transformação. A resposta do governo, ao definir se endurece ou não as regras a partir deste resultado, vai indicar se a reprovação de 107 cursos marca apenas um retrato incômodo do presente ou o início de uma mudança estrutural na formação médica brasileira.
