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Alianza Lima afasta Trauco, Zambrano e Peña após denúncia de abuso

O Alianza Lima afasta, de forma imediata e por tempo indeterminado, Miguel Trauco, Carlos Zambrano e Sergio Peña após denúncia formal de abuso sexual feita por uma jovem de 22 anos. O caso ocorre durante a pré-temporada da Série Rio da Prata 2026, em janeiro, e acirra uma crise institucional no clube peruano.

Denúncia em meio à pré-temporada e crise no clube

A acusação atinge o coração esportivo do Alianza. Trauco, Zambrano e Peña são nomes frequentes na seleção peruana e pilares do time comandado por Pablo Guede. A denúncia, divulgada pelo canal argentino A24, transforma a preparação para 2026 em um problema policial e político, muito além do gramado.

O episódio tem origem em Montevidéu, no Uruguai, onde o clube disputa a Série Rio da Prata 2026. A jovem relata que janta com Zambrano, a quem já conhece, e aceita o convite para segui-lo até o hotel em que a delegação do Alianza está hospedada. No quarto, segundo o depoimento prestado à Justiça argentina, Trauco e Peña entram no ambiente e, a partir desse momento, ela afirma ser vítima de agressão sexual envolvendo os três jogadores.

A jovem diz que não procura ajuda imediata em Montevidéu. Conta que está em estado de choque e com medo de se expor em outro país. Decide voltar para a Argentina, onde vive, e só então busca atendimento médico e orientação jurídica especializada. A defesa da vítima sustenta que a demora na denúncia está ligada ao trauma e não reduz a gravidade dos fatos relatados.

O caso é formalizado em Buenos Aires, em juizado criminal, poucos dias após o episódio no Uruguai. A pedido dos investigadores, a jovem entrega as roupas usadas na noite em que, segundo ela, sofre a violência. Exames são realizados em dois hospitais públicos de referência, Muñiz e San Isidro, para registrar sinais físicos compatíveis com abuso sexual e preservar evidências biológicas.

Investigação internacional e impacto esportivo imediato

O processo corre na Justiça criminal argentina, que prepara pedidos de cooperação internacional às autoridades uruguaias. O objetivo é cruzar provas, colher depoimentos no local dos fatos e obter registros do hotel em Montevidéu, como imagens de câmeras de segurança, listas de hóspedes e deslocamento interno dos jogadores. A investigação ainda aguarda laudos periciais completos, que podem levar semanas.

A promotoria argentina trabalha com a hipótese de crime sexual praticado em grupo, tipificação que prevê penas mais altas em comparação a um ataque isolado. A Justiça uruguaia deve ser acionada para validar diligências no território onde o episódio teria ocorrido. Sem essa articulação, o caso corre o risco de ficar travado na fronteira burocrática entre os dois países.

No campo esportivo, o efeito é imediato. A diretoria do Alianza Lima anuncia o afastamento dos três atletas de todas as atividades do clube, sem prazo definido para revisão da medida. O trio não treina, não se concentra e não participa de amistosos ou compromissos oficiais.

A decisão impacta diretamente a montagem do elenco para a temporada. A Noche Blanquiazul 2026, tradicional evento de apresentação do time à torcida, perde três de suas principais figuras. O clube admite internamente que a ausência de jogadores de seleção afeta planos esportivos e comerciais, inclusive na negociação com patrocinadores e na venda de ingressos.

Dirigentes afirmam, em nota, que o Alianza colaborará com as autoridades e aguardará o avanço do processo antes de tomar qualquer decisão definitiva sobre os contratos. A postura é interpretada como tentativa de equilibrar pressão da opinião pública, direitos trabalhistas dos atletas e o princípio de presunção de inocência garantido em lei.

Pressão sobre imagem, patrocinadores e próximos passos

A repercussão ultrapassa rapidamente as fronteiras do Peru. Trauco, ex-Flamengo, tem histórico recente no futebol brasileiro e figura com frequência em convocações da seleção peruana. Zambrano e Peña seguem trajetória semelhante, com passagens por ligas europeias e papel central na equipe nacional. A denúncia de uma jovem de 22 anos, em contexto de pré-temporada internacional, toca em temas sensíveis como violência de gênero, responsabilidade de clubes e conduta de ídolos esportivos.

Especialistas em gestão esportiva ouvidos por veículos locais apontam risco real de desgaste com patrocinadores. Empresas associadas à camisa do Alianza avaliam não apenas o desfecho judicial, mas o custo reputacional de manter vínculos em meio a uma acusação de abuso sexual. O clube tenta controlar a narrativa, reforçando que os jogadores estão afastados e que não haverá interferência na investigação.

No vestiário, a crise muda o ambiente. O técnico Pablo Guede perde, de uma só vez, um lateral, um zagueiro e um meio-campista titulares em boa parte de 2025. A comissão técnica redesenha treinos, distribui liderança entre outros atletas e tenta blindar os mais jovens da exposição pública. A preparação para campeonatos nacionais e internacionais começa com lacunas técnicas e emocionais.

A Justiça argentina, por sua vez, deve aprofundar nas próximas semanas a coleta de depoimentos. Jogadores, funcionários do hotel e membros da delegação do Alianza podem ser chamados a prestar esclarecimentos presenciais ou por videoconferência. A cooperação com o Uruguai será determinante para confirmar horários, movimentações e versões oferecidas pelas partes.

O caso permanece em fase inicial, sem acusação formal recebida por um juiz contra os jogadores, mas já altera a rotina de um dos clubes mais tradicionais do continente. A resposta institucional do Alianza, a postura dos atletas, o apoio à vítima e a solidez da investigação vão definir se o episódio será um ponto de ruptura na relação entre futebol profissional e responsabilidade social ou mais um processo a desaparecer no noticiário esportivo.

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