Ciencia e Tecnologia

NASA desmente boato de “Terra sem gravidade” em agosto de 2026

A NASA desmente um boato viral que prevê a Terra sem gravidade em agosto de 2026 e afirma que o cenário é fisicamente impossível. A agência explica que a gravidade é uma força constante, ligada à massa do planeta, e não pode simplesmente “desligar”. A correção pública tenta conter a onda de desinformação que se espalha nas redes sociais.

Boato viral expõe nova onda de desinformação científica

O boato começa a ganhar força em 2025 em grupos de mensagens e vídeos curtos, com supostas “previsões astronômicas” para 12 de agosto de 2026. Em poucas semanas, versões diferentes da mesma história circulam em português, inglês e espanhol, sempre com a mesma promessa: por alguns segundos, a gravidade da Terra desapareceria e todos flutuariam. A história vem acompanhada de imagens editadas, áudios alarmistas e supostas citações de cientistas que não existem.

O volume de buscas em plataformas como Google e YouTube cresce à medida que o boato se espalha. Termos como “Terra sem gravidade 2026” e “dia que todo mundo vai flutuar” aparecem entre os mais pesquisados em alguns países, segundo monitoramentos internos de empresas de tecnologia citados por especialistas em desinformação. A pressão sobre órgãos oficiais aumenta, com escolas, pais e até repartições públicas enviando dúvidas a observatórios e universidades.

Diante da escalada, a NASA decide publicar uma explicação detalhada, em linguagem simples, sobre por que a gravidade não pode desaparecer em um dia específico. Em comunicado, cientistas da agência lembram que a gravidade é uma consequência direta da massa da Terra, estimada em cerca de 5,97 sextilhões de toneladas. “Enquanto a Terra existir com essa massa, sua gravidade permanece. Não há mecanismo físico conhecido que permita que ela simplesmente pare por alguns minutos”, explica um trecho da nota.

A agência também rebate um argumento recorrente nas mensagens virais, que citam um suposto “alinhamento raro” entre Terra, Júpiter e outros planetas em agosto de 2026. “Nenhum alinhamento planetário previsto para as próximas décadas é capaz de anular a gravidade da Terra. Mesmo quando vários planetas se alinham, o efeito gravitacional adicional sobre nosso planeta é minúsculo quando comparado à gravidade da própria Terra”, afirma a NASA.

O que a física diz sobre a gravidade da Terra

Na prática, a gravidade é a força que mantém tudo preso ao solo, da água dos oceanos a prédios, aviões e satélites em órbita. Ela vale 24 horas por dia, 7 dias por semana, e sua intensidade na superfície é de cerca de 9,8 metros por segundo ao quadrado. O valor varia levemente conforme a altitude e a localização, mas nunca deixa de existir. Para que a gravidade sumisse de forma repentina, seria necessário que a massa da Terra desaparecesse ou fosse afastada de nós de modo abrupto, algo incompatível com as leis conhecidas da física.

Pesquisadores lembram que, mesmo em ambientes que parecem sem gravidade, como a Estação Espacial Internacional, a força continua atuando. Os astronautas flutuam porque estão em queda livre constante ao redor do planeta, a cerca de 400 quilômetros de altitude, não porque a gravidade acaba. “Quando falamos em ‘gravidade zero’, estamos usando uma expressão de conveniência. Na realidade, a gravidade da Terra ainda é forte ali em cima, só que tudo está caindo junto”, explicam materiais educativos da própria agência.

A narrativa do boato distorce fenômenos reais e conhecidos. Em janeiro de 2015, circula nas redes uma história parecida, que cita uma suposta previsão de um famoso divulgador científico britânico, associada a um “alinhamento” entre Terra, Júpiter e Plutão. A alegação é desmentida à época, mas reaparece em novas versões, agora com a data deslocada para agosto de 2026 e com a marca da NASA usada indevidamente para dar credibilidade.

Especialistas em comunicação científica observam que essa reciclagem de mitos funciona porque mistura termos técnicos, datas específicas e nomes de instituições reais, como NASA e ESA. “A presença de uma data exata, como agosto de 2026, e de siglas conhecidas cria a impressão de que há um anúncio oficial, mesmo quando ele nunca existiu”, explica um físico brasileiro ouvido pela reportagem. Segundo ele, sem checagem, mensagens assim encontram terreno fértil em aplicativos com mais de 120 milhões de usuários ativos no país.

Impacto social e responsabilidade nas redes

O episódio preocupa pesquisadores de desinformação não pelo conteúdo em si, mas pelo alcance. Ainda que não haja dados oficiais consolidados, levantamentos preliminares citados por universidades americanas indicam que vídeos sobre o suposto “dia sem gravidade” ultrapassam dezenas de milhões de visualizações em diferentes plataformas. Em alguns casos, influenciadores usam o boato como gancho para vender cursos, palestras e produtos ligados a teorias apocalípticas.

No Brasil, professores relatam perguntas recorrentes em sala de aula desde o início de 2025. Escolas particulares e públicas passam a encaminhar dúvidas a planetários e observatórios. “Recebemos, em um único mês, mais de 200 mensagens de pais preocupados com o que ouviram dos filhos”, conta um diretor de museu de ciências. Ele afirma que, sem uma resposta direta de instituições de referência, o vácuo informativo tende a ser ocupado por versões fantasiosas.

A resposta da NASA, ainda que direcionada a um público global, também mira esse cenário. Ao reforçar que não existe previsão de qualquer evento em agosto de 2026 capaz de alterar a gravidade, a agência tenta frear discussões que alimentam medo coletivo. A nota dialoga com um movimento mais amplo, em que observatórios, universidades e sociedades científicas adotam estratégias de comunicação rápida em redes sociais para corrigir boatos em circulação.

Essa disputa de narrativas ocorre em um ambiente em que a confiança nas instituições científicas oscila. Pesquisas de opinião recentes em vários países mostram que uma parcela significativa da população, em torno de 30%, se informa principalmente por vídeos curtos e mensagens encaminhadas. Nesse contexto, a presença de órgãos oficiais em canais de grande alcance deixa de ser acessória e passa a ser uma frente central de combate à desinformação.

Próximos passos e o desafio permanente da checagem

A correção do boato não encerra o problema. A experiência de anos anteriores indica que a narrativa tende a se adaptar, com novas datas, novos alinhamentos planetários e novos supostos “alertas” de cientistas. Plataformas digitais testam sistemas automáticos para limitar a circulação de conteúdos comprovadamente falsos, mas a eficácia dessas ferramentas ainda é parcial, em especial em grupos fechados.

Instituições de pesquisa defendem uma combinação de respostas: comunicação mais ágil, educação científica desde os primeiros anos escolares e incentivo à checagem antes de compartilhar qualquer conteúdo alarmante. A própria NASA incentiva o público a buscar informações em seus canais oficiais e em sites de verificação independentes. Para milhões de pessoas conectadas, a promessa de um “dia sem gravidade” talvez pareça inofensiva. O episódio, porém, expõe uma questão maior, que seguirá em debate muito depois de agosto de 2026: quem consegue, de fato, manter os pés do debate público firmemente presos ao chão da realidade?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *