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EUA oficializam saída da OMS e abrem crise na governança da saúde global

Os Estados Unidos oficializam nesta quinta-feira, 22 de janeiro de 2026, a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS). A decisão rompe uma das principais alianças da governança sanitária global e abre uma disputa política e financeira em meio a débitos pendentes com a entidade.

Saída em meio a dívidas e desconfiança

O anúncio confirma semanas de tensão entre Washington e a direção da OMS. A retirada passa a valer ainda nesta semana, mesmo com a possibilidade de a organização não reconhecer formalmente o desligamento por causa de contribuições em atraso. A OMS mantém em sigilo o valor exato do passivo, mas diplomatas falam em centenas de milhões de dólares não quitados em contribuições obrigatórias e voluntárias.

A decisão isola a principal potência econômica e científica do planeta de um sistema criado justamente para coordenar respostas a surtos, pandemias e emergências sanitárias. Especialistas ouvidos por organizações independentes alertam para um vácuo de liderança. “A saída dos EUA enfraquece a capacidade de o mundo reagir rápido a novas ameaças”, afirma um ex-diretor de um centro de vigilância global, em avaliação divulgada por um think tank europeu.

Risco para vigilância e resposta a pandemias

A ruptura ocorre menos de uma década após a pandemia de covid-19 expor a dependência de mecanismos multilaterais para compartilhamento de dados, vacinas e insumos. Os EUA são historicamente um dos principais financiadores da OMS. Em anos anteriores, chegaram a responder por até 15% do orçamento regular e por mais de US$ 400 milhões anuais em contribuições totais, somando cotas e doações vinculadas a programas específicos.

Sem esses recursos, a agência pode ser obrigada a rever programas de vigilância de doenças respiratórias, campanhas de vacinação em países de baixa renda e projetos de monitoramento de surtos em áreas de conflito. Técnicos temem atrasos na detecção de novas variantes de vírus e falhas na coordenação de respostas rápidas, sobretudo em regiões com sistemas de saúde fragilizados. “Quando um país desse porte se afasta, os sensores do sistema global perdem alcance”, resume um consultor ligado a organismos multilaterais.

A saída também afeta a posição dos Estados Unidos nas negociações de regras globais para futuras pandemias. Nos últimos dois anos, governos discutem em Genebra um novo acordo de prevenção e resposta a crises sanitárias, com metas de tempo para compartilhamento de informações, acesso a vacinas e mecanismos de financiamento emergencial. Com o afastamento, Washington tende a perder voz nessas mesas, enquanto União Europeia, China e outros blocos tentam ocupar o espaço deixado.

Efeito dominó e disputa de influência

Governos e especialistas avaliam o potencial efeito dominó da decisão. Países que já criticam a OMS por suposta politização ou ineficiência podem usar o gesto americano como argumento para reduzir contribuições ou bloquear novas iniciativas. A organização projeta um orçamento de médio prazo na casa de US$ 12 bilhões até 2028. Um recuo de grandes doadores força cortes ou maior dependência de aportes privados e de fundações, o que acende novo debate sobre autonomia técnica.

Diplomatas em Genebra e em Nova York veem na saída um capítulo a mais da disputa por influência em organismos multilaterais. A expectativa é de que China, Índia e países do Golfo avancem sobre espaços antes ocupados por representantes americanos em comissões técnicas, conselhos e grupos de trabalho. Essa mudança pode redefinir prioridades de financiamento, do combate à tuberculose em regiões pobres ao desenho de acordos sobre propriedade intelectual de medicamentos inovadores.

Internamente, a decisão tende a reorientar a política de saúde externa dos EUA. Sem o canal direto da OMS, o país deve apostar em acordos bilaterais e coalizões ad hoc, como consórcios regionais para vacinas ou pactos específicos para a vigilância de patógenos de alto risco. Especialistas alertam para o risco de duplicação de esforços e de lacunas em áreas que dependem de coordenação ampla, como padronização de dados e alertas internacionais.

O que pode acontecer a partir de agora

Apesar da formalização, a saída não encerra a relação entre Estados Unidos e OMS. A entidade pode manter programas em solo americano, como centros colaboradores e projetos de pesquisa, desde que financiados de forma específica. A questão central recai sobre a governança das emergências globais. Sem a presença plena de Washington, cada alerta de risco elevado, cada recomendação de restrição de viagens e cada plano de distribuição de vacinas passa a ser também um teste político.

Governos aliados acompanham o movimento com cautela. Alguns avaliam a possibilidade de aumentar temporariamente suas contribuições para evitar um rombo imediato, mas exigem em troca mais transparência e reformas internas. A agenda de negociações dos próximos meses inclui a definição do orçamento para 2027 e 2028 e a conclusão do novo tratado de pandemias, que dependerá da disposição dos países em preservar um mínimo de coordenação comum. A saída dos Estados Unidos reforça uma pergunta que paira sobre a comunidade internacional desde a covid-19: em um mundo mais fragmentado, quem lidera a resposta à próxima crise sanitária global?

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