Mundo

EUA e Kushner lançam projeto de ‘Nova Gaza’ com torres de luxo em 3 anos

O governo dos Estados Unidos apresenta nesta quinta-feira (22), em Davos, o projeto “Nova Gaza”, um plano de reconstrução acelerada da Faixa em três anos. A proposta, liderada por Jarred Kushner e respaldada por Donald Trump, prevê torres de luxo à beira-mar, anistia a combatentes e um programa de “desradicalização” dos palestinos.

PowerPoint de torres de luxo sobre escombros de guerra

No centro de um fórum reservado a grandes investidores, em Davos, assessores americanos projetam na tela a imagem de uma faixa costeira redesenhada por prédios de vidro e aço. A chamada “Nova Gaza” surge em slides de PowerPoint onde, até poucos meses atrás, bombas atingem dois milhões de pessoas espremidas em um território destruído por sucessivos ataques israelenses.

Trump volta a falar do enclave como oportunidade imobiliária. “É um grande local”, afirma, destacando a vista para o Mediterrâneo. “Veja essa propriedade no mar. Tudo começa com a localização. Poucos lugares são assim”, completa, em tom de corretor experiente. Em seu primeiro mandato, o republicano já descreve Gaza como futura “Riviera”, enquanto crianças e mulheres morrem sob bombardeios, o que provoca indignação internacional.

Desta vez, o plano vem amarrado a um acordo político mais amplo. A iniciativa aparece como pilar de uma suposta agenda de paz e reconstrução, apresentada pelo governo americano como contrapartida a um cessar-fogo e a uma nova arquitetura de segurança para a região. Entre as cláusulas, negociadores falam em imunidade e anistia internacional para Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense alvo de denúncias de crimes contra a humanidade.

Coube a Jarred Kushner, genro e ex-assessor de Trump, detalhar o desenho da Nova Gaza. Em sua apresentação, ele fala em “virar a página” da guerra com um programa de “desradicalização” dos palestinos, seguido pela implantação de uma economia de livre mercado. O discurso agrada parte da plateia empresarial, mas acende alertas entre especialistas em direitos humanos e diplomatas que acompanham o dossiê Gaza há décadas.

Desradicalização, anistia e a promessa de um PIB de US$ 10 bi

O plano prevê a construção de 180 edifícios na zona costeira, conectados por novas estradas e zonas habitacionais definidas em mapas milimétricos. Segundo Kushner, serão 100 mil unidades residenciais, 180 centros religiosos e 200 escolas distribuídos em bairros planejados. O pacote inclui ainda a reserva de áreas para data centers e instalações tecnológicas, pensadas para atrair empresas globais de serviços digitais.

A imagem que circula entre investidores é simbólica: uma renderização gerada por inteligência artificial, com torres ultramodernas refletindo o mar azul. A estética contrasta com as imagens recentes de bairros inteiros pulverizados por bombas. Empresários presentes relatam surpresa com o grau de ambição do projeto e com a rapidez prometida para a entrega, em apenas três anos.

Os números projetados também chamam atenção. Kushner fala em um Produto Interno Bruto de US$ 10 bilhões em dez anos, com renda média anual de US$ 13 mil por habitante até 2035. A equipe estima a criação de 500 mil empregos e calcula que serão necessários ao menos US$ 30 bilhões em investimentos privados e públicos para transformar a faixa densamente destruída em uma “costa de turismo”.

No campo da segurança, o eixo central é o desarmamento gradual do Hamas, baseado em anistia para quem entregar armas. Segundo Trump, os palestinos “nascem com armas no colo”, frase que ele repete em Davos ao defender um programa de recolhimento voluntário, combinado com campanhas de reeducação política e social. A proposta não aborda, até aqui, o destino das lideranças do grupo nem os mecanismos de verificação internacional.

Diplomatas ouvidos nos corredores do fórum apontam o nó político: a reconstrução aparece condicionada a um redesenho completo do poder em Gaza, sem garantia clara de participação palestina nas decisões. Governos árabes, até agora discretos, acompanham com cautela a combinação de promessas econômicas bilionárias com exigências de controle militar e ideológico sobre a população local.

Turismo à beira-mar, custo político e dúvidas sobre o dia seguinte

Se sair do papel, a Nova Gaza muda radicalmente a paisagem urbana do enclave e a correlação de forças na região. Setores da construção civil, tecnologia, turismo e hotelaria enxergam um canteiro de obras multibilionário e uma vitrine de inovação para investidores globais. Bancos de investimento já simulam modelos de concessão, parcerias público-privadas e fundos específicos para financiar a nova costa.

Organizações humanitárias e parte da comunidade acadêmica veem outro cenário. Para esses grupos, o risco é transformar uma tragédia recente em ativo imobiliário, sem reparação adequada às vítimas e sem garantia de retorno seguro dos deslocados internos. Críticos lembram que reconstruir prédios é diferente de reconstruir confiança, e que os mesmos atores políticos que comandam o esforço econômico estão envolvidos nas decisões que levaram à destruição do território.

A previsão de imunidade e anistia para Netanyahu, atrelada ao pacote, amplia o custo político da proposta. Governos europeus avaliam de que forma aderir a um plano que promete estabilidade econômica, mas pode ser percebido como recompensa a violações graves de direitos humanos. Em capitais árabes, diplomatas discutem o equilíbrio entre aliviar a crise humanitária em Gaza e legitimar um arranjo visto por muitos como imposto de fora para dentro.

Nos próximos meses, a viabilidade do plano passa por três frentes: a consolidação de um cessar-fogo duradouro, a definição de quem controla o território reconstruído e a disposição real de investidores em assumir riscos políticos e de segurança. A forma como líderes palestinos serão incluídos — ou isolados — no desenho final indica se a Nova Gaza será um projeto de reconciliação ou apenas mais uma zona turística murada.

Enquanto Davos aplaude projeções em 3D, a pergunta que permanece é se os moradores de Gaza terão voz sobre o futuro erguido sobre seus escombros, ou se assistirão de fora à transformação de sua terra em vitrine de negócios.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *