Trump propõe ‘Domo de Ouro’ antimísseis na Groenlândia
Donald Trump anuncia em janeiro de 2026 a proposta de construir o chamado “Domo de Ouro” na Groenlândia, um gigantesco escudo antimísseis voltado à proteção dos Estados Unidos. O sistema, inspirado no Domo de Ferro de Israel, teria capacidade para interceptar mísseis balísticos, hipersônicos e drones antes que cruzem o Ártico.
Projeto nasce no palco do Fórum Econômico Mundial
Trump escolhe o Fórum Econômico Mundial, na Suíça, para detalhar a ambição. Diante de empresários, chefes de Estado e investidores, ele volta a defender a aquisição da Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca, como peça central de uma nova estratégia de defesa dos EUA.
“Tudo o que queremos da Dinamarca, para segurança nacional e internacional, e para manter à distância nossos potenciais inimigos, muito enérgicos e perigosos, é esta terra onde construiremos o maior Domo de Ouro já feito”, declara o americano. A frase sintetiza a lógica do plano: transformar o Ártico em anteparo físico e simbólico contra ataques de longo alcance.
Ao citar o Domo de Ferro de Israel, sistema criado para interceptar foguetes de curto alcance, Trump tenta associar o projeto a uma experiência testada em combate. A diferença, segundo ele, estaria na escala e no tipo de ameaça. O escudo ártico miraria não apenas projéteis convencionais, mas também mísseis balísticos intercontinentais, armas hipersônicas capazes de superar Mach 5 e enxames de drones, inclusive com carga nuclear.
A Groenlândia entra no discurso como vantagem geográfica. A posição no extremo norte permitiria, na visão do presidente, detectar e tentar derrubar mísseis ainda na fase inicial ou intermediária de voo, quando cruzam o círculo polar rumo ao território americano. A ideia reciclada de comprar a ilha, ventilada por Trump em 2019 e rejeitada pela Dinamarca, ganha nova roupagem militar.
Três camadas de defesa e conta bilionária
O desenho apresentado por assessores de Trump prevê três camadas de defesa. A primeira usaria radares de longo alcance e sensores no espaço para rastrear lançamentos quase em tempo real. A segunda combinaria interceptadores terrestres e no mar, com mísseis capazes de atingir alvos fora da atmosfera. A terceira funcionaria como rede de segurança final, com baterias posicionadas em diferentes pontos da Groenlândia para neutralizar o que escapasse das fases anteriores.
O plano exige tecnologia ainda experimental em vários campos, de motores de alta velocidade a inteligência artificial para discriminar alvos reais de iscas, além de integração com satélites militares. Especialistas em defesa ouvidos por veículos internacionais lembram que mesmo sistemas consolidados, como o próprio Domo de Ferro ou o escudo antimísseis norte-americano no Pacífico, operam com margens de erro relevantes e custos de manutenção altíssimos.
Shashank Joshi, editor de defesa da revista The Economist, afirma à BBC que o Domo de Ouro consumiria boa parte do orçamento anual de defesa dos EUA, hoje acima de US$ 800 bilhões. Ele calcula que a construção, testes e entrada em operação plena levariam bem mais que três anos, horizonte que extrapola o mandato de Trump. “É um projeto que engole recursos por uma década inteira e ainda assim pode não entregar a proteção prometida”, avalia.
O custo político também entra na conta. A instalação de um escudo desse porte no Ártico reconfigura interesses de potências como Rússia e China, que ampliam sua presença militar na região nos últimos anos. Países europeus da Otan, que contam com radares e bases aéreas na Islândia, Noruega e Reino Unido, observam o movimento com cautela, temendo uma nova corrida armamentista em torno de armas hipersônicas e sistemas de defesa avançados.
Impacto estratégico, dúvidas e disputa diplomática
A proposta de Trump chega em um momento em que mísseis hipersônicos entram no cálculo das grandes potências. Rússia e China testam esse tipo de arma desde meados da década passada, e o Pentágono admite que as defesas tradicionais têm dificuldade para acompanhar trajetórias imprevisíveis a velocidades extremas. Um escudo no Ártico, se de fato funcionar, antecipa a detecção de ameaças e reduz a janela de surpresa de um ataque.
Na prática, o Domo de Ouro fortaleceria a percepção de invulnerabilidade dos Estados Unidos, ao menos no discurso interno. Governadores de estados costeiros, alvos prioritários em simulações de guerra, tendem a apoiar qualquer medida que prometa maior proteção. Já aliados europeus se preocupam com o risco de os EUA priorizarem a blindagem do próprio território em detrimento de compromissos coletivos na Otan.
A Dinamarca, chave para qualquer negociação sobre a Groenlândia, enfrenta um dilema. Aceitar a expansão americana poderia render investimentos bilionários em infraestrutura e bases militares, mas também aumentaria a pressão de Moscou e Pequim. Rejeitar o projeto manteria o status atual, porém sob a acusação, alimentada por Trump, de recusar uma peça central da “segurança do mundo livre”.
No tabuleiro interno americano, a oposição democrata questiona a viabilidade técnica e o impacto fiscal da ideia. Parlamentares pedem estimativas detalhadas de custo, cronograma e risco de desvio de verbas de programas já em curso, como a modernização do arsenal nuclear e o desenvolvimento de armas hipersônicas próprias. Generais da ativa evitam confrontar publicamente o presidente, mas lembram, em conversas reservadas, que defesas absolutas contra mísseis continuam fora do alcance atual da ciência.
Próximos passos e cenário em aberto
Para sair do papel, o Domo de Ouro precisa de três frentes alinhadas: autorização do Congresso americano, negociação bem-sucedida com a Dinamarca e um plano técnico crível. O processo envolve, na prática, anos de estudos, licitações, testes de campo e acordos com aliados, além de debates em fóruns multilaterais sobre militarização do Ártico.
Enquanto a proposta circula em Washington e em capitais europeias, diplomatas tentam medir se o anúncio marca apenas um gesto de campanha ou o início de um reposicionamento duradouro dos EUA no Ártico. A resposta deve definir não só o futuro da Groenlândia, mas também o rumo da próxima geração de escudos antimísseis no mundo.
