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Zelensky acusa Europa de “modo Groenlândia” e dependência dos EUA

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky acusa líderes europeus de inação diante da guerra na Ucrânia e da disputa no Ártico, em discurso nesta quinta-feira (22), em Davos, na Suíça. Ele afirma que a Europa vive em “modo Groenlândia”, passiva e dependente dos Estados Unidos para garantir sua própria segurança.

Zelensky mira a paralisia europeia

Zelensky sobe ao palco do Fórum Econômico Mundial em um momento em que a guerra entra no seu terceiro ano, sem perspectiva clara de fim e com o apoio militar europeu sob questionamento. Diante de chefes de Estado, executivos e diplomatas, o presidente ucraniano diz que o continente assiste aos riscos crescerem sem reagir com a mesma urgência demonstrada por Washington.

Ele usa a metáfora da Groenlândia, alvo recente de disputas geopolíticas e de atenção repentina de capitais europeias, para criticar o que vê como um comportamento errático. “Todos voltaram sua atenção para a Groenlândia, e está claro que a maioria dos líderes simplesmente não sabe o que fazer a respeito”, afirma. “E parece que todos estão apenas esperando que os Estados Unidos se acalmem em relação a esse assunto, na esperança de que ele desapareça. Mas e se isso não acontecer, o que faremos então?”

O presidente diz que repete o mesmo recado a chancelerias e Ministérios da Defesa desde 2022, quando a Rússia invade a Ucrânia em escala total. “Já dissemos várias vezes aos nossos parceiros europeus: ajam agora… mas a Europa continua no ‘modo Groenlândia’ — talvez um dia alguém faça alguma coisa”, critica.

A fala ganha peso porque ocorre em Davos, vitrine global onde governos buscam sinalizar prioridades e testar limites políticos. Ao expor em público a frustração com aliados, Zelensky tenta forçar decisões que, segundo ele, não podem mais ser adiadas.

Dependência da Otan e disputa no Ártico

O presidente ucraniano direciona a crítica ao coração da arquitetura de segurança europeia. Em vez de apenas cobrar mais armas para Kiev, ele questiona a lógica que sustenta a própria Otan. “A Europa precisa de forças armadas unidas, forças que possam verdadeiramente defender a Europa hoje”, afirma.

Na visão de Zelensky, o continente se apoia quase exclusivamente na expectativa de reação dos EUA em caso de novo ataque russo. “A Europa confia apenas na crença de que, se o perigo surgir, a Otan agirá, mas ninguém realmente viu a aliança em ação”, diz. Ele provoca plateias e governos ao perguntar quem responderia se Vladimir Putin decidisse invadir a Lituânia, membro báltico da Otan, ou atacar a Polônia, peça central no flanco leste da aliança.

“Atualmente, a Otan existe graças à crença de que os Estados Unidos agirão, que não ficarão de braços cruzados e que ajudarão”, afirma. “Mas e se não acontecer? Acredite, essa pergunta está na mente de todos os líderes europeus.” A referência ecoa incertezas criadas por declarações recentes de Donald Trump, que condiciona a proteção americana a maior gasto militar europeu.

No mesmo discurso, Zelensky amplia o foco para o Ártico. Ele defende que países europeus estabeleçam bases militares em território dinamarquês, incluindo a Groenlândia, para conter a Rússia e a China. Diz que, sem presença consistente, “os líderes europeus correm o risco de não serem levados a sério” e ironiza promessas discretas de reforço militar. “Quarenta soldados não protegerão nada”, dispara.

O ucraniano relata que navios de guerra russos “navegam livremente ao redor da Groenlândia” e oferece a experiência acumulada em mais de 700 dias de conflito. “Eles podem afundar perto da Groenlândia, assim como fazem perto da Crimeia”, afirma, em alusão aos ataques bem-sucedidos da Ucrânia contra embarcações russas no mar Negro. Segundo ele, Kiev está pronta para atuar também no Atlântico Norte, “se nos pedissem, e se a Ucrânia fizesse parte da Otan – mas não fazemos”.

Justiça travada e pressão por autonomia europeia

A crítica à lentidão europeia não se limita à esfera militar. Zelensky volta a cobrar a criação de um tribunal especial para julgar o crime de agressão cometido pela Rússia, a ser ligado ao Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia. Três anos após o início da invasão em grande escala, ele afirma que pouco sai do papel.

“Ainda não houve nenhum progresso real no estabelecimento de um tribunal especial para a agressão russa contra a Ucrânia, contra o povo ucraniano”, diz. Ele lembra que dezenas de reuniões ocorrem desde 2022, sem definição concreta sobre sede, equipe ou cronograma. “Muitas reuniões já ocorreram, mas a Europa ainda não chegou sequer ao ponto de ter uma sede para o tribunal, com funcionários e trabalho efetivo a decorrer no local. O que está faltando, tempo ou vontade política?”, questiona.

A referência à justiça internacional produz contraste calculado com outros casos recentes. Zelensky menciona que Nicolás Maduro, da Venezuela, está preso e enfrenta julgamento, enquanto Vladimir Putin, alvo de mandado de prisão do TPI por deportação ilegal de crianças ucranianas, mantém liberdade de movimento em países que não reconhecem a corte. Para o presidente, esse desequilíbrio mina a credibilidade de instituições criadas após a Segunda Guerra para impedir novas agressões.

Aos aliados, ele envia um recado duplo. De um lado, agradece publicamente pelas garantias de segurança em negociação para o pós-guerra, costuradas com Alemanha, França, Reino Unido, Itália e outros parceiros. De outro, alerta que acordos futuros não substituem ações imediatas para travar o avanço russo hoje. Sem respostas militares mais robustas e sem uma estrutura judicial capaz de responsabilizar Moscou, avalia, a Europa corre o risco de normalizar uma guerra em seu território.

O que está em jogo para a Europa

As falas em Davos tendem a repercutir nas próximas cúpulas da Otan, previstas para o meio do ano, e nas discussões orçamentárias de 2026 em Bruxelas, Berlim e Paris. Parte dos países já destina 2% do PIB à defesa, meta formal da aliança, mas ainda há grandes economias abaixo desse patamar. A cobrança de Zelensky se soma à pressão americana para que a conta da segurança seja dividida de forma mais equilibrada.

Com o Ártico ganhando relevância militar e energética, a menção à Groenlândia deve reaquecer debates sobre novas bases e rotas navais. A Dinamarca, responsável pela defesa da ilha, vê crescer o interesse dos Estados Unidos, da Rússia e da China pela região, em um cenário de degelo acelerado e abertura de novas passagens marítimas. Nesse tabuleiro, a oferta de participação ucraniana adiciona um ator experiente em combate, mas ainda fora da Otan, ao centro de uma disputa sensível.

Na frente jurídica, a cobrança por um tribunal especial para a agressão russa tende a forçar capital europeia a sair da ambiguidade. Governos que temem escalada com Moscou precisam decidir se apoiam uma estrutura dedicada ou se mantêm a resposta concentrada no TPI e em sanções econômicas já em vigor desde 2014, quando a Rússia anexa a Crimeia.

Zelensky encerra a passagem por Davos tentando transformar frustração em agenda concreta. Ao questionar se a Europa tem “tempo” ou “vontade política”, ele empurra os líderes para uma escolha que, a seu ver, não comporta mais adiamentos. A resposta, militar e jurídica, definirá não só o futuro da Ucrânia, mas o grau de autonomia do próprio continente em um cenário de disputa aberta com Rússia e China.

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