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Trump diz que EUA terão acesso militar total à Groenlândia sem custo

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirma nesta quinta-feira (22) que os EUA terão acesso militar total à Groenlândia, sem pagar nada pelo uso do território. A declaração, feita em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial, reforça a estratégia de ampliar a presença americana em uma região-chave para defesa antimíssil e monitoramento do Ártico.

Groenlândia vira peça central do escudo militar americano

Trump volta a colocar a Groenlândia no centro da política de segurança dos EUA em entrevista à Fox Business. Ele diz que o país pode ter “quantas bases quiserem” no território semiautônomo dinamarquês e garante “todo o acesso militar necessário” à região. O presidente vincula diretamente o avanço à construção do chamado sistema de defesa Domo de Ouro, um escudo projetado para derrubar mísseis inimigos antes que alcancem solo americano ou de aliados.

Segundo Trump, a localização da ilha, entre a América do Norte e a Europa, é decisiva para vigiar rotas do Ártico e responder a ataques de longo alcance. “Se os caras maus começarem a atirar, nós derrubamos” os projéteis a partir dali, afirma. A fala ocorre em meio a negociações sensíveis com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre como gerir o controle e o custo desse reforço militar em território ligado à Dinamarca, membro da aliança.

Ataque à Otan e recado a aliados europeus

O presidente aproveita o palco de Davos para aumentar a pressão sobre parceiros europeus. Em tom de cobrança, volta a acusar a Otan de não corresponder ao esforço americano. “A aliança não tem feito nada por nós, enquanto fazemos tudo por eles”, diz, repetindo a crítica de que os aliados investem pouco em defesa. Trump afirma que os EUA “nunca realmente pediram nada”, mas exige uma relação de “mão dupla”, que hoje, segundo ele, favorece a Europa.

A retórica intensifica um impasse que se arrasta desde o início de seu governo, em 2017. Washington insiste para que os membros da Otan gastem ao menos 2% do Produto Interno Bruto em defesa, meta ainda não cumprida por parte dos 31 países da aliança. Ao vincular a Groenlândia e o Domo de Ouro a essa disputa, Trump sinaliza que a ampliação da presença militar no Ártico pode se tornar instrumento de pressão nas próximas rodadas de negociação com europeus.

Ameaças comerciais e ambiente de incerteza

No mesmo pacote de recados, Trump mira também o front econômico. Ele avisa que, se não conseguir na Suprema Corte a decisão que deseja sobre tarifas, pretende mudar de rota. “Se não conseguirmos a decisão da Suprema Corte que queremos sobre tarifas, vamos fazer outra coisa”, diz, sem detalhar. O presidente menciona ainda a possibilidade de distribuir dividendos se vencer a disputa judicial sobre as tarifas, o que poderia transformar uma vitória legal em capital político direto junto a eleitores e empresas.

Trump eleva o tom contra a Europa ao alertar que haverá “grande retaliação” se governos europeus começarem a vender títulos da dívida americana em volume expressivo. O recado expõe a delicada interdependência financeira entre os EUA e grandes credores, em um momento em que decisões sobre juros, inflação e comércio cruzam fronteiras em questão de horas. Ao mesmo tempo, o republicano se distancia de qualquer aceno intervencionista ao ser questionado sobre o governo comprar participação em empresas. “Estamos em um livre mercado”, afirma.

Disputa interna, orçamento e risco de novo shutdown

Na arena doméstica, Trump mistura promessas fiscais e alertas políticos. Ele diz que os EUA vão comprar mais equipamentos militares, sinalizando aumento de gastos de defesa em um orçamento já pressionado por déficits anuais elevados. “Vai haver um orçamento”, afirma, mas ressalta que “ainda é cedo” para cravar números ou cortes. A indefinição alimenta o risco de novo impasse no Congresso, onde republicanos e democratas travam disputas recorrentes sobre o teto de gastos.

Trump afirma sentir que os democratas podem provocar outro shutdown, a paralisação parcial do governo por falta de aprovação orçamentária. O país viveu episódios semelhantes em 2018 e 2019, com serviços públicos parados e atrasos de pagamento a servidores. O presidente diz negociar planos de saúde e declara que gostaria de ver “outro plano de reconciliação” no Congresso, referência a procedimentos legislativos que permitem aprovar projetos com maioria simples no Senado, sem necessidade de acordo amplo entre partidos.

Equilíbrio geopolítico em jogo no Ártico

A ênfase na Groenlândia e no Domo de Ouro amplia a disputa pelo Ártico, região onde Rússia, China, Europa e Estados Unidos testam seus limites estratégicos. Uma presença americana mais robusta, com novas bases ou reforço das instalações já existentes, tende a afetar cálculos militares em Moscou e Pequim e a gerar desconforto em Copenhague, que historicamente busca equilibrar laços com Washington e sensibilidade local na ilha.

A combinação de avanços militares, ameaças comerciais e tensão política interna projeta um cenário de incerteza para os próximos meses. Aliados europeus aguardam sinais mais claros sobre o formato do Domo de Ouro e o grau de envolvimento exigido. No Congresso americano, a disputa por orçamento e saúde pública deve testar novamente a capacidade de compromisso em ano de decisões cruciais. A pergunta que fica é se a estratégia de pressão em várias frentes vai consolidar a posição dos EUA no Ártico ou aprofundar fissuras com aliados em um momento de alta vulnerabilidade global.

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