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Título de cidadão honorário reacende debate sobre atuação de Toffoli

Dias Toffoli recebe em 2017 o título de cidadão honorário de Ribeirão Claro, no Paraná, enquanto a família mantém negócios ligados a um resort local. Anos depois, o empreendimento aparece conectado a um fundo associado ao caso Master, investigação sobre supostas fraudes financeiras sob relatoria do ministro no STF. As relações expõem dúvidas sobre transparência e conflito de interesses.

Homenagem em cidade turística volta ao centro do caso Master

O decreto legislativo de Ribeirão Claro que concede o título a Toffoli destaca a “constante atenção” do ministro ao município, com foco no “desenvolvimento e incremento turístico”. O texto também exalta a “atuação exemplar” do magistrado para manter a 23ª Zona Eleitoral da cidade. À época, em 2017, os irmãos do ministro figuram como sócios do Tayayá Resort, às margens da represa de Chavantes, um dos principais motores do turismo local.

A ligação entre a homenagem, o resort da família e o caso Master só se torna pública mais tarde, quando registros da Comissão de Valores Mobiliários mostram que o Arleen Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia aporta R$ 4,3 milhões para comprar ações do Tayayá. O fundo é administrado pela Reag, gestora citada na operação Carbono Oculto sob suspeita de participar de um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. A mesma Reag, segundo as investigações, investe R$ 16,3 milhões na DGEP Empreendimentos, empresa que já tem entre os sócios Mario Umberto Degani, primo de Toffoli.

Dados da Receita Federal apontam que o Tayayá Resort já tem no quadro societário a Maridt Participações S.A., pertencente a Igor Luiz Pires Toffoli e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro. Essas conexões familiares, somadas à presença de fundos associados ao caso Master, alimentam questionamentos de políticos, integrantes do sistema de Justiça e da própria Polícia Federal sobre a permanência de Toffoli na relatoria do processo.

O caso Master gira em torno de supostas fraudes financeiras atribuídas ao banco que leva o mesmo nome. O presidente da instituição, Daniel Vorcaro, é preso e se torna alvo central da investigação. Em nota, sua defesa nega qualquer envolvimento com fraudes, fundos ilícitos ou operações irregulares. “O banco nunca foi gestor, administrador ou cotista dos fundos citados”, diz o texto, que afirma ainda confiar que “o avanço das investigações restabelecerá a verdade dos fatos”. Procurada, a Reag informa que não irá comentar.

Voos oficiais, fórum com nome do pai e decisões sob pressão

Dois anos depois da homenagem, em 20 de dezembro de 2019, Toffoli volta a Ribeirão Claro para inaugurar o Fórum Eleitoral Luiz Toffoli, batizado em homenagem ao pai do ministro. Ele viaja em avião da Força Aérea Brasileira, que decola de Brasília rumo a Ourinhos, no interior paulista, a menos de 40 quilômetros da cidade paranaense. O retorno à capital ocorre em 23 de dezembro do mesmo ano.

A agenda oficial reforça o vínculo pessoal de Toffoli com a região, já destacado no decreto que o transforma em cidadão honorário. Também reaquece, em retrospecto, o debate sobre o quanto essas relações influenciam a condução do caso Master, que chega ao Supremo com o ministro como relator. Depois de assumir o processo, Toffoli viaja para a final da Libertadores, no Peru, no mesmo jatinho em que está um dos advogados de defesa ligados ao banco. O episódio soma mais um elemento à lista de suspeitas de proximidade excessiva.

As tensões crescem em 2026. Em 14 de janeiro, o ministro determina que todos os bens, documentos e aparelhos eletrônicos apreendidos pela Polícia Federal na operação sobre o Master sejam lacrados e enviados diretamente ao STF. A medida foge ao padrão, em que provas ficam sob guarda da PF durante a investigação. A ordem provoca forte reação interna. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, formaliza pedido para que Toffoli volte atrás.

O ministro recua parcial e gradualmente. Primeiro, acolhe solicitação da Procuradoria-Geral da República para que o material seja encaminhado ao órgão. Depois, autoriza o acesso da PF aos documentos, mas interfere na perícia ao designar, por iniciativa própria, peritos da corporação para acompanhar a análise do conteúdo apreendido. As idas e vindas, somadas ao sigilo imposto ao processo, ampliam o desgaste do Supremo em meio à disputa política em torno do caso Master.

Paralelamente, o Tayayá Resort muda de mãos. As negociações para saída da família Toffoli do empreendimento começam em dezembro de 2024. Em setembro de 2025, o advogado goiano Paulo Humberto Costa, ligado à JBS dos irmãos Joesley e Wesley Batista, conclui a compra das participações dos irmãos e do primo do ministro. A operação encerra formalmente a presença da família no controle do resort, mas não apaga o período em que as relações empresariais e decisões judiciais caminham em paralelo.

Conflito de interesse em debate e pressão sobre o Supremo

A revelação do aporte de R$ 4,3 milhões no Tayayá por um fundo administrado por empresa implicada no caso Master transforma a homenagem de 2017 em peça de um quebra-cabeça maior. A conexão entre Ribeirão Claro, o resort da família e um processo bilionário sob sigilo no STF reforça a percepção de fragilidade institucional, sobretudo entre críticos da Corte e parlamentares da oposição. Um senador chega a acionar a Procuradoria-Geral da República para que apure eventual conflito de interesse de Toffoli.

As sucessivas mudanças de orientação sobre o destino das provas, aliadas à viagem no jatinho com advogado ligado ao Master, alimentam suspeitas de parcialidade. A condução do caso também expõe fissuras internas entre o Supremo, a PGR e a Polícia Federal, que disputa espaço na gestão das investigações. Em meio ao ruído, ministros do STF se dividem entre a defesa pública da instituição e avaliações reservadas sobre o impacto do desgaste na imagem do tribunal.

A história do título de cidadão honorário ajuda a iluminar a zona cinzenta em que se misturam relações familiares, negócios privados e decisões de Estado. Em 2017, a homenagem parece restrita a uma cidade de pouco mais de 11 mil habitantes, interessada em fortalecer seu turismo e manter a estrutura eleitoral. Com o avanço do caso Master, o gesto local ganha alcance nacional e se torna símbolo de um debate mais amplo sobre ética e transparência no Judiciário.

Toffoli, por ora, se mantém firme na cadeira de relator e descarta a hipótese de se declarar impedido. O gabinete do ministro é procurado para comentar as ligações entre o resort, os fundos de investimento e sua atuação no caso Master, mas não responde até a publicação desta reportagem. Nas próximas etapas da investigação, a forma como o Supremo administra o processo e lida com as suspeitas internas e externas indicará se o episódio ficará restrito à crônica política de Brasília ou se abrirá uma nova frente de questionamentos sobre a própria arquitetura de poder da Corte.

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