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Polícia desmantela esquema de furto de petróleo em duto da Transpetro

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagra, em janeiro de 2026, uma operação contra um esquema de furto de petróleo da Transpetro em Guapimirim. O Ministério Público denuncia 14 suspeitos e pede 13 prisões. Sete pessoas já estão detidas.

Derivação clandestina em duto leva investigação à Fazenda Garcia

A ofensiva é o ponto mais visível de uma apuração que começa em junho de 2024, quando policiais chegam à Fazenda Garcia, em Guapimirim, para checar uma denúncia de movimentação suspeita perto de um duto da Transpetro. O imóvel integra o espólio do bicheiro Waldemir Paes Garcia, o Maninho, morto em 2004. O Ministério Público ressalta que nenhum herdeiro ou parente do contraventor figura entre os alvos.

No terreno, equipes encontram caminhões-tanque carregados com petróleo bruto e sinais claros de uma derivação clandestina instalada na tubulação. Técnicos da Transpetro são acionados e confirmam a origem do produto e a ligação irregular, apoiados por laudos periciais. A partir desse achado, o caso deixa de ser uma suspeita de furto pontual e passa a ser tratado como um esquema estruturado, com ramificações fora do estado.

As informações técnicas enviadas pela Transpetro ao Ministério Público apontam prejuízo superior a R$ 5,8 milhões apenas no episódio que dá origem à investigação. O valor inclui o volume de petróleo desviado, os custos de reparo do duto, a interrupção do fornecimento na região e o reforço emergencial da segurança na malha de oleodutos.

Rede empresarial sustenta desvio e lavagem do petróleo furtado

O aprofundamento das apurações leva o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) a um mapa complexo de empresas e rotas de transporte. Segundo o Ministério Público, ao menos 15 companhias, espalhadas por diferentes estados, servem de suporte à circulação do petróleo retirado do duto, à emissão de notas fiscais e à movimentação do dinheiro gerado pelo crime.

Promotores descrevem uma estrutura que mistura operadores de campo, responsáveis pela extração direta do duto e pelo carregamento dos caminhões, com intermediários ligados a transportadoras e firmas de fachada. Essas empresas estariam encarregadas de dar aparência legal à carga e fragmentar valores em múltiplas contas, numa tentativa de dificultar o rastreamento bancário. “Identificamos forte indício de uso dessas pessoas jurídicas para ocultação e dispersão dos recursos ilícitos”, afirma, em nota, o Ministério Público.

O Judiciário atende ao pedido do Gaeco e autoriza 13 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão. As ordens são cumpridas no estado do Rio, em municípios como Magé, Duque de Caxias e Macaé, e também em outros sete estados, entre eles São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Maranhão e Sergipe, com apoio das forças de segurança locais. Até o momento, sete suspeitos são presos, e celulares, computadores, documentos fiscais e registros de transporte de combustíveis são recolhidos para perícia.

Integrantes do grupo agora denunciado já respondem a procedimentos anteriores por ocorrências semelhantes. Esse histórico pesa na decisão do Ministério Público de pedir medidas mais duras neste momento, como prisões preventivas e bloqueio de bens. Para os investigadores, o padrão de atuação indica uma organização especializada em furtar combustíveis de dutos e reinserir o produto no mercado, por meio de uma rede de parceiros comerciais.

Infraestrutura crítica em risco e pressão por mais controle

O caso volta a expor a vulnerabilidade de dutos de combustível e petróleo, considerados infraestrutura crítica para o país. A derivação clandestina na Fazenda Garcia, instalada em um ponto de difícil acesso e longe da vista de moradores, revela o apelo desse tipo de crime para grupos que buscam ganhos rápidos com baixo custo operacional. Cada intervenção no duto, porém, aumenta o risco de vazamentos, explosões e contaminação de áreas rurais e mananciais.

Com o prejuízo estimado acima de R$ 5,8 milhões em um único episódio, a Transpetro é obrigada a rever rotinas de monitoramento, instalar sensores adicionais e intensificar rondas em trechos considerados vulneráveis. Esses gastos se somam às perdas diretas de produto e à necessidade de paralisar temporariamente o fluxo para inspeções. “Crimes contra dutos não afetam apenas a empresa, mas toda a cadeia de abastecimento”, destacam técnicos da estatal em relatórios enviados às autoridades.

Especialistas em segurança de energia ouvidos por integrantes da força-tarefa apontam dificuldade histórica em conciliar grandes extensões de dutos, muitas vezes em áreas isoladas, com vigilância constante. Em paralelo, o uso de empresas de fachada e notas frias amplia o impacto econômico. Ao entrar em circuitos formais, o petróleo furtado pode alimentar distribuidoras e indústrias que optam por pagar menos, inflando uma concorrência desleal com agentes regulares.

Investigações continuam e podem alcançar novos alvos

As diligências seguem em andamento, com foco na análise do material apreendido e no rastreamento de fluxos financeiros ligados às 15 empresas mapeadas. Peritos vasculham contratos, planilhas e trocas de mensagens para identificar o destino final do petróleo e a participação de eventuais compradores que sabiam da origem ilícita do produto. A possibilidade de novas denúncias e pedidos de prisão não é descartada por integrantes da investigação.

O Ministério Público indica que as provas reunidas até agora sustentam a denúncia de 14 pessoas e a descrição de uma rede com divisão de tarefas, hierarquia interna e atuação em diferentes estados. A investigação também tende a reabrir o debate sobre a proteção de dutos e oleodutos no país, hoje espalhados por milhares de quilômetros em áreas urbanas e rurais. As respostas que vierem das cortes e das novas etapas da apuração devem mostrar se o caso da Fazenda Garcia será tratado como um ponto fora da curva ou como sintoma de um problema mais amplo na segurança do setor de combustíveis.

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