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Em Davos, premiê do Canadá ataca hegemonia dos EUA e ordem liberal

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, rompe o tom diplomático e critica frontalmente, em Davos, a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Em discurso na manhã desta terça-feira, 21 de janeiro de 2026, ele acusa grandes potências de transformar a integração econômica global em arma geopolítica.

Choque em Davos e alvo direto na hegemonia americana

O auditório principal do Fórum Econômico Mundial, em Davos, fica em silêncio quando Carney abandona o vocabulário polido que costuma dominar o encontro anual. Diante de bilionários, chefes de Estado e executivos de grandes bancos, ele declara que a chamada ordem internacional baseada em regras, erguida depois de 1945 sob liderança dos Estados Unidos, deixa de funcionar.

“Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa”, afirma. “Os mais fortes se isentariam quando lhes convinha, as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e o direito internacional se aplicava com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.” A crítica, disparada de um líder de país do G7 e signatário do acordo de livre comércio norte-americano, o Nafta, pega a plateia de surpresa.

Carney fala menos de 24 horas depois de Donald Trump, provável candidato republicano à Casa Branca, publicar em sua rede social uma imagem de um mapa em que Canadá, Venezuela, Cuba e Groenlândia aparecem incorporados ao território dos EUA. A postagem circula pelo centro de convenções suíço desde a véspera, alimentando conversas discretas em salas reservadas. O discurso do canadense transforma esse incômodo em confronto aberto com a visão de mundo de Washington.

O premiê descreve a arquitetura criada após a Segunda Guerra Mundial, com organismos como ONU, FMI e Banco Mundial, como uma “ficção útil”. “Essa ficção era útil, e a hegemonia estadunidense, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para a resolução de disputas”, diz. Em seguida, sentencia: “Esse acordo não funciona mais. Deixe-me ser direto. Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição.”

Da promessa de integração ao uso da economia como arma

O tom do pronunciamento reflete a mudança de cenário dos últimos 20 anos. Crises financeiras globais desde 2008, a pandemia de Covid-19 a partir de 2020, guerras regionais e disputas energéticas expõem falhas do modelo que prometia ganhos mútuos com cadeias de produção espalhadas pelo planeta. Carney, ex-banqueiro central com carreira de duas décadas em Londres, Ottawa e Washington, agora admite publicamente o que muitos governos tratam apenas em documentos sigilosos.

“Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas de finanças, saúde, energia e geopolítica expôs os riscos da integração global extrema”, afirma. O alvo principal são as sanções econômicas e o controle de fluxos comerciais usados por potências que, em tese, defendem a abertura. “Mais recentemente, porém, as grandes potências começaram a usar a integração econômica como arma. Tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção, cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas”, aponta.

Ele fala para uma plateia acostumada a tratar a globalização como sinônimo de eficiência e lucro. Desde 1990, o comércio mundial salta de cerca de 39% para mais de 60% do PIB global, segundo dados do Banco Mundial. No mesmo período, os Estados Unidos lideram rodadas de liberalização tarifária, mas também ampliam o uso de sanções financeiras contra rivais e até aliados, atingindo mais de 30 países com algum tipo de restrição ampla ou setorial.

O Canadá, que tem mais de 70% de suas exportações direcionadas a Estados Unidos e México, é um dos símbolos dessa integração “extrema”. Carney admite o custo político dessa dependência. “Não se pode viver na mentira do benefício mútuo por meio da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação”, diz, num recado que também mira Washington. A crítica ecoa a formação de blocos alternativos, como os BRICS, que surgem em 2009 justamente para reduzir a vulnerabilidade ao sistema financeiro e comercial dominado pelos EUA e pela União Europeia.

O momento do discurso não é casual. Dias antes de subir ao palco em Davos, Carney passa três dias em Pequim em visita de Estado. Encontra o presidente Xi Jinping, discute projetos de infraestrutura, tecnologia verde e cooperação em minerais críticos, setor em que a China responde por mais de 60% do refino global de lítio e cobalto. A aproximação alimenta especulações de que Ottawa busca espaço próprio entre Washington e Pequim, redesenhando sua posição na disputa pela liderança tecnológica e energética.

Impacto político, mercados em alerta e disputa por novas regras

O ataque frontal à ordem liberal provoca reações imediatas nos corredores de Davos. Gestores de fundos ouvidos reservadamente mencionam risco de fragmentação de mercados e aumento de custos logísticos, caso grandes economias aprofundem a reconfiguração de cadeias de suprimentos por motivos políticos. Em 2025, apenas a realocação de fábricas de semicondutores e baterias da Ásia para a América do Norte mobiliza centenas de bilhões de dólares em subsídios e incentivos fiscais, com impacto direto em preços e empregos.

A fala de Carney mexe especialmente com setores dependentes de fluxo estável de insumos, como indústria automotiva, tecnologia de ponta e agronegócio exportador. Tarifas, embargos financeiros e bloqueios de rotas marítimas não são mais tratados como hipóteses remotas, mas como instrumentos já testados contra países como Rússia, Irã e Venezuela. O recado em Davos sugere que ninguém, nem mesmo aliados históricos, está imune à lógica da coerção econômica.

Governos que já buscavam maior autonomia estratégica veem na intervenção do canadense uma justificativa política adicional para diversificar parceiros. A União Europeia discute, desde 2023, mecanismos para proteger empresas de sanções extraterritoriais impostas por Washington. Países da Ásia e da África se aproximam de bancos de desenvolvimento ligados à China, que expandem sua carteira de empréstimos e investimentos em infraestrutura além de US$ 800 bilhões na última década.

A fala também reposiciona o Canadá no tabuleiro. Até aqui, Ottawa é percebida como peça previsível da engrenagem ocidental, alinhada em votações-chave na ONU, na Otan e no G7. Quando seu primeiro-ministro afirma em público que “colocamos a placa na janela, participamos dos rituais e, em grande parte, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade”, sinaliza desconforto com o papel de coadjuvante na estratégia americana. Para parceiros comerciais, a mensagem abre espaço para negociações que escapam do guarda-chuva de Washington.

Ruptura anunciada e a disputa pela próxima ordem global

O Fórum de Davos, fundado em 1971, sempre se vende como espaço para defender a cooperação global e a economia aberta. O pronunciamento de Carney expõe a tensão entre esse discurso e a prática recente de potências que usam tarifas, sanções e controle de tecnologia como instrumentos de pressão. Quando ele afirma que o mundo vive uma “ruptura, não uma transição”, coloca em questão o próprio papel do encontro suíço como mediador de interesses globais.

A partir de agora, governos e empresas tendem a testar, com mais intensidade, modelos paralelos de governança. O avanço dos BRICS, a expansão de acordos regionais de pagamento em moedas locais e a busca por rotas logísticas alternativas, fora da influência direta dos EUA, ganham novo impulso. Carney não apresenta um desenho pronto para essa nova ordem, mas força em Davos a pergunta que muitos evitam: quem escreverá as próximas regras do jogo global e qual preço cada país está disposto a pagar para não ficar subordinado a elas?

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