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França pede exercício da Otan na Groenlândia em reação a Trump

A França solicita que a Otan realize um exercício militar na Groenlândia e se oferece para participar da operação, em 21 de janeiro de 2026. O movimento ocorre em meio à escalada de tensão com Donald Trump sobre o futuro do território ártico.

Europa reage à pressão americana pelo Ártico

O anúncio parte do Palácio do Eliseu e mira diretamente a disputa em torno da maior ilha do planeta, território autônomo da Dinamarca. Paris tenta transformar um exercício militar inicialmente europeu, planejado para ocorrer fora da estrutura formal da Otan, em um gesto político da aliança atlântica como um todo, com participação americana.

“A França está solicitando um exercício da Otan na Groenlândia e está preparada para contribuir com ele”, afirma a Presidência francesa em nota divulgada nesta quarta-feira. O texto sai menos de um ano após o retorno de Donald Trump à Casa Branca e atinge um dos pontos mais sensíveis de sua agenda externa: o controle de uma região rica em minerais estratégicos, terras raras e novas rotas de navegação abertas pelo derretimento do gelo.

Trump volta a defender, desde o início de seu novo mandato, que os Estados Unidos “precisam” da Groenlândia por razões de segurança nacional. O argumento é que a presença americana evitaria uma supremacia militar e econômica de Rússia e China no Ártico. Na prática, a retórica reacende a polêmica de 2019, quando o então presidente chegou a falar em “comprar” a ilha, provocando reação irada de Copenhague.

Desta vez, o debate não se limita a declarações. Nas últimas semanas, segundo fontes diplomáticas europeias, a Casa Branca pressiona aliados a aceitarem algum tipo de acomodação que aumente a presença militar permanente dos EUA na ilha. A proposta, ainda nebulosa, encontra resistências abertas em capitais como Paris e Berlim, que enxergam o risco de uma tutela americana sobre um território europeu no coração do Atlântico Norte.

Tensão econômica e disputa por recursos estratégicos

O estopim imediato para o movimento francês é uma operação discreta realizada na semana anterior ao anúncio. França, Alemanha e Reino Unido enviam uma pequena equipe de soldados à Groenlândia em uma missão de reconhecimento, passo inicial para um exercício militar coordenado pela Dinamarca com apoio de aliados europeus. O treino ocorre fora da estrutura da Otan, sem participação de Washington, o que irrita profundamente Trump.

Em resposta, o presidente americano ameaça impor tarifas de até 25% a oito países europeus que criticam suas ambições sobre a ilha ártica. A ameaça acende o sinal de alerta em Bruxelas e alimenta o temor de uma nova frente de guerra comercial transatlântica, com impacto direto em setores como aço, automóveis e produtos agrícolas. A França passa a enxergar no selo da Otan uma espécie de seguro político diante da pressão econômica dos EUA.

Ao propor que o exercício dinamarquês seja incorporado à aliança atlântica, Paris tenta duas coisas ao mesmo tempo. De um lado, busca envolver formalmente Washington e reduzir a margem para ações unilaterais de Trump no Ártico. De outro, envia um recado para Moscou e Pequim de que os europeus não pretendem assistir de longe à corrida por recursos minerais e rotas marítimas em degelo na região.

O Ártico concentra reservas crescentes de interesse global. Estimativas citadas por diplomatas apontam que até 30% do gás natural não descoberto do planeta e 13% do petróleo ainda por explorar podem estar em áreas árticas. A Groenlândia adiciona à conta depósitos de terras raras, essenciais para baterias, turbinas e equipamentos eletrônicos. Em um cenário de transição energética e disputa tecnológica, o controle desse subsolo vale muito mais do que o gelo à superfície sugere.

A movimentação francesa também responde à atuação cada vez mais assertiva de Rússia e China. Moscou amplia portos militares, aeroportos e sistemas de defesa ao longo da rota marítima do Norte, que encurta o caminho entre Europa e Ásia. Pequim se autodeclara “Estado próximo ao Ártico”, entra em projetos de mineração na Groenlândia e se oferece para financiar infraestrutura em regiões remotas, aproximando-se do que diplomatas europeus chamam de “penetração silenciosa” chinesa na governança do gelo.

O que está em jogo para Otan, Europa e Groenlândia

A proposta francesa coloca a Otan diante de um teste concreto. Transformar um exercício bilateral ampliado em operação oficial da aliança significa reconhecer, na prática, que o Ártico entra no centro da agenda estratégica do bloco. Significa também expor, com mais clareza, o atrito entre europeus e a Casa Branca sobre quem define as prioridades na região.

Para a Dinamarca e o governo autônomo da Groenlândia, a equação é ainda mais delicada. A ilha depende de repasses de Copenhague, mas tenta, há anos, ampliar sua autonomia econômica explorando mineração, pesca e turismo. Uma maior presença militar da Otan pode trazer investimentos em infraestrutura, emprego e novas bases, porém aumenta o risco de transformar o território em palco de disputa permanente entre grandes potências.

No curto prazo, a iniciativa francesa tende a estreitar a cooperação entre os europeus dentro da Otan. Países como Alemanha, Reino Unido e Noruega defendem uma presença mais robusta no Atlântico Norte, sob o argumento de que submarinos russos testam regularmente os limites de defesa da aliança. Um exercício de grande porte na Groenlândia funcionaria como vitrine de coesão militar e sinal de alerta para rivais, sem recorrer a gestos abertamente hostis.

O cálculo, porém, não é simples. Um movimento mais visível da Otan no Ártico pode acelerar a reação russa, que já moderniza sua frota de quebra-gelos armados e intensifica voos militares na região polar. Também pode estimular a China a reforçar sua presença científica e comercial, criando novas frentes de atrito diplomático com a Europa.

Nos bastidores, diplomatas europeus admitem que a disputa pelo Ártico passa, inevitavelmente, pela agenda ambiental. O aquecimento global torna navegáveis, por mais meses ao ano, rotas que antes ficavam trancadas pelo gelo. A perspectiva de exploração mais intensa de petróleo, gás e minerais na Groenlândia entra em choque com compromissos climáticos assumidos em conferências da ONU. O desenho de qualquer exercício da Otan terá de lidar com essa tensão entre segurança, economia e clima.

Próximos passos e dúvidas abertas

Os próximos dias colocam a proposta francesa sob escrutínio nos corredores da Otan. A Dinamarca precisa avalizar a ideia de transformar seu exercício em operação da aliança, enquanto o comando militar em Bruxelas analisa cronograma, custos e objetivos. A discussão passa por datas concretas: aliados trabalham com a janela de meados de 2026 para um grande treinamento no Ártico, o que exigiria planejamento logístico imediato.

Trump, por sua vez, deve usar a ameaça de tarifas como instrumento de barganha. Assessores na Casa Branca falam em prazos de “alguns meses” para que a Europa apresente uma “proposta aceitável” para a presença americana na Groenlândia, numa negociação que mistura bases militares, acesso a recursos naturais e participação em contratos de mineração.

O gesto francês reposiciona a Europa como ator central na definição do futuro do Ártico e tenta evitar que as decisões sobre a ilha sejam tomadas apenas entre Washington e Copenhague. A dúvida é se a Otan conseguirá transformar um exercício militar em ponto de equilíbrio entre aliados e rivais ou se a Groenlândia se tornará, de forma ainda mais explícita, o novo tabuleiro de uma disputa global por território, poder e recursos estratégicos.

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