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Trump convida Lula para conselho sobre Gaza e cria armadilha diplomática

Donald Trump envia a Luiz Inácio Lula da Silva um convite formal para integrar um conselho de paz sobre Gaza, em 22 de janeiro de 2026. O gesto, apresentado como esforço multilateral, coloca o governo brasileiro diante de um dilema diplomático com impacto direto nas relações com Washington e na política interna em Brasília.

Convite que parece avanço, mas expõe armadilha

O documento chega ao Itamaraty por via diplomática reservada, assinado em nome da Casa Branca e carimbado com a data de 20 de janeiro. No texto, Trump propõe a criação de um “conselho internacional de paz para Gaza” e oferece a Lula um assento permanente no grupo, ao lado de representantes dos Estados Unidos, de Israel e de dois países árabes ainda não divulgados publicamente.

Nos bastidores, diplomatas descrevem o gesto como uma oportunidade com custo alto. Aceitar o convite garante a Lula um lugar à mesa em um dos conflitos mais sensíveis do planeta, com impacto direto sobre pelo menos 2,3 milhões de palestinos que vivem na Faixa de Gaza. Também projeta o Brasil como ator relevante em uma negociação que movimenta bilhões de dólares em ajuda humanitária e contratos de reconstrução previstos para os próximos cinco anos.

O desenho do conselho, porém, desperta desconfiança. A proposta prevê reuniões trimestrais, a partir de março, em Washington, com relatórios semestrais chancelados pela presidência americana. A estrutura concentra poder político e de comunicação nas mãos da Casa Branca, ao mesmo tempo em que distribui a Lula parte da responsabilidade por eventuais fracassos no processo de mediação.

Assessores de Lula avaliam que o convite expõe o presidente a um dilema clássico de política externa: recusar pode soar como recuo do discurso multilateral que marca sua trajetória desde o início dos anos 2000; aceitar implica navegar sob forte pressão doméstica e sob a sombra de um líder americano imprevisível, em ano em que alianças regionais ainda digerem crises anteriores no Oriente Médio.

Pressão externa, risco interno

O gesto de Trump chega em um momento em que o governo brasileiro tenta calibrar sua posição entre a defesa de um cessar-fogo duradouro em Gaza e a preservação de canais de diálogo com Washington. Desde outubro de 2023, quando a escalada de violência na região volta ao centro da agenda global, o Planalto reforça o discurso em organismos multilaterais e vota sistematicamente a favor de resoluções que pedem trégua e acesso humanitário imediato.

A proposta americana, embora fale em paz, não menciona cessar-fogo obrigatório nem cronograma claro de retirada militar israelense. O texto obtido por negociadores brasileiros enfatiza “garantias de segurança a Israel” e “mecanismos de desarmamento de grupos armados em Gaza”. Em nenhuma linha a carta detalha como será a participação palestina no conselho ou se o Hamas terá representação direta ou indireta nas conversas.

A assimetria preocupa integrantes da ala mais cautelosa do Itamaraty, que lembram o episódio de 2010, quando Brasil, Turquia e Irã tentam costurar um acordo nuclear alternativo e acabam isolados após mudanças de posição em Washington. “A diferença agora é que o custo de imagem é imediato, porque o tema Gaza mobiliza a opinião pública brasileira em tempo real”, resume um embaixador que acompanha o dossiê do Oriente Médio há mais de 15 anos.

No Brasil, o cálculo político é milimétrico. Setores da esquerda veem o convite como movimento de cooptação e pressionam Lula a condicionar qualquer participação a um compromisso explícito dos Estados Unidos com a criação de um Estado palestino em fronteiras de 1967. Grupos mais alinhados ao agronegócio e ao mercado financeiro indicam preocupação com retaliações comerciais, caso Brasília adote postura considerada hostil por Washington.

Parlamentares próximos ao Planalto estimam que uma decisão a favor da entrada no conselho pode alimentar pelo menos três frentes de contestação: críticas de parte da base governista, que rejeita aproximação excessiva com Trump; ataques da oposição, que acusa Lula de se envolver em crise distante; e pressão de lobbies econômicos interessados em manter o fluxo anual de cerca de US$ 100 bilhões em comércio bilateral com os Estados Unidos.

Autonomia em teste e próximos passos

O convite de Trump testa a promessa de Lula de manter a política externa brasileira “altiva e ativa”, fórmula que ele repete desde seu primeiro mandato, iniciado em 2003. A diferença, duas décadas depois, está no ambiente internacional mais fragmentado, com crises simultâneas na Ucrânia, no Mar Vermelho e no próprio sistema da ONU, onde vetos sucessivos paralisam o Conselho de Segurança.

Diplomatas brasileiros calculam que o governo terá, na prática, entre 30 e 45 dias para responder formalmente ao convite, prazo considerado curto para uma decisão com impacto potencial de anos. Nesse período, o Planalto deve intensificar consultas com parceiros dos BRICS, entre eles Índia, China e África do Sul, e sondar discretamente países árabes que já financiam ajuda humanitária em Gaza.

O Itamaraty também prepara notas técnicas com cenários de risco político e econômico. Um dos documentos, segundo fontes ouvidas reservadamente, projeta que a entrada no conselho pode elevar o protagonismo brasileiro no debate sobre Gaza, mas também associar o país a decisões impopulares, como eventuais sanções adicionais a atores regionais ou atrasos na reconstrução de infraestrutura básica, estimada em ao menos US$ 10 bilhões até 2030.

Caso rejeite o convite, o Brasil corre o risco de ver reduzido seu espaço em futuras negociações e de enfrentar discurso público da Casa Branca de que teria abandonado uma “janela histórica” de participação. A aceitação, por outro lado, tende a ser acompanhada de cobranças diárias, tanto de aliados internos quanto de movimentos internacionais pró-Palestina, que esperam posições mais firmes de Brasília.

Lula entra, assim, em um corredor estreito. Qualquer resposta a Trump, seja um sim condicionado, seja um não calculado, redefinirá o lugar do Brasil na disputa por influência sobre o futuro de Gaza e recalibrará o balanço delicado com os Estados Unidos. O desfecho, nas próximas semanas, indicará até onde o governo está disposto a ir para combinar multilateralismo, autonomia e sobrevivência política doméstica.

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