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Tarcísio cancela visita a Bolsonaro e expõe racha no bolsonarismo

O governador Tarcísio de Freitas desiste de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro em janeiro de 2026, após novos atritos com o clã. A decisão expõe o desgaste da relação e amplia dúvidas sobre o futuro da aliança bolsonarista em São Paulo e no país.

Tensão crescente entre aliados desde 2024

A visita de Tarcísio a Bolsonaro era discutida há semanas e chegou a ser tratada como certa por aliados dos dois. O encontro, previsto para ocorrer na primeira quinzena de janeiro de 2026, seria o primeiro gesto público de reaproximação após uma série de ruídos acumulados desde as eleições municipais de 2024. Em vez de imagem de unidade, o episódio termina como mais um capítulo do desgaste entre o governador e o núcleo familiar do ex-presidente.

Nos bastidores, interlocutores relatam que o estresse entre Tarcísio e integrantes do clã Bolsonaro cresce de forma constante ao longo dos últimos meses. Um assessor que acompanha as conversas descreve um ambiente de “cobranças permanentes e pouca disposição para recuar”. A avaliação é de que a relação, que já foi símbolo de alinhamento absoluto em 2022, hoje é marcada por desconfiança mútua e disputas por espaço político em estados-chave, sobretudo São Paulo e Rio de Janeiro.

Flávio Bolsonaro vira foco do conflito

A decisão de cancelar a visita ocorre depois de novas tensões envolvendo o senador Flávio Bolsonaro. Aliados de Tarcísio afirmam que declarações recentes do parlamentar, vistas como recado público ao governador, foram o ponto de inflexão. Em conversas reservadas, dirigentes relatam que o senador pressionava por gestos mais claros de fidelidade de Tarcísio ao ex-presidente, especialmente em votações sensíveis no Congresso e na montagem de palanques para 2026.

Uma fonte ligada ao governador, que participa da articulação com partidos do centrão, resume o clima: “Não é uma ruptura formal, mas é o alerta mais forte até agora. Tarcísio se sente cobrado em público e pouco apoiado em momentos decisivos”. Pessoas próximas ao clã Bolsonaro, por sua vez, acusam o governador de “distanciamento calculado” e de priorizar acordos locais, em especial com o Republicanos, em detrimento de alinhamentos nacionais com o PL.

Da aposta em 2022 ao atrito em 2026

A relação entre Tarcísio e Bolsonaro nasce com força em 2022, quando o então presidente aposta no ex-ministro da Infraestrutura e o lança ao governo de São Paulo. À época, a campanha apresenta o governador como “braço executivo” do projeto bolsonarista, e o apoio de Bolsonaro é decisivo para a vitória no segundo turno, com pouco mais de 55% dos votos válidos. Dentro do grupo, Tarcísio passa a ser visto como herdeiro viável e possível nome presidencial em um horizonte de quatro a oito anos.

A partir de 2023, o cenário se torna mais complexo. Bolsonaro enfrenta processos na Justiça Eleitoral, vê o mandato político cassado até 2030 e passa a concentrar energia na proteção jurídica da família. Tarcísio, já no comando do maior orçamento estadual do país, superior a R$ 300 bilhões anuais, busca ampliar pontes com setores empresariais e partidos que não se identificam com o bolsonarismo mais radical. A tentativa de equilibrar os dois mundos gera atritos repetidos.

Impacto na direita e nas estratégias para 2026

O cancelamento da visita não é apenas um gesto pessoal. A decisão tem efeito direto na disputa por liderança na direita e na organização dos palanques para as eleições municipais de 2026. Em São Paulo, onde o bolsonarismo já testou sua força em 2020, 2022 e 2024, a falta de uma fotografia recente de Tarcísio ao lado de Bolsonaro alimenta especulações sobre candidaturas próprias do clã, seja à Prefeitura da capital, seja a cargos federais estratégicos.

Analistas políticos ouvidos reservadamente avaliam que a fissura pode encorajar outros aliados a tomar distância. “Quando o principal governador do campo de direita sinaliza limites, o recado chega a prefeitos, deputados e empresários”, diz um consultor que trabalha para partidos do centrão. A leitura é que o gesto de Tarcísio pode pesar na hora de compor chapas, definir apoio financeiro de grandes doadores e costurar alianças interestaduais para a formação de palanques presidenciais.

Riscos para o projeto nacional de Tarcísio

A aposta de Tarcísio, segundo aliados, é conquistar certa autonomia sem romper de forma definitiva com a base bolsonarista, que ainda concentra um núcleo duro de votos superior a 20% em alguns estados. O cálculo, porém, envolve risco considerável. Se o clã Bolsonaro decidir lançar um nome próprio ao Planalto ou apoiar outra candidatura de direita, o governador pode ver sua base fragmentada em 2026 ou 2030, exatamente no momento em que tenta se consolidar como alternativa nacional.

Do lado bolsonarista, a leitura é ambígua. Integrantes do PL lembram que Bolsonaro segue como principal puxador de votos da direita e apontam que, mesmo inelegível, o ex-presidente ajuda a eleger bancadas robustas. A avaliação interna é que nenhum nome “herda” esse capital político automaticamente. “Quem quiser esse eleitorado terá de demonstrar lealdade constante. Meia fidelidade não basta”, diz um dirigente partidário.

Próximos movimentos e cenário em aberto

Apesar da desistência da visita, interlocutores de ambos os lados afirmam que a comunicação não está rompida. Há expectativa de nova tentativa de encontro ainda no primeiro semestre de 2026, possivelmente em Brasília, em data a ser definida de acordo com a agenda judicial de Bolsonaro. Até lá, cada gesto público será observado com lupa por aliados, adversários e pelo mercado, que acompanha com atenção o tabuleiro sucessório.

A forma como Tarcísio administra o impasse nos próximos meses pode definir o tamanho de seu protagonismo nacional. A dúvida é se o governador conseguirá manter a base bolsonarista por perto enquanto amplia sua interlocução com o centro político, ou se o conflito desta semana marca o início de uma separação gradual. A resposta, como admitem aliados dos dois lados, dificilmente virá em um único gesto, mas na soma de decisões que se desenham até 2026.

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