Em Davos, premiê do Canadá desafia ordem liderada pelos EUA
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, desafia a ordem internacional liderada pelos Estados Unidos em um discurso contundente no Fórum de Davos, em janeiro de 2026. Diante de uma plateia de bilionários e chefes de Estado, ele acusa Washington de usar a integração econômica global como arma de subordinação. A fala, feita na Suíça, rompe o script habitual de deferência ao poder americano.
Choque em Davos e ruptura com a retórica oficial
O salão principal do centro de convenções em Davos está lotado quando Carney sobe ao palco, a cerca de 1.500 metros de altitude, no leste da Suíça. A expectativa gira em torno do encontro com Donald Trump, previsto para os dias seguintes, mas o canadense toma a dianteira do debate geopolítico. Ele abandona o tom protocolar que domina o Fórum Econômico Mundial desde sua criação, em 1971, e parte para um diagnóstico frontal sobre a ordem internacional do pós-guerra.
Carney lembra que a chamada “ordem internacional baseada em regras”, construída depois de 1945, se organiza em torno da liderança americana e de instituições como ONU, FMI e Banco Mundial. Em vez de celebrar esse arranjo, aponta o que chama de ficção funcional. “Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando lhes convinha”, afirma. Ele segue: “As regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e o direito internacional se aplicava com rigor variável, dependendo da identidade do acusado ou da vítima”.
A plateia, acostumada a ouvir elogios ao chamado “Ocidente liberal”, reage com silêncio e olhares trocados. O choque aumenta porque o autor do ataque é, em tese, um dos aliados mais confiáveis de Washington. O Canadá participa da Otan desde 1949, mantém cooperação militar intensa com os EUA e integra, há três décadas, o Nafta e seu sucessor, o USMCA, acordo que move mais de US$ 1,5 trilhão por ano em comércio na América do Norte. Em Davos, porém, Carney decide virar a arma do discurso contra o centro do sistema.
Da visita a Pequim ao mapa de Trump
O discurso vem dias depois de uma visita de Estado à China, onde Carney se reúne com Xi Jinping em Pequim. Ali, segundo assessores, o canadense ouve críticas diretas ao uso de sanções unilaterais pelos Estados Unidos e à militarização de cadeias de suprimentos estratégicas, como semicondutores e energia. Ao voltar à Europa, ele leva essas preocupações para o coração simbólico da globalização financeira, diante de executivos que controlam trilhões de dólares em ativos.
O contexto imediato também pesa. Na véspera, Trump publica em sua rede social uma imagem de mapa dos Estados Unidos que inclui Canadá, Venezuela, Cuba e Groenlândia como parte do território americano. O gesto, tratado pela Casa Branca como provocação bem-humorada, repercute mal em capitais estrangeiras. Em Davos, a ilustração circula nos celulares de diplomatas e banqueiros, alimentando o clima de desconforto. É nesse ambiente que Carney sobe o tom.
“Essa ficção era útil, e a hegemonia estadunidense, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva”, reconhece o primeiro-ministro. O elogio, porém, abre caminho para a guinada. “Esse acordo não funciona mais. Deixe-me ser direto. Estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição.” Ao falar em ruptura, Carney mira na ideia de que o mundo caminha apenas para ajustes graduais da ordem atual. Na visão dele, a forma como Washington e aliados usam a integração econômica transforma o próprio fundamento do sistema.
O canadense descreve o que chama de “integração global extrema”, marca das duas últimas décadas. Ele cita crises sucessivas, de 2008, na área financeira, à pandemia de covid-19, em 2020, e à escalada geopolítica entre EUA, Rússia e China. “Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas de finanças, saúde, energia e geopolítica expôs os riscos da integração global extrema”, diz. Em seguida, acusa as grandes potências de converter interdependência em pressão. “Tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção, cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas.”
Integração como arma e espaço para os BRICS
Ao afirmar que “não se pode viver na mentira do benefício mútuo por meio da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação”, Carney mexe no centro da narrativa que embalou a globalização desde os anos 1990. O alvo principal são as sanções econômicas, que se multiplicam desde o fim da Guerra Fria. Entre 1990 e 2025, o número de regimes de sanções ativos sobe de menos de 30 para mais de 100, segundo levantamentos independentes, com os Estados Unidos liderando boa parte dessas medidas.
A crítica ecoa o discurso dos BRICS, grupo fundado em 2009 por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul e ampliado nos últimos anos. Esses países apontam justamente o uso do dólar e do sistema financeiro ocidental como instrumentos de coerção. Em Davos, Carney reconhece, sem citar nomes, que blocos alternativos ganham força impulsionados por essa insatisfação. “Os BRICS surgiram muito em função do que ele admite, depois que Estados Unidos e o Ocidente passaram a utilizar sanções econômicas amplamente como forma de ‘guerra’”, resume um diplomata latino-americano presente ao evento.
A fala tem efeito imediato em setores que dependem de cadeias globais de produção. Executivos da indústria farmacêutica, de tecnologia e de energia discutem em reuniões fechadas o risco de novas ondas de sanções e tarifas direcionadas. Empresas com forte exposição a mercados como China, Rússia e Irã avaliam rotas alternativas de financiamento, fora do circuito dominado por bancos americanos e europeus. Gestores de fundos tentam calcular quanto custa uma reconfiguração parcial dessas cadeias em até cinco anos, prazo considerado curto no mundo dos investimentos.
Para o Canadá, que mantém com os Estados Unidos um fluxo anual de comércio superior a US$ 700 bilhões e partilha mais de 8 mil quilômetros de fronteira, o discurso representa um afastamento simbólico da integração “sem freios”. Carney não anuncia saídas de acordos nem rompimentos formais, mas marca posição ao afirmar que não existe mais consenso automático em torno da hegemonia americana. Em linguagem de mercado, envia um sinal de risco estrutural para a aposta na velha ordem liberal.
Mundo mais fragmentado e disputa por novas regras
Diplomatas em Davos avaliam que a fala do canadense fortalece governos que pedem maior pluralidade nas instituições globais. Reformas no Conselho de Segurança da ONU, na governança do FMI e no Banco Mundial, discutidas há pelo menos 20 anos, ganham novo combustível político. Países médios, como Brasil, México, Indonésia e África do Sul, enxergam margem maior para cobrar espaço em negociações comerciais e financeiras.
No curto prazo, a pressão recai sobre Washington, que enfrenta eleições presidenciais em novembro de 2026. O discurso em Davos pode virar munição para democratas e republicanos com visões distintas sobre o papel dos EUA no mundo. Trump, que transforma um mapa de anexações imaginárias em meme político, encontra agora a reação pública de um líder de país vizinho e aliado estratégico. A tensão entre ironia e ameaça, que parecia limitada às redes sociais, passa a integrar o debate formal sobre segurança e soberania.
O Fórum de Davos, criado para promover diálogo entre governos e grandes empresas, se converte neste início de 2026 em termômetro da fragmentação global. De um lado, executivos defendem proteger cadeias de valor e preservar, ao menos em parte, a lógica de integração que garantiu décadas de crescimento. De outro, governos pressionados por eleitorados desconfiados tentam mostrar que não se submetem mais cegamente a Washington ou a qualquer outra capital.
Carney encerra o discurso sem oferecer um modelo pronto para o dia seguinte, mas ao cravar que “estamos em meio a uma ruptura, não a uma transição”, obriga a elite econômica a abandonar o conforto da ambiguidade. A pergunta que ecoa nos corredores do resort suíço é simples e incômoda: quem vai escrever as novas regras de um mundo em que a velha placa de “ordem baseada em regras” já não convence nem seus próprios guardiões?
